Serra Dourada – Capítulo 07

{continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – PASSAGEM DE TEMPO.

O sol se põe no alto da Serra Dourada e os lampeões da cidade se acendem. A câmera mostra Félix e Leopoldo a caminho da residência do Barão.

FÉLIX – Ainda acho um erro tudo isso.

LEOPOLDO – Quieto! Já disse que essa é a nossa chance.

FÉLIX – Chance de quê? Vosmecê acha que o Barão não nos convidaria se tivesse segundas intenções?

LEOPOLDO – Não foi ele quem nos convidou, foi o Duque. E além do mais, vai ser bom ver a cara daquela gente toda quandro entramos pela porta da frente, como convidados.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Maricota acabava de se arrumar.

MIRMILA – Sinhazinha tá bonita por demais.

MARICOTA – Obrigada pelo elogio, Mila.

MIRMILA – Sinhá, posso fazer uma pergunta?

MARICOTA – Pois faça!

MIRMILA – Por que vosmecê fugiu do rapaz hoje, no rio?

MARICOTA – Eu não sei… Eu… Eu fiquei com medo.

MIRMILA – Vosmecê nunca beijou um homem, sinhazinha?

MARICOTA – Eu? Não… Mas já li muitos romances.

MIRMILA – Uma pena que a senhora sua mãe vai levar vosmecê para um convento.

MARICOTA – Papai não há de permitir esse absurdo! Ele quer que eu me case.

MIRMILA – E vosmecê já tem um pretendente?

MARICOTA – Sabe… Bem que aquele moço do rio poderia ser meu pretendente, vosmecê não acha?

MIRMILA – Mas a sinhazinha nem sabe o nome do moço. Além do mais, ficou toda apavorada com ele hoje.

MARICOTA – Tem razão. Fui uma boba, né?

Antes que pudesse responder, Suzana entra no quarto.

SUZANA – Está pronta, Maria Teresa?

MARICOTA – Sim, mamãe.

SUZANA – Então vamos. E comporte-se. Não quero vosmecê conversando com aqueles dois.

MARICOTA – Que dois?

SUZANA – É bom mesmo que vosmecê nem saiba quem eles são. Vamos.

Todos saem do quarto. Mirmila vai para a cozinha enquanto Suzana e Maricota seguem para a sala de jantar.

CENA 3 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Ao se colocarem na enorme escadaria diante do casarão, o Duque avistou os dois irmãos.

DUQUE DE MONTEVERDE – Por favor, senhores. Vamos entrando.

Félix e Leopoldo entram. Cumprimentam o duque educadamente.

DUQUE DE MONTEVERDE – Sejam bem vindos.

SUZANA – Eu não diria isso, vossa graça, mas já que o senhor que é quem faz honras por aqui… Então sejam bem vindos, senhores.

Neste momento, os olhares de Félix e Maricota se encontram. Ela fica boquiaberta com a surpresa: nunca imaginou que ele fosse um Bulhões. Ele começa a tremer, nervoso ao descobrir que ela era filha do inimigo de sua família.
Mesmo assim trocam olhares a todo o momento.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vamos, senhores, vamos que o jantar nos espera.

LEOPOLDO – Quero dizer que eu e meu irmão estamos honrados de estar aqui, vossa graça. Não é Félix?

Por um momento todos conseguem perceber a troca de olhares entre Félix e Maricota.

LEOPOLDO – Félix?

FÉLIX – Ah, sim sim, é uma honra. Uma grande honra mesmo.

CORTA.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Todos estão na sala de jantar, comendo pacientemente.

DUQUE DE MONTEVERDE – Andei lendo seu jornal, Leopoldo, e me impressionei com sua acidez.

LEOPOLDO – Escrevemos apenas verdades, vossa graça. E eu só faço a edição, geralmente os textos são do Félix.

DUQUE DE MONTEVERDE – Ora, ora. Que dupla, hein?

FÉLIX – Ainda não conseguimos entender o motivo do convite, vossa graça.

BARÃO – Não conseguimos mesmo. Se dependesse de mim nenhum dos senhores colocaria os pés nesta casa.

SUZANA – Braz! Não seja deselegante na frente dos nossos convidados. E do duque.

O Barão de Monteverde joga os guardanapos sobre a mesa.

