Mundos Opostos – Capítulo 33 (Últimos Capítulos)

Mundos OpostosCENA 01: MANSÃO ANDRADE BASTOS/SALA/INT./TARDE

Tocam a campainha. Cassandra se levanta do sofá e vai até a porta para atender. Ela atende e se surpreende ao ver dois policiais.

CASSANDRA (surpresa) – Pois não?

POLICIAL – Débora Matias Andrade Bastos?

CASSANDRA – É a minha neta. Ela está em seu quarto.

POLICIAL – Temos um mandado de prisão preventiva contra a sua neta. Precisamos levá-la em custódia até a delegacia.

Nesse momento, Débora surge no alto da escada e estaciona ao ver os policiais.

CASSANDRA – Do que se trata?

POLICIAL – Sua neta está sendo acusada de tentativa de homicídio contra Luís Eduardo da Costa.

Os três se viram na direção do alto da escada, onde está Débora. Abalada, a moça deixa cair uma lágrima.

DÉBORA – Eu não acredito que a senhora me entregou, vó…

Cassandra caminha até Débora, no alto da escada.

CASSANDRA – Não fui eu quem lhe entreguei. Mas eu agradeço muito à pessoa que fez a denúncia. Você cometeu um crime e deverá ser punida, e não é porque você é minha neta que eu devo protegê-la de tudo. Eu não posso obstruir a justiça.

DÉBORA – Eu te odeio, vó.

CASSANDRA – Os policiais têm um mandado de prisão preventiva e vão lhe levar à delegacia agora. Eu peço que você não resista à prisão, porque vai ser pior pra você.

Cassandra segura as mãos de Débora, mas ela se solta. Cassandra tenta levar Débora à força, mas a moça se solta e empurra Cassandra. Desequilibrada, Cassandra cai e começa a rolar as escadas da mansão, sob os assustados olhares de Débora e dos policiais.

Assim que Cassandra chega ao chão, um dos policiais entra e começa a socorrer Cassandra, buscando sinais vitais. Ele fracassa. Em seguida, ele se levanta e aponta o dedo para Débora.

POLICIAL – Você está presa em flagrante por homicídio!

Débora fica paralisada, imóvel, encarando o corpo morto de sua avó. O policial sobe as escadas e segura o braço de Débora, que não move um músculo para reagir. Ela permite ser algemada e levada em custódia pelo policial para fora da mansão.

CENA 02: MANSÃO ANDRADE BASTOS/FACHADA/EXT./TARDE

Débora é levada pelos dois policiais até uma das portas traseiras da viatura policial. Um deles abre a porta e o outro ajuda Débora a se sentar no banco. A porta é fechada e os dois policiais entram nos bancos dianteiros da viatura. O policial motorista dá partida e o carro parte rumo à delegacia.

CENA 03: HOSPITAL/RECEPÇÃO/INT./TARDE

Alice volta para a recepção. Ela se surpreende ao notar apenas a presença de Dimas, Ricardo e Maurício ali.

ALICE – Gente, cadê todo mundo?

Os três, distraídos com a tela do celular de Dimas, se assustam e dirigem seu olhar para Alice. Eles, então, percebem que estão sozinhos ali na recepção.

RICARDO – Gente, cadê o tio Jair?

DIMAS – E ele veio? Nem percebi…

RICARDO – É, assim que ele veio ele foi lá ver o Luís.

Nesse momento, Jair chega à recepção.

MAURÍCIO – Onde você estava, Jair?

JAIR – Ué, eu fui no banheiro. Eu disse pra vocês.

RICARDO – Cadê o seu Angelo e a dona Bárbara?

JAIR – A Bárbara tá lá com o Luís. Agora o Angelo eu não sei.

MAURÍCIO – Cadê o Vinícius e o Venâncio?

Nesse momento, Vinícius chega à recepção e se assusta ao não ver Venâncio ali.

MAURÍCIO – Vinícius, cadê o teu irmão?

VINÍCIUS – Tava procurando por ele. Ele disse que ia ver o hospital, mas ele demorou tanto que eu fiquei preocupado e fui procurar ele. Como eu achei que ele já tinha voltado, eu voltei pra cá.

RICARDO – Angelo e Venâncio desaparecidos. Que ótimo…

DIMAS – Será que eles não voltaram pra casa?

