Serra Dourada – Capítulo 08

{continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – PASSAGEM DE TEMPO.

Amanhece na Vila. As pessoas começam a sair de suas casas para os seus ofícios. A câmera foca o casarão dos Caiado.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

A caminho da biblioteca, o Barão percebe o ferimento na boca do Duque.

BARÃO – Sua graça, o que houve?

DUQUE DE MONTEVERDE – Um pequeno acidente, nada demais.

BARÃO – Está bem inchado.

DUQUE DE MONTEVERDE – É, eu sei. E vosmecê, está melhor?

BARÃO (desentendido) – Melhor? Melhor de quê?

Neste momento Suzana entra no ambiente.

SUZANA – Melhor do seu mal estar de ontem, Braz. Vosmecê teve que se recolher mais cedo, não se lembra?

BARÃO (disfarçando) – Ah, sim! Claro, claro. Estou tão bem hoje que nem me lembro mais daquilo.

DUQUE DE MONTEVERDE – Fico feliz que esteja plenamente reestabelecido, Barão. Uma pena que a ideia do meu jantar não tenha os agradado. Me desculpem.

BARÃO – Existem coisas nesta Vila que o senhor não sabe como funcionam, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Pois muito bem… Hoje quero visitar a mina.

BARÃO (surpreso) – Por que? Não me diga que vai fiscalizar meus atos como chefe desta vila, vai?

DUQUE DE MONTEVERDE – Preciso fazer um relatório meticuloso para entregar à Sua Majestade.

BARÃO – Eu tenho estes documentos no meu escritório, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Preciso que ela esteja de acordo com a realidade da vila, Barão. O senhor me entende, não é?

BARÃO (irritado) – Tudo bem, tudo bem, vamos lá.

corta.

cena 2 – catedral. EXTERIOR. dia.

O escravo Benedito aborda Frei Paulo na porta da Igreja.

BENEDITO – E então, Frei, conversou com o bispo?

FREI PAULO – Sua eminência está irredutível, Benedito. Me desculpe.

BENEDITO – Então temos que arrumar um jeito de levá-lo até lá.

FREI PAULO – Mas como?

BENEDITO – Eu não sei, mas precisamos pensar em alguma coisa.

FREI PAULO – Prometo que vou trabalhar nisso. No mais, continue a construir a capela.

BENEDITO – Vai ser uma igreja, frei.

FREI PAULO – Que seja. Continue a fazer o que vosmecê está fazendo. Deus há de recompensá-lo.

BENEDITO – Assim seja. Sua bênção, frei.

FREI PAULO – Deus lhe abençoe meu filho.

CENA 3 – ALGUM LUGAR PRÓXIMO A GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

A câmera mostra apenas as rodas de uma carruagem em movimento e o barulho de alguns cavalos.

CORTA.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Mirmila entra no quarto de Maricota, cabisbaixa.

MARICOTA (feliz) – Bom dia Mila! Bom dia sol! Bom dia vida! Bom dia passarinhos, santinhos, bichinhos! Bom dia!

MIRMILA – Vejo que a sinhazinha acordou muito feliz hoje.

MARICOTA – É bom saber que alguém gosta da gente. Mal consegui dormir essa noite pensando nele.

MIRMILA – Nele quem? No Bulhões?

MARICOTA – Félix é o nome dele! Ele não é bonito?

MIRMILA (triste) – É sim, sinhazinha.

MARICOTA – O que houve com vosmecê?

MIRMILA – Nada não.

MARICOTA -Certeza? Está triste. Não quero que fique triste. Minha mãe lhe fez mais alguma coisa?

MIRMILA – Não! Nem vi a sinhá Suzana hoje ainda.

MARICOTA – Então o que é, criatura?

MIRMILA – Melhor não falarmos sobre isso. Hoje a sinhazinha tem aula de piano.

MARICOTA – Pois então cancele. Vou tomar um banho no rio porque estou com calor.

