Serra Dourada – Capítulo 06

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

Leopoldo ainda olhava assustado para o Barão.

BARÃO – Como é? Não vai me convidar para entrar no seu… Jornal? É deselegante deixar uma pessoa esperando.

Leopoldo fecha a cara e não responde.

FÉLIX – Por favor, Barão. Entre.

O duque estende a mão e cumprimenta os dois rapazes, em silêncio.

FÉLIX – (irônico) A que devemos a honra da visita, Barão?

DUQUE DE MONTEVERDE – Na verdade o Barão de Anhanguera veio a meu pedido. Permitam-me que eu me apresente: sou o Duque de Monteverde, amigo pessoal de Sua Majestade.

Neste momento, Leopoldo pareceu acordar.

LEOPOLDO – Aceita alguma coisa, vossa graça? Um café, um chá, algo?

DUQUE DE MONTEVERDE – Não, não. Eu estou bem, obrigado. Li um exemplar de seu jornal e fiquei bastante impressionado. É curioso que uma cidade tão pequena tenha uma imprensa tão forte.

LEOPOLDO – É que eu estudei na capital, vossa graça. Meu pai me passou os valores jornalísticos.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosso pai foi um jornalista na capital?

LEOPOLDO – Sim, senhor. Bertoldo de Bulhões. Ou “BB” como era conhecido

DUQUE DE MONTEVERDE – Ah, sim. Já ouvi falar. Só não sabia que ele era natural deste lugar. Ouvi dizer que deixou muito dinheiro de herança.

Neste momento, Leopoldo vira-se para o Barão, cheio de raiva. Félix muda logo de assunto.

FÉLIX – Até agora o senhor não disse a que veio, Vossa Graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Ah, claro, claro. Quero convidar-lhes para um jantar na residência do Barão de Anhanguera, nesta noite, porque pretendo dar à Sua Majestade uma recepção à altura. Para isto, quero uma matéria elogiosa aos trabalhos da Coroa.

O Barão arregala os olhos, assustado com o convite. Félix e Leopoldo se olham, confusos.

CORTA.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Na parte dos fundos do casarão, os escravos André e Benedito conversam em segredo.

ANDRÉ – A sinhá qué que eu tome conta da fia dela. E agora Benedito?

BENEDITO – Vosmecê conseguiu terminar ou não?

ANDRÉ – ‘Inda não. Ele tá escondido lá na mina.

BENEDITO – Eu ainda não conversei com o frei Paulo. Onde exatamente está?

ANDRÉ – Embaixo das pedra que nóis estourô primeiro.

BENEDITO – Certo. Vamos deixá-lo lá em segurança, por enquanto. Mas precisamos terminar ele.

CORTA.

CENA 3 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

LEOPOLDO – Acredito que o Barão não gostaria de nos ver em sua residência, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Enquanto eu estiver aqui, a residência do Barão serve a coroa. Certo, meu amigo?

O Barão apenas balança a cabeça, contrariado. O duque se levanta, sorridente.

DUQUE DE MONTEVERDE – Então eu não vejo qualquer problema.

FÉLIX – Acredito que não nos sentiríamos a vontade, vossa graça.

LEOPOLDO – Mas nós vamos mesmo assim. É um prazer servir à coroa, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Ótimo! Então aguardamos vosmecês hoje a noite. Com licença.

O Barão sai logo atrás, sem se despedir. Félix e Leopoldo se olham.

FÉLIX – Isso não está me cheirando bem…

LEOPOLDO – É a chance que nós tanto queríamos, Félix! Vamos servir direito à coroa para acabar com esse Barão.

Félix respira fundo.

FÉLIX – Depois dessa eu preciso de um mergulho… Minha cabeça está explodindo.

CORTA.

CENA 4 – SOBRADO DAS CAJAZEIRAS. INTERIOR. DIA.

OLINDA – Eu vi! Eu vi o Barão sair da casa dos Bulhões!

IOLANDA – Mas não é possível. Ontem mesmo eles estavam se engalfinhando.

OLINDA – Vosmecê não tem que dar aulas para a menina Maricota? Veja se descobre alguma coisa.

IOLANDA – Eu estava pensando exatamente nisso…

OLINDA – O Barão saiu acompanhado de outro homem muito bem vestido.

IOLANDA – Hoje de manhãzinha eu ouvi mesmo o barulho de uma carruagem. Será que é o Imperador?

OLINDA – Creio que não. Não ouvi o repicar dos sinos.