MAURÍCIO – Pode ser. Mas mesmo assim…

Nesse momento, Bárbara chega à recepção e nota a ausência de Angelo.

BÁRBARA – Cadê o Angelo?

DIMAS – Acho que ele voltou pra casa sozinho. Só acho mesmo, não tenho certeza.

MAURÍCIO – Quando a gente voltar pra casa, a gente vê se o Angelo levou o Venâncio junto com ele.

DIMAS – Agora eu e o Ricardo vamos lá ver o Luís.

CENA 04: MANSÃO ANDRADE DA COSTA/SALA/INT./TARDE

Maria entra na mansão e se surpreende com a presença de Igor ali. Imediatamente, ele se levanta do sofá e abre um sorriso para a namorada.

IGOR – Maria, você não sabe o que aconteceu hoje.

MARIA – O que houve?

IGOR – Agora a pouco, eu soube que a Débora foi presa.

Maria se surpreende com o que ouve de Igor. Ela não consegue esboçar nenhuma reação diferente da inexpressividade.

MARIA – Ela foi presa?

IGOR – Aham. Inicialmente, ela só ficaria detida na delegacia. Depois que ficasse comprovado que ela realmente agrediu o seu irmão dolosamente, aí sim ela seria oficialmente encarcerada. Mas, quando a polícia bateu lá na casa dela, ela discutiu com a dona Cassandra e a empurrou da escada. Foi o suficiente para ela ser presa em caráter efetivo.

MARIA – Por quê?

IGOR – Homicídio em flagrante.

MARIA (chocada) – A Débora matou a dona Cassandra?

IGOR – Aham. A dona Cassandra morreu na hora. O Gustavo tá lá no IML, se encarregando de todos os processos, em nome da mãe.

MARIA – Meu Deus… essa mulher perdeu o juízo de vez. Tentou matar o meu irmão e ainda matou a própria avó na frente da polícia…

IGOR – Sinceramente, eu duvido muito que a Débora tenha matado a dona Cassandra na frente da polícia porque quis. Eu acho que foi um acidente, ela deve ter tentado resistir à prisão e deu no que deu… mas enfim, não posso falar nada, não estive lá para julgar se foi proposital ou acidental.

Helena vem descendo as escadas e pega o final da fala de Igor.

HELENA – Sobre o que estão conversando?

Igor e Maria olham para Helena. Igor se aproxima da irmã, pensando na melhor maneira de lhe contar a verdade.

IGOR – É um assunto bem delicado, e nós não vemos uma maneira menos chocante de falar. Mas o que houve é que a polícia prendeu a Débora.

HELENA – Sério?

IGOR – O que mais choca não é a prisão da Débora, mas sim o motivo.

HELENA – Claro, ela tentou matar o Dimas e o Luís Eduardo com um estilete. Tava demorando pra polícia ir bater lá na mansão Andrade Bastos pra deter a Débora.

IGOR – Não é isso. É que a Débora matou a dona Cassandra na frente dos policiais.

Helena se choca com o que ouve de Igor. Maria enxuga as lágrimas que ameaçam cair dos seus olhos.

HELENA – A Débora matou a dona Cassandra?

IGOR – Sim. Por isso que o Paulo Gustavo saiu de casa agora há pouco. Pra acompanhar o processo de reconhecimento de corpo, obtenção de atestado de óbito e afins lá no IML. Nesse momento, a Débora deve estar lá na delegacia sendo posta dentro de uma cela.

HELENA – Eu tento, mas não consigo me comover com isso. Fico aliviada, porque enfim a Débora não poderá mais infernizar as nossas vidas. Ela está atrás das grades, pagando pelos crimes que cometeu, amargando a sua derrota e a perda de tudo aquilo que ela ambicionou.

IGOR – E tudo poderia ter sido diferente. Que Deus me perdoe, mas a verdade é que a dona Cassandra foi a principal culpada disso. Alguma coisa ela errou pra transformar a Débora nesse monstro. E parece que aquele acidente bagunçou ainda mais o juízo dela.

HELENA – Agora ela está atrás das grades, tratada como um perigo para a sociedade. Ela deveria estar vestida numa camisa de força dentro de um hospital psiquiátrico, sendo tratada para não ser um perigo para a sociedade. Gente como ela não merece ser presa, merece ser internada.

