Serra Dourada – Capítulo 05

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

O bem vestido homem sobe os degraus do palácio, impaciente. A câmera, até então nas costas do homem, dá um giro e o foca de perfil, revelando seu rosto.

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas será possível que não há ninguém trabalhando neste lugar?

O homem tira uma carta com o timbre e o carimbo da corte. Olha para os lados, irritado e avista um negro qualquer caminhando com algumas mercadorias.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê aí! Negrete! Sabe onde posso encontrar o Barão de Anhanguera?

O negro aponta para a esquina da rua onde se impunha um casarão. O duque respirou fundo e desceu as escadas, dispensando a carruagem.

A câmera mostra, do alto, o caminhar firme do duque. Ele se aproxima rapidamente do casarão e sobe suas escadas. Ao chegar na porta, entreaberta, entra sem bater.

DUQUE DE MONTEVERDE – Alguém em casa?

Neste momento, Maricota sai do quarto rapidamente, avista o duque e arregala os olhos. Não consegue dizer nada, apenas põe-se a correr.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Maricota entra correndo na sala de jantar onde o barão ainda fazia seu desjejum.

MARICOTA – Papai! Papai! Acho que o Imperador está querendo falar com o senhor!

Sobressaltado, o barão levanta-se da mesa junto de Suzana, Maricota e Mirmila. Os quatro seguem para a sala de estar.

BARÃO – Muito bons dias, senhor…

DUQUE DE MONTEVERDE (estende a mão) – Luís Henrique de Mendonça Albuquerque Bragança e Cabral. Duque de Monteverde. E o senhor deve ser o famoso Barão de Anhanguera.

BARÃO (aperta a mão do duque) – Muito prazer, vossa graça. Não esperávamos por sua visita.

SUZANA – Aceita um bolo de fubá e café, senhor Duque? Acabou de sair.

DUQUE DE MONTEVERDE – A senhora deve ser…. A baronesa, estou certo?

SUZANA(desconcertada) Bom… Não necessariamente.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não é a esposa do Barão?

BARÃO – Sim, de fato! Ela é minha esposa! (desconversa) Mirmila, vá ferver um café para o duque. Por favor, vossa graça, acomode-se.

O duque se senta pacientemente, assim como todos os moradores da casa. Seus olhos encontram os olhos de Maricota, e ele sorri.

DUQUE DE MONTEVERDE – E quem é esta linda donzela?

BARÃO – Esta é Maria Teresa, minha única filha, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – É de uma rara beleza, se me permite o elogio.

Maricota fica corada. Suzana força um sorriso e o Barão fica sem jeito.

CORTA.

cena 3 – MINA. INTERIOR. DIA.

Benedito entra na mina e observa todos já trabalhando. Caminha até André e diz algo em tom baixo em seu ouvido. Os dois saem da Mina e conversam a sós.

BENEDITO – A dona Suzana pediu para eu buscar vosmecê. Ela quer falar alguma coisa com vosmecê.

ANDRÉ – Será que foi porque ela me pegô mais a Mirmila? Será que ela vai me mandá pro tronco?

BENEDITO – Foi a própria Mirmila quem pediu que eu viesse. Mas, não parece ser nada sério.

ANDRÉ – O que será que ela qué? O capeta quando chama boa coisa num é.

BENEDITO – Se eu soubesse não estaria tão curioso, não é homem? Além do mais, tenho algo para te contar sobre a igreja.

ANDRÉ (apreensivo) – Arguém descobriu?

BENEDITO – Eu mostrei ao Frei Paulo, ontem. E acho que ele gostou da ideia.

ANDRÉ – Será que ele vai ajudá nóis?

BENEDITO – Eu não sei, mas espero que sim.

ANDRÉ – Frei Paulo é moço bão. Nossa Senhora do Rosário vai intercedê por nóis.

BENEDITO – Eu espero que sim, André. Eu espero que sim. Agora vamos. Dona Suzana não gosta de esperar. Tome cuidado com ela… Aquela ali é mais perigosa do que aparenta.

Os dois escravos sobem na carruagem e Benedito dá as rédeas para o amigo se divertir um pouco em seu lugar. Eles seguem sorrindo rumo a cidade.