IOLANDA – Eu hei de descobrir quem é.

OLINDA – Não deixe de contar para a sua irmã. Estou curiosíssima.

IOLANDA – Vou ver a menina Maricota agora mesmo.

corta.

cena 5 – casa dos caiado. interior. dia.

MARICOTA – Mamãe, posso ir me refrescar no rio?

SUZANA – Sim, mas vá com André.

MARICOTA – Eu não vou ficar a vontade com um escravo me olhando.

SUZANA – Não é vosmecê que gosta de defendê-los? Pois agora vosmecê tem um companheiro.

MARICOTA – Não posso ir com Mirmila?

SUZANA – Desde que André vá junto.

Maricota sai sem agradecer à mãe. Mirmila e André vão atrás.

CORTA.

CENA 6 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Maricota chega com os dois escravos à beira do rio. Ela sorri e entra na água.

ANDRÉ – Eu num conhecia esse lugar…

MIRMILA – Pertence às terras do Barão.

ANDRÉ – Tudim é do Barão?

MIRMILA – Sim, André. O rio corta toda a propriedade dele.

MARICOTA – Ei, vocês dois, por que não vão explorar um pouco a região

MIRMILA – Não posso, sinhá. Sua mãe pediu para ficar de olho em vosmecê.

MARICOTA – Eu não vou sair daqui, Mila. Vão vocês dois.

Mirmila e André se olham. A escrava percebe as intenções de Maricota. Os dois balançam a cabeça positivamente e começam a caminhar para uma área mais distante.

MARICOTA – Onde será que está aquele homem?

Ela levanta um pouco a cabeça, procurando por Félix até que o encontra, em um ponto distante do rio, em trajes de banho. A jovem fica olhando fixamente para aquela cena, encantada. Ela sente a temperatura do corpo aumentar e joga algum punhado de água sobre seu corpo.

CORTA.

cena 7 – riacho. exterior. dia.

Mirmila e André estão se beijando nas pedras.

ANDRÉ – Que lugar bão pra fazê um fio.

MIRMILA – Não temos tempo, André! Daqui a pouco precisamos voltar pra cuidar de sinhazinha Maricota.

ANDRÉ – Ocê nunca tinha falado desse lugá pra eu.

MIRMILA – Quase ninguém conhece aqui. O Barão não permite que os escravos tomem banho por aqui.

ANDRÉ – Então esse é o mió lugá pra escondê um negócio.

MIRMILA – O que vosmecê quer esconder aqui?

ANDRÉ – Na hora certa ocê vai sabê.

André rouba mais um beijo de Mirmila, que agora está desconfiada.

CORTA.

CENA 8 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Félix avista a jovem e percebe que ela estava olhando para ele. Ele sorri e acena, Maricota retribui. Félix toma coragem e passa a caminhar em direção à moça. Nesse instante, Maricota se assusta, levanta e começa a gritar.

MARICOTA – André! Mila! Mila! Alguém!

Os dois escravos que saem das pedras onde estavam, Mirmila descabelada e André um tanto atordoado.

MIRMILA – O que foi, sinhá?

Nesse momento, Félix está parado no meio do caminho, confuso.

MARICOTA – É aquele homem… Eu… Eu pensei que ele ia vir pra cima de mim.

André olha para Félix e começa a correr atrás dele. O jornalista foge, sem que André consiga alcançá-lo.

MARICOTA – Deixe estar, André. Deixe estar.

ANDRÉ – Ele faz algo de ruim pra sinhá?

MARICOTA – Não, eu só… Fiquei com medo. Na verdade ele nem chegou perto de mim, coitado. Deve estar assustado.

MIRMILA – Vem, sinhá, vamos embora.

MARICOTA – Por favor, não contem nada pra minha mãe.

ANDRÉ/MIRMILA – Pode deixar.

CORTA.

CENA 9 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

Félix entra correndo, apavorado.

LEOPOLDO – O que aconteceu, irmão? Parece que viu um fantasma.

FÉLIX – As mulheres são loucas!

LEOPOLDO – Já teve desencantos por causa da moça do rio?

FÉLIX – Acredita que ela pôs um escravo para correr atrás de mim? Só porque eu me levantei e ia falar com ela.

LEOPOLDO – Esqueça isso. Temos que nos arrumar para o jantar na casa do Barão logo mais.

FÉLIX – Ainda não acredito que aceitamos esse jantar.