MARIA – O que a Débora merece é a pena de morte. O dano que ela causou só pode ser reparado eliminando ela da sociedade, pra garantir que ela jamais volte a fazer isso.

Helena e Igor se assustam com o comentário de Maria.

IGOR – O que é isso, Maria?

MARIA – A verdade. Prender a Débora não vai resolver o problema. Ela vai ficar, sei lá, no máximo 30 anos presa, isso não vai fazê-la pagar pelos seus crimes, vai apenas deixá-la pior. E não há nenhum tratamento psiquiátrico no mundo que reabilite um psicopata do quilate da Débora. A única solução é a pena de morte.

HELENA – Não existe pena de morte no Brasil, Maria. Nós temos que nos contentar em vê-la perder, no máximo, 30 anos de sua vida atrás das grades, ou então passar o resto da sua vida dentro de um hospício.

MARIA – Eu quero ir ver a Débora lá na delegacia.

Helena e Igor se surpreendem com o pedido de Maria.

IGOR – Tem certeza, meu amor?

MARIA – Eu quero ver a Débora. Se possível, agora mesmo.

HELENA – Você vai levá-la, Igor?

IGOR – Sim, vou levar. Pelo menos lá ela não vai poder fazer nenhum mal contra a Maria. Tá certo que ela matou a dona Cassandra na frente de dois policiais, mas eu acredito que isso tenha acontecido por acidente.

MARIA – Então vamos. Eu quero olhar na cara daquela mulher e dizer umas coisinhas que estão começando a entalar aqui na minha garganta.

IGOR – Tá bom, mas primeiro vamos nos preparar. Você precisa tomar um banho, acabou de chegar do hospital.

MARIA – Tá bom…

Igor e Maria sobem as escadas da mansão, deixando Helena sozinha na mansão. Sua expressão facial exala medo e preocupação.

CENA 05: CASA DE JÉSSICA/QUARTO DE JÚLIO/INT./TARDE

Júlio e Luciana estão deitados na cama. Suas nudezes são cobertas pelos lençóis da cama. Exaustos e ofegantes, os dois se entreolham. Luciana sorri para Júlio, que devolve um olhar neutro.

LUCIANA – Sabe, de repente eu me arrependi de ter namorado o Ricardo por três meses. Se eu soubesse que tu era esse macho gostoso que tu provou ser agora, eu tinha dedicado todos os meus esforços pra te separar da Bárbara. Eu teria menos dificuldade, não estaria destruindo nenhum relacionamento, seria bem aceita pela família e ainda sairia no lucro.

JÚLIO – Tu não sabe o quanto a tua fixação no Ricardo me prejudicou. Eu fiquei amargando uma culpa imensa dentro de mim por ter te ajudado a destruir o namoro do meu primo com o Dimas, morria de medo deles descobrirem e me odiar pelo resto da vida.

LUCIANA – Você não acha que nós poderíamos ter—

JÚLIO – Não, não acho. Tu me fez muito mal, e não vai ser um agrado sexual que vai me fazer mudar a impressão que eu tenho de ti. Eu prefiro que tu esqueça que a gente existe e volte pra debaixo das asas do Guto.

LUCIANA – Eu não. Eu quero que tu me ajude a cumprir a minha promessa. Se o seu primo não ficar comigo, ele não fica com mais ninguém.

JÚLIO – Luciana, tá me achando com cara de Guto pra me tratar como capacho teu? Eu errei em ter te ajudado a separar o Dimas do meu primo, e não vou errar de novo em te ajudar a evitar que o Dimas e o Ricardo voltem. Errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Tu realmente achou que atacar o meu ponto fraco podia me comprar? Pois tu errou feio. Errou feio, errou feio, errou rude!

Luciana se levanta da cama, saindo do foco da câmera, e vai se vestir. Júlio fica no foco da câmera, observando Luciana se vestir.

LUCIANA – É uma pena, sabe, Júlio… perdeu uma excelente oportunidade.

JÚLIO – Perdi mesmo. Uma excelente oportunidade de acabar com a minha vida. E sou muito feliz em preservar os laços que eu tenho com o meu primo e com o Dimas. Eles têm todo o meu apoio para voltarem.

LUCIANA – Você perdeu uma excelente oportunidade de preservar os laços com o Dimas e o Ricardo. Porque eles ficarão sabendo o que você fez para separá-los.

