Serra Dourada – Capítulo 09

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Mirmila ainda olhava para o mapa sem entender direito do que se tratava.

mirmila – Como assim mapa do tesouro? Que tesouro?

andré – Num dá pra falá agora.

MIRMILA – Quer dizer que tem ouro nesse lugar pra onde o mapa leva?

ANDRÉ – Tem. Mas tamém tem a nossa liberdade!

Emocionada, Mirmila cai no choro e abraça André.

ANDRÉ – Uai, o que que foi?

MIRMILA – Eu tô cansada de ser escrava, cansada. Ontem aconteceu uma coisa horrível.

ANDRÉ – O Barão fez alguma coisa cocê?

MIRMILA – Não, não. Não foi o Barão.

ANDRÉ – Então quem foi? Fala que eu quebro os dente tudim da boca desse mardito.

MIRMILA – Graças a Deus não aconteceu nada, André. Não precisa quebrar o dente de ninguém e eu não vou falar quem foi porque isso pode nos dar problemas. Agora vamos embora que a sinhá Suzana já deve estar sentindo nossa falta.

Antes de saírem, André volta a esconder o mapa.

CORTA.

CENA 2 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Maricota estava deitada nas pedras com Félix. Agarrada ao namorado.

FÉLIX – Sou capaz de passar o dia com vosmecê…

MARICOTA – E eu contigo, meu amor.

FÉLIX – Podemos nos encontrar sempre aqui, o que achas?

MARICOTA – Perfeito! Será o nosso lugar.

Eles se beijam apaixonadamente.

FÉLIX – Amei vosmecê desde a primeira vez que a vi. É a mais linda das flores deste cerrado.

MARICOTA – Logo vi que vosmecê é um poeta.

FÉLIX – Escreverei muitos poemas de amor agora que tenho vosmecê em minha vida.

Maricota sorri e eles dão mais um rápido beijo. André e Mirmila surgem e se assustam com a cena

MIRMILA – Sinhazinha!

Félix se levanta rapidamente. Seu chapéu voa e cai no leito do rio, indo em direção às pedras. Ele continua a correr sem olhar para trás.

MARICOTA – Se algum dos dois contar o que aconteceu aqui eu vou ficar muito magoada, ouviram?

MIRMILA – Eu não vou contar, sinhazinha, pode ficar tranquila. Tenho por vosmecê um querer muito bem. E o André também não vai contar.

ANDRÉ – Mas a Sinhá Suzana–

MIRMILA – Vosmecê não vai contar nada, ouviu? Sinhazinha confiou em nós.

ANDRÉ – Acho mió nóis vortá. Tá ficano tarde.

MARICOTA – Está bem. Eu espero que ele venha me ver amanhã…

MIRMILA – Acho que ele vai vir sim, sinhazinha. Ele parece que gosta de vosmecê.

MARICOTA – Eu estou apaixonada, Mila.

As duas abrem um largo sorriso, felizes, e caminham juntas até a casa grande. André vai na frente, deixando as duas conversando.

corta.

CENA 3 – ALGUM LUGAR PRÓXIMO A GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

Num pequeno vilarejo, um homem desce da carruagem imperial, trajando roupas de fidalgo e com uma pose um tanto afeminada.

CHALAÇA – Ei, negro, vosmecê venha cá.

O negro qualquer, sem saber de quem se tratava, caminhou em direção à carruagem real com receio.

CHALAÇA – Queres ganhar dinheiro fácil?

O negro balançou a cabeça positivamente. Chalaça passeou os dedos pelo peitoral nu do rapaz e sorriu, tirando uma carta e algumas moedas de ouro.

CHALAÇA – Sabe onde fica Goyaz?

O negro apontou para oeste. Chalaça sorriu.

CHALAÇA – Entregue esta carta ao Barão de Anhanguera e a ninguém mais, ouviu bem? O dinheiro que lhe dei deve servir para alugar um bom cavalo aqui nesta estância. Ande garoto, vá!

O negro saiu como um raio em direção a Goyaz, enquanto Chalaça pôs a mão na cintura.

CHALAÇA – Ah, esses escravos do interior, um dia eles ainda me matam.

O homem abre um leque, fazendo um barulho estridente, e começa a se abanar.

CHALAÇA – Majestade, estamos quase chegando. Mais uma noite e estaremos em Goyaz.

Dito isso, Chalaça subiu novamente na enorme carruagem real, que seguiu viagem. A câmera se afasta.

corta.

cena 4 – casa dos caiado. interior. dia.