Félix respira fundo, desapontado.

CORTA.

CENA 10 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

O Barão e o Duque entram na casa em silêncio. Suzana vem recepcioná-los.

SUZANA – Como foi o caminhar pela vila, Sua Graça?

DUQUE DE MONTEVERDE – Muito agradávél, madame. Acredita que esta vila dispõe de uma imprensa? Eu nunca imaginei…

SUZANA – Imprensa? O senhor está se referindo ao jornaleco que temos por aqui

DUQUE DE MONTEVERDE – Exatamente. É fascinante.

SUZANA – Nós já tivemos alguns problemas com essa gente, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Acredito que estes problemas não vão mais existir, senhora.

BARÃO – Os irmãos Bulhões vão vir jantar conosco esta noite.

Close na expressão impressionada de Suzana.

CORTA.

CENA 11 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Suzana e o Barão conversam no quarto.

SUZANA – Como foi capaz de permitir que aqueles dois viessem jantar em nossa casa?

BARÃO – O que vosmecê queria que eu fizesse?

SUZANA – Sua autoridade está indo embora, Braz. E isso é muito perigoso.

BARÃO – Tudo isso é temporário. O Imperador não deve tardar a chegar.

SUZANA – Enquanto isso serei obrigada a receber aqueles dois nesta casa? Onde está o respeito?

BARÃO – Esta casa pertence ao Império do Brasil, Suzana. Eu não quero ser acusado de conspirador.

SUZANA – Pois vosmecê trate de resolver logo tudo isso, ou eu vou enlouquecer.

Suzana vira as costas e sai, dando de cara com o escravo André.

SUZANA – O que é? Vosmecê quer o quê?

ANDRÉ – A sinhá vai precisá de mim hoje a noite? É que eu esqueci umas coisa na mina e queria pegá.

SUZANA – Não, não vou. Vá pegar suas coisas, mas quero vosmecê aqui amanhã na primeira hora.

ANDRÉ – Sim senhora.

André sai pelos corredores. Suzana respira fundo, chateada, e segue para a cozinha.

CORTA.

CENA 12 – MINA DE OURO. EXTERIOR. DIA.

Benedito e André chegam à mina. André corre para dentro do ambiente e tira algumas pedras que prendiam um pedaço grande de um papel sujo e rabiscado.

BENEDITO – Onde vai guardar isso?

ANDRÉ – Descobri um lugá lá perto do rio.

BENEDITO – Do rio do Barão? Vosmecê enlouqueceu?

ANDRÉ – Por que? A Mila disse que quase ninguém vai lá.

BENEDITO – É muito arriscado, André.

ANDRÉ – Mas num tem lugar mió.

BENEDITO – Certo, certo. Vamos logo com isso. Pegue logo esse mapa e vamos escondê-lo.

André pega o mapa e o guarda consigo. Ele e Benedito saem até o leito do rio. André vai até o lugar onde ele e Mirmila quase fizeram amor mais cedo e esconde o mapa entre algumas pedras. A câmera foca o mapa que tinha o título de “IGREJA DA SERRA DOURADA”.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO

Anúncios

22 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 06

  1. Esse jantar promete muito. Parece que Leopoldo está bem confiante do que irá fazer. Félix e Maricota ainda não tiveram um momento entre eles pra eu poder avaliar o casal. Será que é arriscado guardar o mapa ali próximo ao rio? Acho que sim.

    Parabéns, Leonel! 😉

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu compreendo a correria diária das pessoas, Maurício. Espero que você possa se atualizar em breve! Obrigado pelo comentário.

      Curtir

  2. Capítulo 5

    O duque de Monteverde chega em Goyas mudando os planos do Barão, claramente que ele não gostou dessa visita. Suzana manda André ser guardião de Maricota. E o duque quer conhecer os irmãos Bulhões… Resta saber no que vai resultar esse encontro…

    Capítulo 6

    Duque de Monteverde convida Félix e Leopoldo para jantar na casa do Barão, e o último enxerga uma possibilidade de se vingar do seu desafeto, vulgo Barão de Anhanguera. Maricota fica toda assanhada ao ver Félix no rio, mas não o deixa se aproximar. Benedito e André escondem o mapa da igreja numa pedra do rio.

    Sinto falta de um fio condutor na web, um foco principal. Sei lá, a estória vem sendo muito bem contada, mas não vejo a trama seguindo um foco central… O dito casal protagonista ainda nem se conheceu para valer. Acho que tudo na web vai se cruzar e deslanchar quando o Imperador chegar e a festa para sua recepção acontecer.