Imediatamente, Júlio tenta se levantar da cama, mas Luciana o impede de sair da cama, deixando-o ali deitado.

LUCIANA – Vamos ver quem o Dimas vai odiar mais: eu, por ter causado o acidente que deixou ele na cadeira de rodas; ou você, que foi capaz de apunhalá-lo pelas costas. Eu sei que o Dimas te estima muito, tem em você o irmão que ele não tem mais. E quando ele descobrir que você o traiu, será que ele continuará lhe estimando? Melhor perguntando, será que ele vai voltar a olhar pra sua cara?

JÚLIO – Você não vai fazer isso. Eu te mato antes!

Júlio surpreende Luciana e começa a apertar-lhe o pescoço. Luciana tenta se soltar, mas ele é mais forte.

CENA 06: CASA DE JÉSSICA/CORREDOR/INT./TARDE

Jéssica vai até o quarto de Júlio. Ela percebe que a porta está fechada. Ela tenta girar a maçaneta, mas a porta não abre.

JÉSSICA – Júlio? Tu trancou a porta? Abre, Júlio!

Sem respostas. Jéssica estranha. Como ela não consegue abrir a porta, ela começa a bater, para que Júlio abra.

CENA 07: CASA DE JÉSSICA/QUARTO DE JÚLIO/INT./TARDE

Júlio e Luciana ouvem as batidas de Jéssica.

LUCIANA – Me solta, Júlio.

JÚLIO – Eu só te solto quando eu conseguir te matar.

JÉSSICA (voz) – Júlio, meu filho, por favor, abre essa porta.

Luciana consegue juntar forças para desferir um soco contra o estômago de Júlio. Com a dor, ele imediatamente solta Luciana, que corre até a porta, destranca, abre e foge. Jéssica se assusta com a saída de Luciana, mas se choca ao ver o estado de Júlio. Ela corre até o filho, tentando socorrê-lo.

JÉSSICA – Meu filho! Tu tá bem, meu filho?

JÚLIO (baixo) – Aquela vagabunda me paga!

JÉSSICA – O que aconteceu, Júlio? O que a Luciana estava fazendo aqui? O que ela queria?

JÚLIO – Ela queria que eu ajudasse ela a voltar pro Ricardo.

JÉSSICA – Mas por que tu tá deitado na cama assim?

JÚLIO – Como tu acha que aquela vagabunda tentou me comprar?

JÉSSICA – Vocês transaram?

Júlio balança com a cabeça, subentendendo uma resposta positiva. Jéssica se choca com a resposta do filho.

CENA 08: CASA DE ANGELO E BÁRBARA/SALA/INT./TARDE

Angelo, Carolina e Jonas estão sentados no sofá, conversando.

JONAS – A Carolina já pediu o divórcio. Assim que nós três tivermos tempo, nós vamos até o cartório dar entrada no processo.

ANGELO – Mas vocês se casaram em comunhão de bens. Como vocês vão resolver isso?

JONAS – Nós não tivemos tempo de adquirir bens. Em questão econômica e de bens materiais, o divórcio não vai interferir em nada na nossa vida. O único bem que nós temos, assim podemos dizer, é o nosso filho. E como é uma vida, indivisível, nós vamos entrar em um acordo para compartilhar a guarda do Felipe, sem precisar levar isso aos tribunais.

ANGELO – É uma decisão indiscutível?

JONAS – Sim, seu Angelo, uma decisão indiscutível. Não dá mais pra nós dois vivermos juntos como casal. Foi a sua filha quem chegou a essa conclusão primeiro, e depois eu refleti e cheguei à mesma conclusão que ela.

ANGELO – E por qual motivo?

Carolina e Jonas se entreolham.

JONAS – Por motivos pessoais. A nossa convivência como casal nunca foi completamente harmônica, frequentemente entrávamos em atrito por motivos cada vez mais banais. De uns meses pra cá, o clima estava tão pesado que estava sufocando a nós dois. Portanto, decidimos nos divorciar para evitar que a situação chegasse a níveis mais extremos, como a consumação de casos extraconjugais e coisas do tipo.

Carolina e Jonas se encaram. A tensão paira no ar, mas não é percebida por Angelo.

ANGELO – Você confirma isso tudo, Carolina?

Carolina fica alguns segundos em silêncio.