BARÃO – Se me dão licença, senhores, eu perdi o apetite.

Ele se levanta da mesa e sai.

SUZANA – Com licença.

Suzana vai atrás do marido.

CORTA.

cena 5 – casa dos caiado. interior. noite.

Suzana entra no quarto do casal.

BARÃO – É um despropósito tudo isso!

SUZANA – Braz, precisamos ter sangue frio.

BARÃO – Como ele me convida os filhos daquele homem para comerem na minha própria casa? Nós deveríamos ter colocado veneno nessa comida, Suzana.

SUZANA – Pare com isso, Braz! Eu estou te desconhecendo.

BARÃO – Eu só quero tudo isso acabe. E eu não vou voltar para lá.

SUZANA – O que é que eu vou dizer para eles?

BARÃO – Sei lá. Invente qualquer coisa.

Suzana respira fundo.

CORTA.

CENA 6 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

A conversa na sala de jantar continuava.

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas, me diga senhor Leopoldo, será que pode escrever alguma coisa especial a respeito da chegada de Sua Majestade

LEOPOLDO – Certamente, Sua Graça. Algo especial?

DUQUE DE MONTEVERDE – Vou lhe contar algumas anedotas da corte, e vosmecê tira suas próprias conclusões. Venha comigo.

Leopoldo se levanta e segue o Duque até a biblioteca. Félix e Maricota ficam sozinhos.

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

FÉLIX – Vosmecê é a moça mais linda de toda essa vila. Quiçá de todo este reino.

MARICOTA (sem jeito) – Não devíamos ficar a sós, senhor Félix, preciso ir para o meu quarto.

Maricota se levanta ao mesmo tempo que Félix, que segura seu braço sem força.

FÉLIX – Será que podemos nos encontrar no riacho? Prometo manter distância.

MARICOTA – Preciso pensar senhor Félix. E me desculpe se o assustei hoje.

FÉLIX – Ah, sim, assustou muito! Mas, sua beleza e ternura deixaram para trás qualquer outro sentimento.

Neste momento Suzana entrou na sala de jantar.

SUZANA – Onde estão os outros?

MARICOTA – O duque levou o senhor Leopoldo à biblioteca, mamãe.

SUZANA – E por que vosmecê não foi para o seu quarto? Não sabe que é de bom tom uma moça de família ficar no mesmo ambiente que um homem solteiro?

FÉLIX – Senhora, me desculpe foi tudo culpa minha. Ela quis apenas me fazer companhia.

Suzana ignora o rapaz.

SUZANA – Já para o seu quarto, Maria Teresa.

Ela troca um último olhar cúmplice com Félix e se retira.

SUZANA – Sugiro que o senhor acompanhe seu irmão. Vosmecês não são bem vindos nesta casa. Este jantar terminou.

Suzana vira as costas em direção à filha, e Félix vai para a biblioteca.

CENA 8 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Maricota entra no quarto toda feliz, pula na sua cama e abraça o seu travesseiro com força. A mãe entra logo depois.

SUZANA – Não acredito na cena que acabei de ver.

MARICOTA – Nós não fizemos nada demais, mamãe. Sequer trocamos duas ou três palavras.

SUZANA – Vosmecê sabe quem é este homem? É filho do pior inimigo de seu pai!

MARICOTA – Não fiz nada, já disse.

SUZANA – Se eu souber que vosmecê encontrou com este sujeiito, nem que seja na rua, vai ser castigada. Se vosmecê tem algum amor a mim ou ao seu pai, faça o favor de esquecer esta noite.

Suzana sai e bate a porta. Maricota fica assustada, mas não deixa de pensar no rapaz. Ela deita em sua cama feliz.

CENA 9 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Félix entra na biblioteca e se senta ao lado do irmão.

DUQUE DE MONTEVERDE – Me conte a verdade, senhor Leopoldo. Como o Barão lida com esse lugar?

LEOPOLDO – Eu não sou a pessoa mais indicada para lhe dizer, vossa graça. Mas tudo está relatado nas edições do jornal.

DUQUE DE MONTEVERDE – O senhor sabe algo sobre a queda de produção de ouro?