Todos entram correndo da volta do riacho. Suzana os aguarda, com cara de poucos amigos.

suzana – Demorado esse banho, não é?

MIRMILA – Me perdoe sinhá é que eu–

SUZANA – Permiti que vosmecê fosse junto de Maria Teresa para garantir que ela estivesse aqui na hora marcada. Mas pelo que vejo pelo estado do cabelo de vosmecês, algo muito mais interessante está a acontecer naquele riacho.

MARICOTA – Não diga bobagens, mamãe.

SUZANA – E a senhorita vá se recompor porque dona Iolanda a aguarda para suas aulas de piano.

Maricota apenas abaixa a cabeça e sai correndo em direção ao quarto.

SUZANA – De hoje em diante apenas André vai acompanhar Maricota. Isso deve evitar atrasos como os de hoje.

Suzana sai da cozinha, André e Mirmila se olham, tristes.

CENA 5 – SERRA DOURADA. EXTERIOR. DIA.

Cansados da caminhada, Dom Eugênio e Frei Paulo chegam à construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário.

DOM EUGÊNIO – Não existe nada aqui ainda, Paulo. Nada além de um monte de escombros. Isso aqui são ruínas.

frei paulo – Eminência, eles estão construindo isso aqui com as próprias mãos e com o suor deles. Não subiram mais do que estas muretas para não levantar suspeitas.

Dom Eugênio caminha em direção a uma enorme cruz cravada no meio da construção.

DOM EUGÊNIO – Era isso que tinha para me mostrar? Pois eu não vou autorizar construção alguma.

FREI PAULO – Ali, eminência.

Frei Paulo aponta para uma caverna. Os dois caminham em direção a ela e encontram uma montanha de ouro e prata das mais variadas formas. O bispo fica boquiaberto.

DOM EUGÊNIO – Minha virgem santíssima…

FREI PAULO – Eu não disse? Eles tem guardado esse ouro o tempo todo. Só querem a sua autorização.

DOM EUGÊNIO (impressionado) – Como… Como isso é possível?

FREI PAULO – Por favor, eminência, seja generoso.

DOM EUGÊNIO – Vosmecê não entende, jovem Paulo? O que existe aqui dentro é algo muito grave.

FREI PAULO – Qual é a gravidade, eminência? São negros católicos que querem um lugar para rezar.

DOM EUGÊNIO – Eles estão roubando do Império do Brasil, Paulo! Será que você não entende? Tudo isso aqui, ou boa parte, devia ir para a coroa!

Neste momento o negro Benedito surge do fundo da gruta com uma arma em mãos. Junto dele saem da gruta mais uns vinte ou trinta escravos.

BENEDITO – Vosmecê tem razão, eminência.

Os dois clérigos se assustam e se abraçam.

FREI PAULO – Benedito, abaixa essa arma… O que é isso homem?

BENEDITO – Vosmecê tem uma escolha a fazer aqui, eminência: ou fica de bico calado e uma parte generosa desse ouro vai para a sua igreja, ou infelizmente sua ida para junto do Pai será antecipada.

DOM EUGÊNIO (apavorado) – Tudo bem, tudo bem. E-eu aceito. Mas a Igreja só poderá funcionar com a autorização de Sua Majestade.

BENEDITO – Por isso eu e meus irmãos negros contamos com o senhor, eminência.

DOM EUGÊNIO – Que Deus nos ajude…

Close na expressão assutada dos dois.

CORTA.

CENA 6 – MINA DE OURO. EXTERIOR. DIA.

Após a inspeção, o duque sai da mina ao lado do Barão.

DUQUE DE MONTEVERDE – É um verdadeiro absurdo, Barão. Vosmecê deixa dois negros responsáveis pela riqueza da coroa e nenhum deles aparece para trabalhar.

barão (encara o outro) – Vossa graça não conhece essas terras. Esses negros são como coiotes. Ou confiamos neles, ou eles vem com a sua matilha e matam a gente.

DUQUE DE MONTEVERDE – Sua Majestade vai ficar sabendo de tudo isso. Quem me garante que esses negros não estão surrupiando o dinheiro do império? O senhor, que pouco vem aqui?

BARÃO – Dediquei a minha vida inteira a este império. Sua Majestade confia em mim.

DUQUE DE MONTEVERDE – O Imperador deixou de confiar em vosmecê no instante que me nomeeou interventor desta província.

Neste instante vários negros já faziam um círculo em volta dos dois homens, atentos às suas palavras.