CAROLINA – Sim, pai. Confirmo. Mais uma vez, não se preocupe que o divórcio não será litigioso. Não temos nenhum motivo para entrar em litígio. Tanto é que pouca coisa vai mudar na nossa vida com o divórcio. Digamos que a única diferença significativa só compete àquilo que ocorre entre as quatro paredes de um quarto.

JONAS – Já estamos cansados de falar que a nossa união conjugal foi um equívoco, mas temos que fazer isso, afinal devemos satisfações a muitas pessoas, senão à família inteira. Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado de ter passado dois anos da minha vida casado com a Carolina. Apesar das diferenças irreconciliáveis entre a gente, a verdade é que nós demos o nosso máximo para que o nosso amor prevalecesse, mas infelizmente ele não é forte e sólido o suficiente. Só me arrependo de ter subido ao altar e ter jurado fidelidade eterna a ela.

CAROLINA – Eu também. Nós não deveríamos ter feito aquilo. Mas também, não tínhamos como saber que a nossa vida matrimonial seria isso. Estávamos no auge do nosso romance, achávamos que seria algo realmente eterno. Mas os anos se passaram e nós vimos que era tudo uma ilusão.

Angelo solta um longo suspiro frustrado, que não é muito bem recebido por Jonas.

ANGELO – Certo, Jonas. Em breve, eu volto a te procurar pra gente acertar com mais calma os detalhes do processo de separação.

Jonas sorri forçadamente para Angelo e se levanta.

JONAS – Com licença.

ANGELO – Toda.

Jonas sorri para Carolina, mas a frieza dela consegue tirar o sorriso do rosto do rapaz. Desanimado, ele vai embora, deixando Angelo e Carolina sozinhos na sala. Os dois se entreolham, mas logo Carolina se levanta e sobe as escadas.

CENA 09: CASA DE JÉSSICA/QUARTO DE JÚLIO/INT./TARDE

Jéssica está sentada na cama. Júlio, em pé próximo à cômoda do quarto, termina de se vestir.

JÉSSICA – Assim não dá pra te defender, Júlio. Como é que eu vou ficar do teu lado se tu fica se comportando feito um michê? Sério, só falta tu começar a cobrar pelo sexo.

JÚLIO – Mãe, eu não tinha pra onde fugir. Ela ficou me estimulando, eu não consegui controlar o meu corpo. Acabou que rolou. Só depois eu percebi que ela fez isso pra tentar me comprar e me fazer me aliar a ela de novo.

JÉSSICA – E pra quê?

JÚLIO – O Ricardo não terminou com a Luciana? Então, ela queria que eu não deixasse que o Ricardo namorasse com mais ninguém, ela queria que eu empatasse a felicidade dele. Tem condição, mãe?

JÉSSICA – Essa garota é louca.

JÚLIO – Amiga da Débora, mãe. Essas duas são tudo farinha do mesmo saco. Tinham que dividir o mesmo quarto no hospício.

JÉSSICA – Quero só ver o que vão dizer quando descobrirem que vocês deitaram.

JÚLIO – Ninguém vai descobrir. Isso vai ficar entre nós três.

Jéssica encara Júlio, que desvia o olhar.

CENA 10: CASA DE JÉSSICA/SALA/INT./TARDE

Jonas entra na casa da mãe. Ele estranha ao ver a sala de estar vazia.

JONAS – Mãe? Júlio? Cadê vocês?

Sem respostas, Júlio decide ir até a cozinha. Ele observa a cozinha da sala de estar, e não vê ninguém.

JONAS – Eles devem estar lá em cima.

Dito isso, Jonas resolve subir as escadas.

CENA 11: CASA DE JÉSSICA/CORREDOR/INT./TARDE

Jonas se aproxima do quarto de Júlio, que está com a porta aberta. Ele começa a ouvir as vozes da mãe e do irmão.

JÉSSICA (voz) – Uma hora ou outra isso vai vazar. Tenha certeza que ela vai usar isso contra ti na primeira oportunidade.

JÚLIO (voz) – Eu tenho que pensar numa maneira de detê-la. Imagina se a Carolina descobre isso? Complica ainda mais os meus esforços pra voltar com ela.

Jonas se surpreende com o que ouve de Júlio.

