Serra Dourada – Capítulo 04

{continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – BECO DE GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

Com a boca tampada, frei Paulo tentava gritar, em vão. Aos poucos, enquanto ele ia se acalmando, a mão vai se afastando da boca dele, deixando-o respirar.

frei paulo – Mas quem em sã consciência faria isso com um servo do senhor?

A câmera gira e foca em Benedito, escravo do Barão.

FREI PAULO (assustado) – Um escravo! Eu não tenho dinheiro! Sou apenas um frade franciscano!

BENEDITO – Calma, frei Paulo! Eu não quero seu dinheiro!

FREI PAULO – Espera… Eu conheço vosmecê. Não é o cocheiro do Barão?

BENEDITO – Sim.

FREI PAULO – E ele sabe que vosmecê sequestra frades indefesos por aí?

BENEDITO – Não! Deus me perdoe! Ele nem pode saber!

FREI PAULO – Vosmecê quer que Deus o perdoe? Sequestrando frades? O que quer, afinal?

BENEDITO – Sei que o senhor é o único que aceita conversar com gente como eu.

FREI PAULO – Depois de hoje acho que vou mudar de ideia…

BENEDITO – Preciso de um favor, padre!

Frei Paulo olha curioso para o escravo.

CORTA

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Dona Iolanda olha assustada para Maricota.

MARICOTA – A senhora disse que não ia contar! Prometeu pra mim!

iolanda – Mas, o que a menina quer exatamente?

MARICOTA – Quero apresentar algo inovador a Sua Majestade, só isso.

IOLANDA – E vosmecê acha que ele vai apreciar seu comportamento?

MARICOTA – Não sei. Não conheço o Imperador.

IOLANDA – Mais importante do que se preocupar com os gostos do Imperador, a menina precisa honrar seu pai e sua mãe. Está na Bíblia. Vosmecê sabe.

MARICOTA – Quer dizer que a senhora não vai me ajudar?

IOLANDA – Posso procurar uma música menos religiosa… Mas não me peça mais do que isso.

MARICOTA – Está ótimo! Não se esqueça que isso é um segredo. Quero surpreender a todos no dia da visita do Imperador.

IOLANDA – E como a menina pretende ensaiar?

MARICOTA – Apenas pouso meus dedos sobre as teclas, mas não toco. Na hora eu me viro.

IOLANDA – Menina… Vosmecê está a brincar com fogo, não sabe?

MARICOTA – Por favor dona Iolanda! Eu preciso mostrar pra papai que sou capaz de surpreendê-lo.

IOLANDA (respira fundo) – Está bem, mas não me peça mais nada. Não quero me comprometer.

Neste instante, Suzana entra na sala e sorri para as duas mulheres.

suzana – Dona Iolanda! Como a minha filha está se saindo ao piano?

IOLANDA (nervosa) – Oh, dona Suzana! Ela está indo muito bem! Vamos, Maricota, toque aquela música sacra que lhe ensinei.

Maricota rapidamente improvisa uma música que, ela lembrava, tocou na missa domingos atrás. A mãe sorri, satisfeita.

SUZANA – Muito bem, dona Iolanda. Vejo que a senhora é uma ótima professora.

IOLANDA – Vossa filha que é uma ótima aluna, baronesa.

Suzana fecha a cara ao ser chamada de baronesa.

SUZANA – Pode me acompanhar um instante, dona Iolanda?

A mulher fica branca como uma folha de papel. Levanta-se e segue Suzana até a capela. Quando ela entra, Suzana fecha a porta do ambiente.

CORTA.

CENA 3 – BECO. EXTERIOR. DIA.

FREI PAULO – E no que eu posso lhe ser útil, Benedito?

BENEDITO – É que nós lá da mina estamos construindo uma coisa… E queríamos falar com o senhor.

FREI PAULO – Que coisa?

BENEDITO – Na verdade é um convite, frei.

FREI PAULO – Convite? Não estou entendendo mais nada.

BENEDITO – Vosmecê pode me acompanhar até a serra?

FREI PAULO – Agora? Na serra? O que tem na serra?

BENEDITO (cochichando) – Não posso falar aqui. As paredes tem ouvidos.

FREI PAULO – O que as pessoas diriam ao me ver com um escravo, Benedito? Vosmecê enlouqueceu?

BENEDITO – O senhor pode ir dentro da carruagem do Barão. Ela vai fechada, ninguém há de desconfiar.

FREI PAULO – E se ele nos ver?

BENEDITO – Prometo ao senhor que isso não vai acontecer.

FREI PAULO (respira fundo) – Sinto que vou me arrepender, mas vamos lá. Vosmecê tem que me prometer que ninguém vai nos ver.

BENEDITO – Mas eu prometo!

Os dois saem do beco, receosos, em direção a carruagem do Barão de Anhanguera.