CENA 4 – MATRIZ. INTERIOR. DIA.

Dom Eugênio e Frei Paulo encerravam a oração matinal.

frei paulo – Eminência, tem um momento?

DOM EUGÊNIO – Diga, Paulo.

FREI PAULO – Responda-me uma coisa, eminência: por que é que os escravos não podem assistir as missas, se eles são catequizados?

DOM EUGÊNIO – Ora, Paulo. Vosmecê bem sabe que eles não tem almas. Quando morrerem vão todos para o purgatório.

FREI PAULO – Mas, como eminência? Existem muitos que fazem suas orações e sentem falta de um amparo espiritual.

DOM EUGÊNIO – E existem tantos outros que enaltecem deuses falsos por aí. Haja vista a batucada que eles fazem nas noites de luar. Aquilo é uma verdadeira heresia!

FREI PAULO – Talvez eles fazem isso porque não tem onde professar sua fé.

DOM EUGÊNIO – Eu já permiti que vosmecê desse a eles o corpo e o sangue de cristo, nas missas campais que vez ou outra acontecem aqui. O que mais vosmecê quer?

FREI PAULO – O senhor acreditaria que existem escravos dispostos a erguer uma igreja onde eles podem entrar e sair livremente?

DOM EUGÊNIO – Como é?! Onde vosmecê soube disso?!

FREI PAULO – Vi com meus próprios olhos, eminência.

DOM EUGÊNIO – Misericórdia, Paulo! E só agora é que me avisa? Onde fica este templo? Temos que informar as autoridades para que destruam esse lugar.

FREI PAULO – Acalme-se, eminência. A igreja ainda não está pronta.

DOM EUGÊNIO – Ótimo. Mais fácil para destruirmos.

FREI PAULO – Me escute! Eu não sei como dizer, mas o senhor precisa acreditar em mim. Os negros desta terra precisam da palavra de Deus em seus corações.

dom eugênio – Veja, Paulo, nós temos muitas coisas para resolver até a chegada do Imperador. Isso pode esperar.

frei paulo – Mas eminência…

DOM EUGÊNIO – Chega, Paulo! Depois discutimos isso!

O padre respira fundo, em silêncio.

CORTA.

CENA 5 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

A recepção ao Duque de Monteverde continuava tensa.

BARÃO – Mas me diga, Vossa Graça, o que o traz aqui?

DUQUE DE MONTEVERDE – Digamos que Sua Majestade tenha me pedido para vir na frente. Precisamos preparar toda a recepção. Uma recepção digna! A altura do nosso monarca.

BARÃO – Sinto em lhe dizer que nossa humilde vila não é dotada de todo o luxo merecido pelo Imperador, mas estamos nos esforçando.

O duque tira do bolso da casaca uma carta e abre, lendo-a em voz alta.

DUQUE DE MONTEVERDE – Tenho cá em minhas mãos uma carta de Sua Majestade me designando para o cargo de chefe interino da vila, para que eu possa tomar todas as providências acerca da estadia de Sua Majestade por aqui.

Todos na sala arregalam os olhos, assustados. A câmera foca a expressão incrédula do Barão.

BARÃO (estarrecido) – Quer dizer que o Imperador enviou o senhor para tomar o meu lugar?!

DUQUE DE MONTEVERDE – Jamais! Barão, jamais! Eu espero que possamos trabalhar juntos, isso sim. Inclusive ficaria muito honrado se pudesse me hospedar aqui, em vossa casa, já que tenho a prerrogativa de inclusive, expulsá-los daqui se quiser.

Uma pausa assustadora toma conta do ambiente e o Duque retoma, dando continuidade à mentira.

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas em respeito ao senhor e aos seus serviços prestados à coroa, não me vejo na posição de fazer tal coisa. Aliás, seria muita crueldade da minha parte colocar a senhorita sua filha na rua da amargura.

O Duque esboça um sorriso vitorioso, enquanto o rosto do Barão vai ficando cada vez mais vermelho. Neste momento Mirmila entra na sala com o café e oferece ao duque. O nobre olha a escrava da cabeça aos pés. Abre um curto sorriso de agradecimento.