LEOPOLDO – Essa é uma tendência, não é? Ouvi dizer que nas Gerais a produção também caiu.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não sei… Tem alguma coisa errada. Em todo caso, senhor Leopoldo, conto com vosmecê para agradar o príncipe e dizer as verdades sobre o Barão de Anhanguera.

LEOPOLDO – Pode confiar em mim, vossa graça. Agora precisamos ir, não é Félix?

FÉLIX – Claro, claro. Boa noite vossa graça. Desculpe todo o transtorno.

DUQUE DE MONTEVERDE – Imagine. Boa noite a vocês.

Os dois irmãos saem do casarão dos Caiado assustados com tudo o que havia acontecido.

cena 10 – casa dos caiado. interior. noite.

O Duque de Monteverde caminha até a sala de jantar e encontra Mirmila recolhendo os pratos.

DUQUE DE MONTEVERDE – Ninguém quis comer?

MIRMILA – O Barão não está se sentindo bem e a dona Suzana foi cuidar dele. A menina Maricota já foi dormir. O senhor ainda vai comer?

DUQUE DE MONTEVERDE – Sozinho? Que coisa mais sem graça.

MIRMILA – Se o senhor quiser posso servir alguma coisa.

O duque caminha até a escrava, de repente, joga o corpo da mulata contra a parede e começa a passear suas mãos pelo corpo da mulher.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê tem sim o que eu quero.

Mirmila fica desesperada, tenta se desvencilhar das mãos do Duque, mas não consegue. Ele tapa a boca da moça com força, enquanto distribui alguns beijos no pescoço dela.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê é muito formosa, Mirmila, vai me fazer companhia esta noite.

Quando o duque sobe a boca para beijá-la, Mirmila dá uma mordida no lábio inferior do homem, que se afasta. Ela dá um empurrão nele e sai correndo.

DUQUE DE MONTEVERDE – Desgraçada! Maldita! Escrava maldita!

O duque limpa o sangue na toalha da mesa, caminhando com passos firmes até o seu quarto, sozinho.

CORTA.

CENA 11 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. NOITE.

LEOPOLDO – Esse Duque parece ser pior que o próprio Barão.

FÉLIX – Até que esse jantar veio a calhar.

LEOPOLDO – Eu percebi, aliás, todos percebemos o modo como vosmecê olhava a filha do Barão.

FÉLIX – Ela não é linda, irmão?

LEOPOLDO – Sim, mas é filha daquele monstro! Não te esqueças disso!

FÉLIX – Pouco me importa de quem ela é filha. Vou vê-la amanhã.

LEOPOLDO -Tenha cuidado, Félix. Se descobrem vosmecê vai ter o mesmo fim do nosso pai.

FÉLIX – Não se preocupe, eu sei me cuidar.

LEOPOLDO – Eu espero que sim. Boa noite, Félix.

FÉLIX – Boa noite, irmão.

Leopoldo vai para o seu quarto e Félix continua na sala, suspirando.

FÉLIX – Maria Teresa… Quero tanto vosmecê pra mim, só pra mim…

A câmera corta para o quarto de Maria Teresa e mostra a jovem abraçada ao travesseiro.

MARICOTA – Tão bonito e educado… Como pode ser tão galante? Mal posso esperar para vê-lo amanhã.

A câmera se divide em duas, mostrando um suspirando pelo outro.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 7

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20 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 07

    • Ele é terrível. As maldades dele só estão no início.
      Maricota e Félix agora vai, com fé! 😀
      Obrigado Fred!

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  1. Félix e Maricota finalmente tendo uma maior aproximação… Agora eu descubro se shippo ou não o casal, depende de como tudo vai se desenvolver. Chocado com o Duque tentando abusar da Mirmila, mas que desgraçado. Felizmente, ela conseguiu escapar, mas agora ela tem que ficar atenta com esse homem.

    Parabéns, Leonel 😀

    Curtido por 1 pessoa

    • Esse Duque chegou pra infernizar a vida de muita gente. Espero que você torça por Félix e Maricota.
      Obrigado Jean!

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  2. Li o capítulo, tá nota 10. Adorei o jantar dos inimigos. Não tenho tempo para fazer um comentário específico agora, pois tenho texto de sociologia para fazer e uma atividade de química enorme. No mais, deixo a minha contribuição na audiência e dou os meus parabéns, Leonel. 😀

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