Serra Dourada – Capítulo 10

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Ao perceber a presença da escrava, o Duque larga Suzana e sai da capela, não sem antes fuzilar Mirmila com o olhar.

SUZANA – Mirmila… O que você viu aqui nunca aconteceu. Estamos entendidas

MIRMILA (catando os cacos) – Sim, sinhá. Pode ficar tranquila.

SUZANA – Agora limpe tudo isso e volte para os seus afazeres.

MIRMILA – Sim, sinhá.

Suzana passa pela escrava sem agradecê-la.

CORTA.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Após o choque, Suzana entra na sala e vê a filha ensaiando uma música diferente daquelas que tocava na igreja.

SUZANA – O que significa isso, dona Iolanda?

iolanda – Dona Suzana, a menina queria tocar uma música diferente, então apresentei a ela o quebra-nozes.

SUZANA – Conheço essa história. E ela não é para moças de família.

MARICOTA – Mamãe, não tem nada demais. A dona Iolanda me contou a história e é muito bonita.

SUZANA – É herege, isso sim! Dona Iolanda, estou muito desapontada com a senhora. Eu e meu marido pagamos seu ordenado para vosmecê ensinar minha filha a ser uma boa pianista.

MARICOTA – Mas é isso que ela está fazendo, mamãe!

SUZANA – Quieta, menina. Vá para o seu quarto.

Maricota abre a boca para argumentar, mas não o faz. Apenas levanta-se do piano e vai para o quarto.

SUZANA – Quanto a senhora, dona Iolanda, está demitida.

Neste momento o Barão entra na sala.

BARÃO – E o que foi que a dona Iolanda fez para ser demitida, Suzana?

SUZANA – Braz! Acredita que ela está ensinando músicas depravadas para a nossa filha?

IOLANDA – Depravadas?! Eu só ensinei o quebra-nozes.

SUZANA – Eu pago a senhora para ensinar músicas religiosas. Eu pensei que tivesse sido clara. A senhora como uma carola deveria saber todas essas músicas de cor.

BARÃO – Suzana, menos.

SUZANA – Menos nada! Eu devia saber que não podia confiar em uma solteirona.

IOLANDA – Pois agora eu estou ofendida! Antes ser uma solteirona do que ser uma falsa moralista como a senhora. Passar bem, dona Suzana, e que a senhora jamais conquiste o título de baronesa, porque a senhora não merece ser nobre. É baixa demais para pertencer a corte.

Iolanda passa pelo Barão cumprimentando-o com a cabeça e sai do casarão.

corta.

cena 3 – casa dos caiado. interior. dia.

Enquanto Mirmila arrumava a cozinha, o duque de Monteverde aparece de repente, assustando a escrava.

MIRMILA – Se o senhor ousar fazer alguma coisa eu grito!

DUQUE DE MONTEVERDE – Fazer o quê? Só vim te dar um presente.

MIRMILA (desconfiada) – Presente?

O duque apresenta para a escrava um colar feito com os cacos do prato que ela havia quebrado dentro da capela.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê vai usar este colar durante um tempo, para aprender a não quebrar as coisas da casa do seu senhor.

MIRMILA – O senhor não manda nesta casa.

DUQUE DE MONTEVERDE – Insolente! Vosmecê está certa disso? Pergunte ao Barão. Eu sou o novo dono desta casa, escrava. Vosmecê me pertence agora. Se não colocar o colar vai ser pior para vosmecê.

Mirmila fica em silêncio, vira as costas e deixa que o duque coloque o colar na escrava. Ela sente os cacos de vidro arranharem sua pele suavemente e se segura para não chorar.

DUQUE DE MONTEVERDE – Isso é para vosmecê aprender a respeitar seu senhor. Eu sempre consigo o que eu quero, entendeu?

Ao dizer essa frase, o duque aperta a bunda da escrava, que se vira para ele, mas sente o pescoço arder. As lágrimas escorrem em silêncio e o duque abre um sorriso vitorioso.

corta.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Suzana e o Barão conversam no quarto sobre a intevenção do duque aos negócios e ao poder do Barão.

SUZANA – Eu estou arrasada, Braz. Como vosmecê deixou as coisas chegarem a esse ponto.

BARÃO – Mas eu não contrabandiei ouro nenhum! Nossas contas estão em dias!

SUZANA – É mesmo? E os escravos, será que não?

BARÃO – Confio no Benedito. Meu pai confiava nele.

SUZANA – Ele é um escravo decrépito, Braz. Perdemos a casa, perdemos o respeito, perdemos tudo!

BARÃO – Eu achei uma saída para tudo isso.

SUZANA – Achou? Qual?

BARÃO – Maria Teresa.

SUZANA – O que tem nossa filha?

BARÃO – Se ela se casar com o duque…

SUZANA – NUNCA! Eu não vou entregar minha filha para aquele homem desprezível. Pode esquecer.

BARÃO – É isso ou viver na rua da amargura. Suzana, pense bem. Eu fiz mal a muitas pessoas aqui… Ninguém vai dar asilo para nenhum de nós.

SUZANA – O Imperador está vindo aí. Até segunda ordem nós ainda mandamos nessa cidade. Não vamos dar mais poder a esse duque do que ele acha que tem.

BARÃO – Nós não temos muitas alternativas, Suzana.

A mulher respira fundo, contrariada.

CORTA.

cena 5 – catedral. interior. dia.

O bispo ainda tentava processar o que havia acontecido na Serra Dourada.

DOM EUGÊNIO – Viu onde vosmecê nos meteu, Paulo?

FREI PAULO – Perdão, eminência. Eu nunca imaginei…

DOM EUGÊNIO – Fomos ameaçados por um escravo, como eu previa. Essa gente não tem alma, não tem coração e muito menos temor a Deus!