CORTA.

CENA 4 – RUAS DE GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

A câmera ao longe mostra a carruagem subindo os morros em direção a serra. O veículo ia passando por caminhos cada vez mais íngremes, até parar. Benedito desce da carruagem e abre a porta para o padre que, todo atrapalhado, desce e olha a sua volta, assustado.

CORTA.

CENA 5 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Dentro da capela, Suzana e Iolanda conversam.

SUZANA – Dona Iolanda… Sabe que tenho muito apreço por vosmecê, caso contrário não a deixaria ensinar minha filha.

IOLANDA – Sei sim, dona Suzana. E fico muito grata com isso. Inclusive devo dizer que a ajuda que a senhora me dá… A mim e a minha irmã, é muito grande.

SUZANA – Não precisa agradecer, dona Iolanda. Eu sei agradar as pessoas que merecem. (pausa) Mas sei ser uma inimiga ferrenha quando quero.

IOLANDA – Desculpe se ofendi a senhora chamando-a de baronesa. É que eu acho muito injusto a senhora não ter o título já que o seu marido o tem e–

SUZANA(interrompe) Não se desculpe, dona Iolanda. A chamei aqui para pedir um conselho.

IOLANDA – Um conselho? Como assim?

SUZANA – A senhora é uma mulher experiente. Conhece muito da vida. Tanto conhece que nunca se casou.

IOLANDA (aborrecida) – Na verdade eu não quis me casar com o marido que me arrumaram. Diferente de minha irmã que–

SUZANA – Que foi abandonada? Conhecemos a história das duas. Em todo caso, o casamento muitas vezes é um fardo, não uma bênção.

IOLANDA (chocada) – Que horror, dona Suzana! Como pode dizer uma coisa dessas?

SUZANA – Sei do que estou dizendo, dona Iolanda. Mas não vim aqui discutir sobre os sabores e dissabores do matrimônio. Quero um conselho acerca dos rumos da educação de minha filha.

IOLANDA – No que acha que essa pobre senhora pode ajudar, dona Suzana?

SUZANA – Essa fase em que Maricota está é muito perigosa. Muito perigosa mesmo. O que acha que eu devo fazer para… Controlar minha filha?

IOLANDA – Bom eu… Eu não sei, mas Maricota parece ser tão comportada, dona Suzana.

SUZANA – Sim. Mas tenho medo que as coisas saiam do controle, entende?

IOLANDA – Ela tem alguma dama de companhia? Pode ser uma alternativa na idade dela.

SUZANA – Não confio em escravas mulheres.

IOLANDA – Então coloque um escravo para fazer sua proteção, oras. Assim vosmecê resolve dois eventuais problemas de uma vez só.

Suzana fica pensativa.

corta.

CENA 6 – SERRA DOURADA. EXTERIOR. DIA.

Após caminhar um pouco, Frei Paulo chega na entrada de uma pequena gruta.

BENEDITO – Aqui está o que queria mostrar ao senhor.

Benedito caminha para dentro da gruta com o padre. Ao entrar na gruta, encontram uma enorme quantidade de ouro em pó e em pepitas. O padre arregala os olhos, sem acreditar.

FREI PAULO – Meu Divino Espírito Santo…

BENEDITO – Por favor, frei, não conte a ninguém que esteve aqui.

FREI PAULO – Mas, o que vosmecê espera com todo esse ouro guardado aqui?

BENEDITO – O senhor sabe bem que nós, escravos, não podemos frequentar as igrejas dos brancos. E isso é muito injusto.

FREI PAULO – Sinceramente? Eu também acho injusto, mas são as leis da Igreja, Benedito.

BENEDITO – Eu e meus irmãos lá da mina estamos querendo construir uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas não podemos fazer isso sem a autorização do bispo.

FREI PAULO – E onde vosmecê quer chegar com essa conversa?

BENEDITO – Talvez se o senhor conversasse com ele…

FREI PAULO – Veja bem, Benedito… Dom Eugênio é um homem muito fiel às leis da Igreja. Já adianto que acho difícil que ele autorize. Além do mais, existe o Barão.

BENEDITO – Tenho certeza que se o bispo autorizar, o Barão não vai proibir.

FREI PAULO – Eu posso tentar, mas vou ter trazê-lo aqui, Ele precisa ver com os próprios olhos tudo isso.

BENEDITO – Promete falar com ele? Queremos muito uma igreja. E o senhor pode celebrar as missas.

FREI PAULO (surpreso) – Eu? Quanta honra…

Os dois continuam a conversar, com o frei a todo momento observando a enorme quantidade de ouro que existia dentro da gruta.

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Suzana entra na cozinha e encontra Mirmila limpando o cômodo.

MIRMILA – Deseja alguma coisa, sinhá?