JÉSSICA (voz) – É verdade…

JÚLIO (voz) – Eu não posso nadar, nadar, nadar pra morrer na praia por causa de mais uma armadilha da Luciana. Eu vou conseguir reconquistar a Carolina, sim, e não vai ser a Luciana quem vai me impedir.

JÉSSICA (voz) – Cuidado, Júlio, cuidado…

JÚLIO (voz) – Eu tô num campo minado. Qualquer passo em falso e eu me ferro todinho. Não duvido nada que, se eu virar as costas, eu não dê de cara com uma bomba.

Júlio sai do quarto e dá de cara com Jonas. Imediatamente, ele congela, encarando com uma expressão apavorada o ódio explícito no rosto do irmão.

JONAS – Então quer dizer que o meu irmão esteve de olho na Carolina esse tempo todo, só esperando o momento certo pra dar o bote e tirar ela de mim?

Foco em Jonas e Júlio se encarando.

CENA 12: FORTALEZA/EXT./NOITE

Imagens da Avenida 13 de Maio.

Imagens da Avenida Pontes Vieira.

Imagens da Avenida Carapinima.

CENA 13: DELEGACIA/CELA DE DÉBORA/INT./TARDE

Débora está sentada no chão da cela. Olhar distante, pensativa, em silêncio. De repente, um policial se aproxima da cela.

POLICIAL – Visita.

Débora imediatamente vira o rosto na direção do policial. Ela assiste, surpresa, à entrada de Maria dentro da cela.

DÉBORA – Maria? Você veio me visitar?

MARIA – Sim. Quero falar com você.

DÉBORA – Não temos nada sobre o que falar. Por favor, vá embora daqui.

MARIA – O que é? Tá com medo de mim? Depois do que você fez, eu era quem deveria ter medo de você. Eu deveria ter medo de uma pessoa que tentou matar o meu irmão e que matou a própria avó. Mas não, eu só tenho ódio de você…

DÉBORA – Hipócrita…

MARIA – Hipócrita, eu? Por quê? Eu não matei ninguém…

DÉBORA – Você é quem deveria estar aqui, e não eu. Na verdade, você deveria estar na senzala, junto com os animais da sua espécie. O lugar de onde você nunca deveria ter saído, o lugar onde você não poderia mais nos causar transtornos.

MARIA – Você definitivamente não está em seu juízo perfeito. Aquele acidente deve ter danificado o seu cérebro.

DÉBORA – Tirem-na daqui, por favor.

MARIA – Agora você vai ouvir tudo o que eu tenho para lhe falar. Você é uma mulher invejosa, sempre teve inveja de mim. Sempre invejou a maneira com a qual os seus tios e primos me tratam, sempre invejou o amor que o Pedro Igor sente por mim. Por isso, foi baixa o bastante para forjar uma gravidez para afastá-lo de mim.

Débora se indigna com as acusações de Maria.

MARIA – Você quase conseguiu. Mas, felizmente, o destino esteve ao meu favor e impediu que o Pedro Igor subisse naquele altar com você. Mas agora, você voltou, só para bagunçar ainda mais a nossa vida.

DÉBORA – Vocês não merecem ser felizes à custa da minha desgraça.

MARIA – E muito menos você. Foi para isso que você voltou ao Brasil, para nos fazer sofrer. Por isso iludiu o meu irmão com palavras bonitas e com um golpe baixo parecido com o qual você tentou fisgar o Pedro Igor. E, como estava percebendo que sairia perdendo de novo, decidiu virar o jogo sujando as suas mãos de sangue. Você foi longe demais, mas agora vai pagar por todo o mal que você nos causou.

DÉBORA – Tirem essa mulher daqui. Tirem-na daqui antes que eu perca o controle.

MARIA – O que é? Vai me matar como matou a sua avó?

Débora e Maria se encaram, com ódio no olhar.

MARIA – Para a sua infelicidade, saiba que o Luís sobreviveu ao seu ataque. Ele está se recuperando no hospital, dentro de poucos dias ele receberá alta. Eu espero que você seja julgada no fórum e receba a pena máxima pelos crimes que cometeu. Você sempre me acusava de ser uma favelada, uma marginal… mas a única marginal aqui é você… MARGINAL! ASSASSINA!

DÉBORA – Já disse, tirem-na daqui!

O policial entra na cela e começa a conduzir Maria até o corredor.