MIRMILA – Calor? Sei. Vai encontrar aquele moço de novo.

MARICOTA – Shhh… Fale baixo! Se a minha mãe descobre estou perdida.

MIRMILA – Quer que eu vá com vosmecê?

MARICOTA – Se puder, eu adoraria! Aliás, o que vosmecê e o André fizeram ontem?

MIRMILA – Nada que uma moça da sua idade precise saber! Vamos, vamos embora tomar esse banho de uma vez.

corta.

CENA 5 – RIO. EXTERIOR. DIA.

Félix chega ao riacho  e procura um lugar mais discreto para aguardar a vinda de Maricota. Ele percorre um caminho de pedras e encontra um pequeno poço, onde começa a tomar banho.

FÉLIX – Agora é só esperar ela chegar…

corta.

cena 6 – catedral. interior. dia.

Frei Paulo vai atrás do Bispo mais uma vez.

FREI PAULO – Dom Eugênio, eu estive pensando… Como podemos agradar Sua Majestade?

DOM EUGÊNIO – Estamos fazendo todo o possível para que as missas e procissões sejam inesquecíveis, Paulo.

FREI PAULO – Mas eminência, o senhor não acha que o Imperador já vivencia demais esse espírito?

DOM EUGÊNIO – Mas é claro! Ele é católico. Deus outorgou a Ele os rumos do nosso país.

FREI PAULO – Eu sei que o senhor é um homem atento às tradições, mas até onde eu sei o Imperador é muito jovem. Acho que ele espera de nós um pouco mais de cratividade.

DOM EUGÊNIO – Lá vem vosmecê com ideias modernas. No que pensou dessa vez?

FREI PAULO – Numa missa campal. O que me diz?

DOM EUGÊNIO (pensativo) – Até que não é ruim. Mas, onde poderíamos realizá-la?

FREI PAULO – No alto da Serra Dourada, eminência! No raiar ou no por do sol. Não é uma vista maravilhosa?

DOM EUGÊNIO – Vosmecê enlouqueceu, Paulo? E como as pessoas vão chegar lá?

FREI PAULO – Seria um evento restrito à aristocracia da região. Até daria um respiro ao Imperador.

DOM EUGÊNIO – Não existe a menor condição. Não temos estrutura.

FREI PAULO – E se eu falar para o senhor que existe uma igreja sendo construída no alto da Serra Dourada?

DOM EUGÊNIO – Como é? Construída por quem?!

FREI PAULO – Pelos escravos, eminência.

DOM EUGÊNIO – Hereges! Não se pode erguer um templo pagão neste solo sagrado!

FREI PAULO – Eminência, não é pagão! É para Nossa Senhora do Rosário. Se quiser levo o senhor lá agora mesmo.

DOM EUGÊNIO – Pois então vamos ver isso imediatamente! Quero tirar a prova com os meus próprios olhos!

CORTA.

CENA 7 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Maricota chega ao rio acompanhada de André e Mirmila. Félix sai das pedras quando percebe que os escravos se aproximavam. Ele pega uma trilha alternativa e surge no leito próximo da mulher.

FÉLIX (ainda distante) – Promete que não vai fugir dessa vez?

MARICOTA – Pode chegar perto, eu não mordo.

FÉLIX – O que é realmente uma pena.

Ele se aproxima de Maricota até tomá-la em seus braços.

FÉLIX – Sabe que eu não consegui dormir? Fiquei pensando em vosmecê a noite toda.

MARICOTA – Eu também. Não paro de pensar em vosmecê desde aquele dia, aqui no rio.

FÉLIX – Acredita em amor à primeira vista?

MARICOTA – Como nos livros?

FÉLIX – Isso… Como nos contos de fada.

MARICOTA – Seria você o meu príncipe encantado?

FÉLIX – Disso eu não sei. Mas você é a minha princesa.

Neste momento, Félix rouba um demorado beijo de sua amada que, nervosa, acaba mordendo o lábio dele sem querer.