MIRMILA (murmurando) – Sinhá… O André chegou.

Ainda atordoada, Suzana levanta-se e puxa a filha consigo, seguindo até a cozinha e deixando os dois homens sozinhos na sala.

CORTA.

CENA 6 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Antes de chegar a cozinha, mãe e filha conversam.

MARICOTA – Vamos ser expulsas daqui, mamãe?

SUZANA – Não diga bobagens menina! Este império tem uma dívida muito alta com o seu pai. Não vão fazer isso.

MARICOTA – Mas a senhora ouviu aquele homem. É ele quem vai mandar por aqui nos próximos dias.

SUZANA – É passageiro, Maria Teresa. É só até a chegada do Imperador.

MARICOTA – Maldita hora em que esse homem resolveu visitar este fim de mundo.

SUZANA – Não repita isso! Se o duque te ouve a falar assim vai pensar que estamos conspirando contra a coroa! Sabe o que eles fazem com os conspiradores? Enforcam-nos em praça pública. É isso que vosmecê quer?

Maricota balança a cabeça, assustada.

SUZANA – Pois então trate de se comportar!

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Na sala de estar, os dois senhores conversam.

BARÃO – Longe de mim querer ir contra as ordens de Sua Majestade, mas não é um exagero?

DUQUE DE MONTEVERDE – Não vejo exagero algum, senhor Barão. Veja, não há nada demais em confiar a mim, um velho amigo do Imperador, a incumbência de recebê-lo. Até porque pelo que soube vosmecê não está conseguindo lidar com os escravos por aqui.

BARÃO – Isso é uma tremenda bobagem.

DUQUE DE MONTEVERDE – Será mesmo? Os relatórios que chegam a coroa mostram que a produção de ouro caiu muito por aqui.

BARÃO – O ouro não é eterno, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas a fonte secar assim, de repente? Alguma coisa está errada por aqui, senhor Barão. Minha função também é investigar.

BARÃO – Escute… Aceito recebê-lo em minha casa e lhe serei o melhor dos anfitriões, mas não duvide da minha capacidade e da minha autoridade!

DUQUE DE MONTEVERDE – Eu e o Imperador saberemos recompensar sua hospitalidade, Barão. Aliás, acho que já sei como.

BARÃO – E pode me dizer?

DUQUE DE MONTEVERDE – Vou providenciar um título digno para a sua senhora. Percebi a contrariedade dela por não poder ser chamada de baronesa. Isso será corrigido.

O Barão fica em silêncio, sem saber como prosseguir.

corta.

CENA 8 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Suzana chega a cozinha com a filha e a escrava. Benedito e André estão esperando.

SUZANA – Pode ir, Benedito. Fique à espera de seu senhor porque, acredito, logo ele precisará de vosmecê.

BENEDITO – Mas eu preciso levar o André de volta para a mina, Sinhá.

SUZANA – Acredito que ele não vai mais voltar para a mina, Benedito.

Os escravos se olham assustados. Benedito pede licença e sai.

SUZANA – Vosmecê está lembrado de minha filha, escravo?

ANDRÉ – Sim, sinhá! A minina dona Maricota. Conheço ela sim, sinhá. É uma minina de coração muito bão.

SUZANA (ríspida) – Não me interessa o que vosmecê acha dela. Em todo caso, é até bom mesmo que se deem bem porque a partir de agora vosmecê vai ser o protetor dela.

MARICOTA (surpresa) – Como é? Protetor? Eu não preciso de protetor, mamãe. Mirmila cuida muito bem de mim.

SUZANA – Mirmila é uma escrava mulher que acha que vosmecê é irmã dela. E isso por si só já basta para eu não deixá-la perto de vosmecê.

ANDRÉ – O que a sinhá quer de mim?

SUZANA – Sua função é ir a todos os lugares com ela e só deixar o seu posto quando eu ou o pai dela estivermos por perto, entendido? E vai me contar absolutamente tudo o que ela fizer. Com quem esteve, o que fez, quantas ave marias rezou. Tudo, entendeu?