BARÃO (perplexo) – Como é?! Eu estou sob intervenção?

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê e a sua província, pra ser mais exato. Por isso baixe seu tom de voz para comigo, ou eu não serei mais generoso com vosmecê.

BARÃO – Pois Vossa Graça, o duque, vai deixar a minha casa hoje mesmo.

DUQUE DE MONTEVERDE – A casa não pertence mais ao senhor, Barão. Ela foi confiscada depois que nós percebemos, lá na corte, o altíssimo índice de contrabando de ouro nestas terras.

BARÃO (sem acreditar) – Como é? Vosmecê só deve estar brincando…

DUQUE DE MONTEVERDE – Não, eu não estou. E eu espero, sinceramente, que vosmecê não abuse da minha hospitalidade. Vou lhes dar um prazo para saírem de lá. Quando o imperador chegar não quero nem vosmecê e nem sua esposa morando naquela casa.

O duque monta em sua charrete e ela parte, deixando o Barão para trás, extremamente chocado. Os escravos se amontoam sobre o homem, pedindo explicações. Ele saca a arma e dá um tiro pra cima, fazendo os escravos correrem.

BARÃO – Maldição! Como se não bastassem esses negros, agora preciso me livrar de um usurpador!

CORTA.

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Maricota pôs-se ao piano, arriscou algumas notas, mas logo parou.

IOLANDA – Por que parou, menina? Estava tão belo.

MARICOTA – Estou cansada de tocar músicas sacras, dona Iolanda. Quero algo mais animado.

IOLANDA – De novo com essa história? Eu ainda não achei uma música adequada para vosmecê tocar no baile com o Imperador, mas estou trabalhando nisso.

MARICOTA – Pode ser uma música sobre… Amor!

IOLANDA – Amor?! E a menina Maria Teresa quer música mais bonita que aquela que fala do amor a Nosso Senhor?

MARICOTA – Sabe, dona Iolanda, ouvi dizer que existem peças teatrais lá na corte. É verdade?

IOLANDA – Oh, sim. É verdade. Eu mesma já assisti várias.

MARICOTA – Então a senhora deve saber de alguma música que tocava nessas peças, não?

IOLANDA – Sim… Sei algumas.

MARICOTA – Então por que não me ensina?

IOLANDA – Pois muito bem. Vou ensinar vosmecê a tocar o quebra-nozes. Que tal?

MARICOTA (animada) – Acho ótimo dona Iolanda! Vamos começar!

Iolanda começa ensinar Maricota a tocar a música nova.

CORTA.

CENA 8 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Suzana estava na capela, rezando, quando o Duque de Monteverde aparece.

DUQUE DE MONTEVERDE – Me toca profundamente a sua devoção, dona Suzana.

SUZANA (leva um susto) –  Cruzes! Me desculpe, vossa graça, mas mais uma dessa e eu infarto.

DUQUE DE MONTEVERDE – Perdoe-me. Eu devia ter anunciado a minha chegada.

SUZANA – Onde está o senhor meu marido?

DUQUE DE MONTEVERDE – Não sei. Tinha umas coisas para resolver na mina. Deixei ele lá.

O duque vai se aproximando da mulher, olhando-a com desejo.

SUZANA – E veio rezar? Nunca vi vosmecê na capela ou na companhia de padres.

DUQUE DE MONTEVERDE – De fato… O clero não me atrai muito.

SUZANA (assustada) – No que posso ajudá-lo, Sua Graça?

O Duque puxa Suzana para junto de seu corpo, prendendo-a.

DUQUE DE MONTEVERDE – Sei que há tempos não recebe os toques de um homem.

SUZANA (tentando fugir) – O senhor está me assustando.

DUQUE DE MONTEVERDE (beijando o pescoço da mulher) – Vosmecê não sente nada por mim? Posso torná-la uma baronesa de verdade. Ou até mais que isso: posso fazer de vosmecê uma duquesa.

SUZANA (tenta empurrar o duque, sem sucesso) – Me solte, o senhor está me machucando!

Mirmila entra na capela de repente, segurando um prato de louça fina, dá um grito agudo e deixa o prato cair no chão, fazendo-o partir em vários pedaços. O Duque se assusta e se afasta de Suzana, olhando fixamente para a escrava.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 9

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8 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 09

  1. Esse duque está se mostrando um belo de um diabo. Agarrou a Suzana, e Mirmila, outra vítima desse homem, flagrou tudo. Ótimo gancho.

    Parabéns, Leonel 😀

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