MARICOTA – Meu Deus! Me desculpe, é que eu… Eu nunca tinha feito isso antes na minha vida. Você se machucou?

FÉLIX (rindo) – Imagina! Agora é que eu quero mesmo todos os beijos que eu tenho direito.

O rapaz rouba mais um beijo dela.

corta.

CENA 8 – MINA DE OURO. EXTERIOR. DIA.

O Barão e o Duque de Monteverde chegam à mina.

DUQUE DE MONTEVERDE (desconfiado) – É uma mina muito grande…

BARÃO – É o orgulho de toda a região.

DUQUE DE MONTEVERDE – Já explorou os fios de ouro dos leitos dos rios, Barão?

BARÃO – Certamente que sim, vossa graça. O garimpo no leito do rio encerrou há anos. Agora as técnicas são outras.

DUQUE DE MONTEVERDE – Estou achando a quantidade de escravos pequena.

BARÃO – Não existem muitos nessa região, vossa graça. Estamos no coração do império.

DUQUE DE MONTEVERDE – O coração do império é a corte, senhor Barão. Quem é o responsável pelo garimpo?

BARÃO – O escravo André e o meu cocheiro, Benedito.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê deixa sua mina aos cuidados de escravos?

BARÃO – Vossa graça não está sugerindo que eu fique aqui o tempo inteiro, está? Existem questões administrativas que precisam ser resolvidas.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não estou gostando do seu tom, senhor Barão.

O duque entra na mina e o Barão vai atrás, contrariado.

CENA 9 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Iolanda entra na casa na hora marcada para a aula de piano de Maricota.

SUZANA – Dona Iolanda, a que devo a visita?

IOLANDA – Vim ensinar mais lições de piano para a menina Maricota.

SUZANA – Acredito que ela tenha ido ao riacho se refrescar, mas não deve demorar.

IOLANDA (venenosa) – A senhora é uma mãe muito liberal com sua filha, não é dona Suzana?

SUZANA – O que está insinuando, dona Iolanda?

IOLANDA – Ora, para deixar uma moça assim, sozinha,tomar banho de rio… Não pega bem, a senhora sabe.

SUZANA – A senhora bem sabe que o rio está na propriedade do senhor meu marido. Ninguém toma banho lá. Além do mais, ela foi acompanhada por dois escravos.

IOLANDA – Tudo bem, dona Suzana, foi apenas um comentário. Quero muito bem à menina Maria Teresa.

Suzana força um sorriso, desconfiada da filha após tudo o que foi dito pela velha mexeriqueira.

CORTA.

CENA 10 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Enquanto Félix e Maricota namoram à beira do rio, os escravos André e Mirmila conversam num lugar mais afastado.

andré – Tô achando ocê triste. É por causa do segredo? Ocê lembra do segredo que eu num podia contá?

MIRMILA – Não é nada, André, mas sim… Eu me lembro do segredo. E como poderia esquecer? O que é?

ANDRÉ – Vou mostrá procê.

André leva a moça até um punhado de pedras. Retira-as e mostra o mapa para ela.

MIRMILA – O que é isso?

ANDRÉ – Isso é um mapa do tesôro.

A câmera foca no mapa. André e Mirmila se olham, ela sem entender muita coisa.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 8

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7 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 08

  1. Esse Duque arrasa e muito, gosto muito dele, meu personagem favorito. E a história de Félix e Maricota se iniciou, como terminará essa história? Tragicamente ou alegremente? E André mostrou o mapa da igreja para Mirmila, e o Frei Paulo vai levar o Bispo para conhecer a igreja…

    Não é nenhum #AnalysisToday✌😛, mas é um comentário que posso fazer agora. Talvez amanhã saia textão, adoramos? Parabéns, Leonel. 😀

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  2. O Duque tem uma soberania sobre o Barão, chega a ser cômico. O todo poderoso da região não tem mais autonomia nem na própria casa.
    Félix e Maricota​ se beijam, finalmente.

    Parabéns, Leonel 😀

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