FREI PAULO – O que nós vamos fazer?

DOM EUGÊNIO – Não sei… Eu preciso pensar. Não podemos acobertar o roubo de ouro dos escravos.

frei paulo – Nem se uma parte desse ouro for para a nossa paróquia, eminência?

DOM EUGÊNIO (malicioso) – Ainda bem que a ganância não é um pecado capital, frei, ou estaríamos perdidos.

corta.

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Mirmila entra no quarto de Maricota com o vestido reformado, disfarçando os machucados no pescoço causados pelo colar do duque.

MIRMILA – Aqui o vestido, sinhá.

MARICOTA (sorriso forçado) – Obrigada Mila, só vosmecê para me animar hoje.

Mirmila tenta sorrir, mas não consegue. Maricota percebe.

MARICOTA – Aconteceu alguma coisa, Mila?

MIRMILA – Não, sinhá. Imagina.

MARICOTA – Tem certeza? Estou achando vosmecê triste. Venha, sente aqui.

MIRMILA (nervosa) – Não precisa sinhazinha. Só vim deixar o vestido…

MARICOTA – Claro que precisa, venha cá.

Maricota puxa a escrava para sentar-se na cama ao seu lado e ao fazer isso percebe o colar e as feridas no pescoço de Mirmila.

MARICOTA (chocada) – O que é isso em vosmecê? Quem fez isso?

MIRMILA – Isso não é nada, sinhazinha. Não é nada. Vosmecê gostou mesmo do vestido?

MARICOTA – Mas seu pescoço está todo machucado! Foi minha mãe quem fez isso com vosmecê? Hoje ela está terrível. Mas não vou permitir que ela faça uma atrocidade dessas com vosmecê!

MIRMILA – Não! Não foi a sinhá Suzana não.

MARICOTA – Então quem foi? Vamos. Pode confiar em mim.

MIRMILA (quase chorando) – Foi o duque, sinhazinha.

MARICOTA – Mas é um absurdo! Desde que esse duque chegou aqui as coisas ficaram desorientadas! Venha, vamos falar com meu pai agora mesmo.

MIRMILA – Sinhá, não precisa…

MARICOTA – Vamos, Mila.

Maricota sai puxando a escrava pelo corredor até a porta do quarto dos pais.

CENA 8 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Maricota entra no quarto dos pais sem bater, puxando a escrava pelo braço. Suzana e o Barão se assustam.

SUZANA – Mas que invasão é essa?

MARICOTA – Papai, veja isso.

Maricota mostra o pescoço da escrava todo marcado, com ela ainda usando o colar com os cacos da louça.

BARÃO (assustado) – Mas o que significa isso? Suzana, vosmecê fez isso com a pobre coitada?

SUZANA – Eu? Me surpreende que vosmecê descofie de mim, Braz! Me ofende agindo desse jeito!

MARICOTA – Não foi ela, papai. Diga, Mila. Diga a eles quem fez isso com vosmecê.

MIRMILA – Sinhazinha, não, não quero problemas…

MARICOTA – Se não falar, falo eu!

MIRMILA (nervosa) – Foi o duque. Ele disse que agora é o dono dessa casa, que manda em tudo e em todos, inclusive nos escravos. Eu não sabia o que fazer. Me perdoem por favor.

MARICOTA – Viram só? O senhor vai acabar com esse duque, não vai papai? Esse homem está passando dos limites! Quem ele acha que é? O próprio Imperador?

Suzana e o Barão se olham em silêncio, aflitos.

corta.

CENA 9 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Félix retorna à beira do rio em busca de seu chapéu. Rapidamente avista o objeto por entre algumas pedras e arbustos. Ele se aproxima, em silêncio, mas percebe a presença de mais duas pessoas. Dois negros conversavam com um enorme papel em mãos. Félix se esconde e observa a cena.

benedito – Convenci o bispo a nos ajudar, André. Em breve eu, vosmecê e todos os nossos irmãos seremos livres.

ANDRÉ – Até agora num entendi, Dito. Como ocê acha que uma igreja vai ajudá nóis? Nóis vai continuá sendo escravo do mesmo jeito.

BENEDITO – Só homens livres podem frequentar igrejas. Se o Imperador autorizar a construção da nossa igreja, isso vai significar que seremos livres também!

ANDRÉ – Num tô confiano muito nesse seu plano não, Dito, ocê me desculpa.

BENEDITO – Tudo nessa vida tem um preço, André. A nossa liberdade também tem! E hoje em dia nós temos ouro o suficiente para comprar a liberdade de todos os irmãos que trabalham lá na mina. Inclusive a minha, a de vosmecê e a da Mirmila. Agora chega de conversa! Vamos, esconda esse mapa.

André esconde o mapa embaixo das pedras. Ele e Benedito olham para os lados e não avistam ninguém. Assim que se afastam, Félix Bulhões caminha até as pedras, tira elas com todo o cuidado e observa o mapa na sua frente.

FÉLIX – (olhando o mapa) Então quer dizer que a Serra Dourada esconde mesmo um tesouro? Essa eu quero ver.

Close na expressão de Félix.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 10

Anúncios

7 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 10

  1. Chocado com o duque. Apenasmente isso.

    Me sinto meio mal porque eu não tô conseguindo pôr Serra Dourada em dia. Isso acaba gerando um comentário bem pequeno de minha parte em comparação aos que eu faço em Descobertas e Segredos da Paixão, pois não tenho muito a comentar. Mas vamo tentando, né non?

    Curtir

  2. Esse duque me dá nojo, que homem desprezível. Eu acho interessante que a Maricota se impõe mais quando é pra defender a Mirmila do que pra defender a si própria. Será que Félix vai querer uma parte do ouro dos escravos?

    Parabéns, Leonel.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s