SUZANA – Sim. Quero que me diga o nome do escravo que estava com vosmecê hoje pela manhã.

MIRMILA – O André? A sinhá vai punir ele?

SUZANA – Embora ele mereça uma severa punição, tenho um coração cristão piedoso que não me permite fazer mal a essas criaturas. Sabe onde encontrar este escravo?

MIRMILA – Ele trabalha na mina, Sinhá.

SUZANA – Pois quero ele amanhã aqui bem cedo. Preciso falar com ele.

MIRMILA – Sim senhora.

Dito isto, Suzana vira as costas e sai. Mirmila fica intrigada com a fala da patroa.

CORTA.

CENA 8 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

Ainda furioso com o barão, Leopoldo toma um copo de água com açúcar.

LEOPOLDO – Ele não pode continuar tratando a gente assim!

FÉLIX – O que vamos fazer?

LEOPOLDO – Vamos produzir uma edição especial… Um dossiê. E vamos apresentar ao imperador.

FÉLIX – E como vamos fazer isso? Irmão, não acha que estamos indo longe demais com essa história? Há anos nós tentamos derrubar o barão, mas a gente nunca conseguiu. Acho que está na hora de desistirmos.

LEOPOLDO – O que está acontecendo com vosmecê, Félix? Até parece que aquela mulher mexeu com a sua cabeça…

Leopoldo pega o irmão pelo braço e o leva até um canto da sala, onde há um enorme retrato do pai.

LEOPOLDO – Olhe bem para esta pintura, Félix. Olhe no fundo dos olhos do nosso pai. Quer trair o legado dele? Abandonar tudo o que ele desejou para nós?

FÉLIX – Leopoldo, não seja chantagista! Eu era só um bebê quando o papai faleceu.

LEOPOLDO – Mas eu me lembro bem de como tudo aconteceu. Ou vosmecê não acredita na palavra do seu próprio irmão?

FÉLIX – Essa discussão não vai nos levar a lugar nenhum.

LEOPOLDO – Essa visita do Imperador é a chance que pedimos a Deus! E eu espero contar com vosmecê mais uma vez.

FÉLIX – Mas e se não der certo?

LEOPOLDO – Vai dar certo, irmão! Vai dar certo!

CORTA.

CENA 9 – SEQUÊNCIA DE CENAS.

  1. O bispo faz ajustes dentro da igreja, verifica os paramentos e coordena a limpeza das imagens sacras;
  2. O barão recebe a visita de artesãos e artistas que oferecem presentes ao imperador. Enfim, ele escolhe um anel de ouro cravejado de esmeralda com o monograma real;
  3. As irmãs cajazeiras estão na modista escolhendo seus vestidos;
  4. Os escravos continuam a trabalhar na mina, extraindo ouro e tirando, em segredo, uma pequena parcela para eles;
  5. Os irmãos Bulhões trabalham na construção de um dossiê para entregar ao imperador;
  6. Maricota ensaia músicas católicas para despistar a mãe.

CENA 10 – EXTERNA. PASSAGEM DE TEMPO.

A câmera mostra o sol se pondo no alto da Serra Dourada. Com a noite, os lampiões se acendem na pacata Goyaz. Logo, o tempo acelera e a câmera flagra o raiar do sol e as pessoas abrindo suas casas e seus estabelecimentos.

CENA 11 – RUAS DE GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

Ainda no começo do dia, uma carruagem luxuosa estaciona diante do palácio do governo, sob o olhar curioso dos cidadãos. Um homem alto com vestes luxuosas em branco e dourado desce do veículo, mas a câmera não mostra quem é.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 4

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10 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 04

  1. No ar! Chegou uma pessoa em Goyaz! Quem será? Amanhã faremos uma chamada especial para revelar!
    Espero que gostem.

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  2. E Maricota (Ousadinha) está firme e forme com o que irá fazer no grande baile. Mesmo com a presença de André, caso Suzana o contrate, creio que ela manterá de pé seu plano. É na noite em questão que a própria irá reencontrar Felix, quero muito.

    Então era o Benedito… Tomei um susto. Pensei que a criminalidade tomaria conta de Goyaz, hehehe… E o pedido dele a Paulo é uma atitude belíssima e justa. Torcendo demais para que consigam. Será que essas parcelas de ouro retiradas por eles serão descobertas pelo Barão ou por um outro alguém? :/

    Sinto cheiro de chegada de Dom Pedro… Parabéns, Leonel! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Você acertou muita coisa, Fred. Mas errou outras coisas também. Hahahahahaa… Só lendo mais capítulos para descobrir!
      Obrigado pela presença!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Deixando a minha contribuição na audiência, pois estou sem tempo para ler e fazer um comentário específico. No mais, creio que o capítulo deve estar maravilhoso. Parabéns, Leonel. 😀

    Curtido por 1 pessoa

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