MARICOTA – Mamãe! A senhora está exagerando!

SUZANA – Estou te protegendo! E estou sendo gentil com Mirmila também. Com André aqui perto eles vão poder ficar mais tempo perto um do outro. Mas sem saliência, ouviram bem? Se eu pegar qualquer um dos dois de pouca vergonha nesta casa, marco vosmecês a ferro como se marca um boi.

Dito isso, Suzana vira as costas e segue em direção a capela. Maricota abaixa a cabeça, triste, e corre até o seu quarto, se trancando lá. Os escravos ficam a sós.

ANDRÉ (cochichando para si mesmo) – E agora, cumé que vai sê?

Mirmila olha desconfiada para o namorado, em silêncio, enquanto volta para os seus afazeres. André coça a cabeça, preocupado.

CORTA.

CENA 9 – GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

Após a conversa pouco simpática na residência do Barão de Anhanguera, o Duque de Monteverde caminha ao lado dele rumo ao palácio do governo da província. Nas ruas, as pessoas olhavam desconfiadas para a figura estranha, enquanto o duque acenava e sorria para os nativos.

CORTA.

CENA 10 – PALÁCIO DO GOVERNO. INTERIOR. DIA.

Os dois homens entram no gabinete. O Duque fiscaliza tudo, observando cada móvel com curiosidade, até que se senta na cadeira antes ocupada pelo Barão.

DUQUE DE MONTEVERDE – É um escritório simples, mas é está de bom tamanho.

BARÃO (inquieto) – E quanto a mim?

DUQUE DE MONTEVERDE – Ah, claro. Temos que arrumar um lugar para o senhor. Que tal se eu pedir para colocarem uma mesa aqui, nesta sala? Assim poderíamos trabalhar juntos.

O Barão fica em silêncio, assumindo sua derrota, enquanto o Duque revisita alguns documentos até encontrar um exemplar do jornal “O Democrata”.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não sabia que tínhamos uma imprensa por aqui…

BARÃO – Clandestina! Mentirosa! Não acredite em absolutamente nada que está escrito neste papel, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – O jornal pertence a… Leopoldo de Bulhões, não é? É o que está escrito aqui.

BARÃO – É um jovem insano. Passou um tempo na corte e voltou se achando melhor que todos nós. Mas as pessoas daqui não dão ouvidos a ele.

DUQUE DE MONTEVERDE – Pois eu quero conhecê-lo.

BARÃO – Como é? Vossa graça não perderia seu precioso tempo…

DUQUE DE MONTEVERDE – Sabe onde ele mora? Este editor?

BARÃO – E há algo nesta vila que eu não saiba onde fica?

DUQUE DE MONTEVERDE – Excelente. Leve-me até ele.

O Barão arregala os olhos, assustado. Respira profundamente e observa fixamente os olhos do duque.

BARÃO – Me perdoe, vossa graça, mas eu não posso fazer isso.

DUQUE DE MONTEVERDE – Lembre-se, senhor Barão: negar um favor a mim é negar um favor a coroa. Sua Majestade não vai gostar de saber que existe cá por estas terras um jornal de cunho difamatório. Se quer a minha ajuda para detê-los, precisa me levar até eles.

CORTA.

CENA 11 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

FÉLIX – Leopoldo, não temos como arcar com os custos de uma produção nesta escala. Já é o terceiro exemplar em dois dias.

LEOPOLDO – Quando o imperador ler o dossiê que estamos preparando sobre o Barão, ele há de nos agradecer.

FÉLIX – Eu continuo achando uma loucura tudo isto.

LEOPOLDO – Muitos gênios foram chamados de loucos, meu irmão. Vamos… Ao final de tudo isso estaremos ricos e, no mínimo, governando Goyaz no lugar do Barão.

FÉLIX – É tudo por poder, no fim das contas?

Sem responder à pergunta. Os irmãos ouvem algumas batidas na porta. Leopoldo abre a porta e dá de cara com o Barão de Anhanguera diante de si. Ele arregala os olhos.

FÉLIX – O Barão aqui, na nossa casa? O que vosmecê quer?

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 5

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