MARIA – APROVEITADORA! MARGINAL! ASSASSINA! VOCÊ QUASE MATOU O MEU IRMÃO! E MATOU A SUA PRÓPRIA AVÓ!

Maria consegue se soltar do policial e corre até Débora.

MARIA – Mas você vai apodrecer na cadeia!

Maria agarra Débora, que rapidamente se solta e utiliza toda a sua força para desferir duas bofetadas contra a rival, que cai no chão, sendo amparada pelo policial.

POLICIAL – Mas o que é isso?

DÉBORA – Eu avisei. Eu disse para tirá-la daqui, mas ninguém me ouviu. Eu não pude me controlar.

O policial leva Maria para o lado de fora da cela e a tranca. Débora se encosta na parede e desliza até cair sentada. Chorando, ela começa a esmurrar as próprias pernas.

CENA 14: DELEGACIA/FACHADA/EXT./NOITE

Maria sai da delegacia. Igor, que estava apoiado no seu carro, vai até Maria e a abraça. Ela chora no ombro do namorado.

MARIA (chorando) – Eu ganhei dela, Igor… eu ganhei dela…

IGOR – Ela mesma pôs a corda na própria garganta. Ela está cultivando o que plantou.

MARIA – Eu ganhei, Igor… eu ganhei, nós ganhamos dela.

IGOR – Vamos para casa?

MARIA – Por favor…

Igor percebe as marcas das bofetadas de Débora no rosto de Maria.

IGOR – O que foi isso, Maria?

MARIA – Nada… ela não aguentou as verdades e me bateu.

Igor respira fundo.

IGOR – Por que eu tive essa sensação de que a história ainda não terminou?

MARIA – Deve ser porque ainda faltam três capítulos?

IGOR – Oi?

MARIA – Nada não…

IGOR – Bom, vamos…

CENA 15: CASA DE MAURÍCIO E TALITA/SALA/INT./NOITE

Angelo, Bárbara, Dimas, Maurício, Talita, Ricardo e Venâncio estão reunidos na sala de estar.

ANGELO – Não, Maurício. Eu vim sozinho. Eu nem vi o Venâncio quando eu saí do hospital. Só se ele tiver saído do hospital antes de mim, porque eu o procurei por todos os corredores e não achei.

MAURÍCIO – Que estranho…

Talita mexe no seu celular e se choca com o que encontra.

TALITA – Gente… acho que eu descobri onde o Venâncio está…

Todos se juntam próximo de Talita. Ela começa a reproduzir um vídeo. É uma gravação de Venâncio.

VENÂNCIO (cel.) – Mãe, pai… não precisam se preocupar comigo. Eu tô aqui na casa do meu amigo Venâncio. Ele me convidou pra conhecer a casa dele, e eu decidi ficar por aqui mesmo. Amanhã de manhã ele me deixa aí em casa, tá bom?

Venâncio sussurra algo a um volume ininteligível, e o vídeo se encerra. Todos ficam assustados com o que viram.

TALITA – Nós vamos agora na casa desse Venâncio.

VINÍCIUS – Mas como, Talita? A gente nem sabe onde é que ele mora…

TALITA – Você deve saber, Vinícius.

VINÍCIUS – Não sei não…

MAURÍCIO – Eu vou lá no quarto dele. Com certeza deve ter alguma coisa que nos ajude a descobrir.

Maurício e Vinícius se levantam do sofá e vão até o quarto de Venâncio.

CENA 16: CASA DE JÉSSICA/QUARTO DE JÚLIO/INT./NOITE

Jonas e Júlio estão sentados na cama, um de frente para o outro, conversando. Jéssica está em pé, observando a conversa.

JONAS – Vai negar que você sempre agourou o nosso relacionamento, Júlio?

JÚLIO – Eu não agourei o teu relacionamento com a Carolina em momento nenhum. Só achei que vocês se precipitaram em se unir por causa do Felipe. Vocês deviam ter esperado mais tempo pra poder se casar.

JONAS – Não, Júlio, isso é papo de mau perdedor que não aceita ter perdido a mulher pro outro e por isso fica agourando. Por mais que tu não admita, tu agourou sim. E não me estranha que tu não tenha feito a cabeça dela pra fazer ela pedir o divórcio.

JÚLIO – Não, Jonas, tu tá exagerando. Eu nunca fiz isso, em respeito a ti e ao meu sobrinho.