    Parabéns, Leonel 😀

    Curtido por 1 pessoa

    • Como eu havia dito, apesar de ser uma trama com todos os clichês de um folhetim, o desenrolar da história é o diferencial.
      Apesar de faltar um “mote” (acho que ele vai ficar mais explícito nos capítulos dessa semana) quis dar um pouco de destaque para cada um.

      Curtir

    • Bruno, sem problemas. Você deu uma contribuição valiosa fazendo essa abertura lindíssima. Espero que você consiga se atualizar em breve! Obrigado ❤

      Curtido por 1 pessoa

  3. Disse que iria me atualizar, mas ainda não me atualizei, sofro? Porém o tempo não esta ao meu favor, mas em breve me atualizo, sim, pode anotar. Parabéns 😀

    Curtir

  4. Enfim, me atualizei. E vamos a uma análise compacta dos capítulos anteriores, que se chamará #MeuResumãode(nome da web que se trata) – e neste caso, será #MeuResumãodeSerraDourada ✌😛 – e avalie o título.

    Capítulos 04/05

    Maricota pede que a Iolanda uma música impura, uma música safadenha… – se a dona Ioiô (apelido carinhoso que eu dei a Iolanda. 😛) não souber, eu conheço umaa músicas perfeitas para você apresentar pro Imperador. 😛 – Iolanda diz que procurará algo que não seja religioso, e Maricota aceita a proposta. – eu aposto que o Imperador vai adorar a apresentação da Maricota. – olha, depois que a Maricota virou quenga, ela subiu e muito no meu conceito.

    O frade era o Frei Paulo e a mão negra era o Benedito, eu sabia! – o Benedito queria mostrar a igreja que ele e os outros escravos estão construindo para o Frei, que fica impressionado com a quantidade de ouro (o ouro tá escasso, ou é os escravos que tão roubando?), o Frei promete interceder pela igreja ao Bispo Dom Eugênio, mas este não dá ouvidos. – adoro o Frei, mas odeio o Bispo, ele aparenta ser bem amoral.

    Ao saber que o Imperador está chegando a Goyaz, Iolanda e Olinda estão com a cana acesa para que o Imperador se apaixone por elas. – elas acham mesmo que o Imperador vai se apaixonar por elas? Socorro! Se a Maria recusar a minha proposta de casamento, eu peço a Olinda em casamento, gostei muito dela. 😛

    Uma nova pessoa chega a Goyaz: o Duque de Monteverde, que se hospeda na casa do Barão e tomar todo o poder dele. Ele chega a pedir para que o Barão o leve para conhecer Félix e Leopoldo. – eu adoro, eu me amarro… eu não vou mentir, adorei o Duque, pisa sem dó no Barão, creio que Félix e Leopoldo vão se aproveitar da chegada do Duque para destruir o Barão, adoro.

    Personagens que eu adoro: Duque, Maricota, Félix, Benedito, Leopoldo, Frei Paulo, André, Mirmila, Iolanda e Olinda.

    Personagens que odeio: Suzana, Barão e Bispo Dom Eugênio.

    Agora vamos ao #AnalysisToday ✌😛 de hoje.

    Serra Dourada – Capítulo 06

    Félix e Leopoldo ficam desconfortáveis com a presença do Barão, o Duque elogia o trabalho deles e os convida para um jantar na casa do Barão. Sem pestanejar, Leopoldo aceita. – ai, o Barão tá sendo tombado pelo Duque, adoro. Creio que depois que o Imperador chegar, o Barão vai perder cada vez mais o poder. – após isso, Félix vai se banhar no riacho. – tem chuveiro na sua casa não, querido? – ô homem pra gostar do riacho do Barão. Assim que chega no riacho, Félix se encontra com Maricota, que manda André ir atrás dele. – por que a Maricota fez isso? Ela não queria ver ele de novo? – André fala com Benedito que o riacho é o lugar perfeito para esconder o mapa da igreja, ele pega o mapa e o esconde. – acho que aí, alguém vai descobrir e o André e o Benedito vão se ferrar bonito, ou então, as águas do riacho vão destruir esse mapa.

    Esse jantar promete.

    “Serra Dourada” inicialmente despretensiosa, mas agora, está com as garras para fora.

    Parabéns, Leonel! Você tá arrasando com “Serra Dourada”. 😀

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s