JONAS – Mas o fato é que, se tu tivesse aceitado que tu tinha perdido a Carolina pra mim, era bem provável que a gente estivesse junto até hoje. Ela tinha visto que o futuro dela era ao meu lado, ao lado do pai do filho dela, e não ao lado do homem que fez ela se passar por prostituta perante a própria família.

Júlio se cala diante da resposta de Jonas.

JONAS – Eu não falei que é verdade?

JÚLIO – Jonas, eu nunca interferi no namoro, muito menos no casamento de vocês. No máximo, eu disse que achava precipitado vocês se casarem depois do nascimento do Felipe. Além de eu ver que vocês não se amavam o suficiente para contrair matrimônio, eu não te achava preparado o suficiente para assumir responsabilidade de marido e de pai de família.

JONAS – E quem seria preparado? Tu? Cara, nesse quesito, tu é tão imaturo quanto eu. Afinal, nenhum de nós dois é independente, nós dois ainda moramos com a nossa família, ainda somos sustentados pelo nosso pai… e outra, eu me mostrei sim capacitado pra assumir o bastão de marido e pai de família.

JÚLIO – Sério? Então por que tu beijou a Helena daquele jeito no churrasco?

Jonas se cala diante do questionamento de Júlio.

JÚLIO – Tu mesmo já admitiu que ama a Helena mais do que a Carolina. Tem como um casamento dar certo desse jeito?

JONAS – Desculpa, Júlio… é que eu ainda tô um pouco magoado pelo que aconteceu comigo e com a Carolina…

JÚLIO – Eu te entendo perfeitamente, Jonas. A vida de marido e pai de família tava te estressando e agora que tu vai começar a se livrar dela, tá descarregando isso na primeira oportunidade que vê.

Jonas sorri para Júlio. Os dois se levantam da cama e trocam um abraço longo e apertado, que faz um largo sorriso brotar no rosto de Jéssica. Repentinamente, Jonas se aparta do abraço e empurra Júlio, que ri da reação dele.

JONAS – Quê isso, Júlio?

JÚLIO – Para com isso, Jonas. Se o Ricardo faz coisa pior, porque eu que sou teu irmão não posso?

JONAS – Ah é? Então vamos ver se tu gosta disso…

Jonas tenta repetir a “brincadeira” que Júlio fez com ele. Júlio tenta se esquivar, mas Jonas é insistente. Jéssica ri à vontade dos dois, que também não se acanham em sorrir enquanto brincam. Júlio usa Jéssica como escudo, impedindo Jonas de revidar. Findada a brincadeira, Jonas e Júlio se abraçam em Jéssica, que acaricia os cabelos dos dois filhos.

CENA 17: FORTALEZA/EXT./NOITE

Imagens da Avenida General Osório de Paiva.

Imagens da Avenida Francisco Sá.

Imagens da Avenida Rogaciano Leite.

CENA 18: CASA DE MAURÍCIO E TALITA/SALA/INT./NOITE

Angelo, Bárbara, Dimas, Maurício, Ricardo e Vinícius observam Talita mexer no celular de Venâncio. Ela joga o celular no sofá, frustrada.

TALITA – Não encontrei nada…

Um barulho de buzina chama a atenção deles, que olham para a janela. Bárbara se aproxima da janela e percebe que um carro estacionou em frente à casa. As duas portas dianteiras se abrem e, da porta traseira, sai Venâncio.

BÁRBARA – Gente, ele chegou.

MAURÍCIO – Ótimo, agora vamos ver quem é esse tal Venâncio.

Bárbara abre a porta para a entrada dos dois. Imediatamente, a câmera corta para Dimas e Ricardo, que se surpreendem ao saber quem é o Venâncio de quem o garoto falava.

RICARDO – Não acredito…

DIMAS – Quer dizer então que você é o Venâncio?

A cena congela em um efeito preto-e-branco nos rostos chocados de Dimas e Ricardo.

FIM DO TRIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO.

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28 thoughts on “Mundos Opostos – Capítulo 33 (Últimos Capítulos)

  1. Débora surtou de vez, Júlio tentou matar Luciana, altas emoções
    Não sei quem é o Venâncio, mas gente boa não deve ser
    Parabéns, Glay

    Curtido por 1 pessoa

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