Serra Dourada – Capítulo 11

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. DIA.

Félix entra correndo em sua casa. Leopoldo se assusta.

LEOPOLDO – Demorou, hein? Vosmecê devia estar mesmo com muito calor.

FÉLIX – Irmão, descobri uma coisa que vosmecê vai adorar saber.

LEOPOLDO – Pois então diga!

FÉLIX – Existe um mapa, próximo ao rio, que parece que leva a algum tesouro.

LEOPOLDO – Que brincadeira é essa? Sua namorada anda lendo muitos romances.

FÉLIX – Não é nada disso, Leopoldo. Veja isso.

Félix tira o mapa do bolso e abre ele na mesa de trabalho.

LEOPOLDO (olhando o mapa) – Mas quem será que fez isso?

FÉLIX – Foram os escravos do Barão! Eu vi dois deles conversando a respeito.

LEOPOLDO – E o que eles disseram?

FÉLIX – Não deu pra ouvir direito porque eu estava longe, mas havia algo como… Conquistar a liberdade. Algo assim.

LEOPOLDO – Ótimo. Temos que seguir esse mapa pra ver aonde ele irá nos levar.

FÉLIX – Vamos escondê-lo aqui. Não podemos falar dele pra ninguém.

LEOPOLDO – Certo. Vamos dar um tempo… E aí a gente sobe na Serra em busca desse tal tesouro.

Os irmãos escondem o mapa numa gaveta com fundo falso.

CORTA.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

BARÃO – Infelizmente, minha filha, o duque não mentiu quando disse que tudo isso aqui pertence a ele.

MARICOTA (chocada) – O quê? Como assim papai?

suzana – Seu pai perdeu tudo, filha. Foi incompetente o suficiente para perder tudo.

MARICOTA – Mas, como isso é possível meu pai? Ninguém perde um patrimônio desses da noite para o dia. Foram dívidas?

BARÃO – Não, não. É que existe um processo contra mim ao qual eu só tive conhecimento hoje. A Coroa está me acusando de contrabando de ouro.

MARICOTA – O que? O senhor anda roubando ouro? E dando pra quem papai?

BARÃO – Eu sou inocente, Maria Teresa! Nunca roubei um tostão dessa gente. Muito pelo contrário: tudo o que eu faço é visando o bem das pessoas.

MARICOTA – Mas então nós temos que provar que o senhor é inocente.

BARÃO – Pra dizer a verdade, eu já tinha percebido que a produção de ouro estava caindo, mas imaginei que fosse uma reação natural. Tantas vilas por aí tiveram sua produção interrompida e os governantes de lá nem por isso foram presos ou perderam suas posses.

SUZANA – Sabe qual é o problema do seu pai, Maria Teresa? E vosmecê puxou isso dele, aliás: confiar demais nos escravos.

MARICOTA – E agora papai? Como vamos recuperar as coisas?

BARÃO – Eu ainda não sei, minha filha. Mas eu e sua mãe estamos buscando algumas alternativas. O Imperador é a nossa última esperança.

CORTa.

CENA 3 – RUAS DE GOYAZ. EXTERIOR. DIA.

Frei Paulo caminha encapuzado pela cidade enquanto procura algo. Entra nos becos e vielas em busca de Benedito, até que o observa conversando com outros escravos. Se esconde atrás de um poste e tenta chamá-lo com as mãos. Meio atrapalhado, consegue chamar a atenção do escravo.

BENEDITO – O que é, Frei? Está dando muita bandeira.

frei paulo – O bispo quer falar com vosmecê.

BENEDITO – Pois então vamos até o bispo!

FREI PAULO – Não. Ele pediu um encontro na serra…

BENEDITO (assustado) – Fale baixo, Frei! Diga ao bispo que irei ao por do sol.

FREI PAULO – Direi. Obrigado.

O Frei volta a caminhar pela cidade, disfarçado, enquanto recebe o olhar curioso de moradores.

OLINDA – Oh, pobre coitado. Deve estar atrás de um prato de comida.

IOLANDA – Pois quue vá a Igreja. Lá é o lugar para mendigos.

CORTA.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Maricota e Mirmila conversam no quarto enquanto a garota ameniza as feridas da escrava.

MARICOTA – Eu sinto muito, Mila. Não acredito que papai não pode fazer nada.

MIRMILA – Não se preocupe, sinhazinha. Eu sou uma escrava, estou acostumada a passar por essas coisas.

MARICOTA – Tudo bem que a minha mãe já lhe fez algumas coisas, mas nunca algo de tamanha crueldade.

MIRMILA – Isso é verdade, sinhazinha. Perto desse tal duque, vossa mãe é uma santa. (pausa) Me perdoe.

MARICOTA – Isso não vai ficar assim. Eu vou achar uma solução para tudo isso.

MIRMILA – Pra quê, Sinhá? Olha… Acho que o melhor a fazer é mesmo se mudar para a corte.

MARICOTA – E ser freira? Jamais! Aliás, apesar de tudo isso existe um ponto positivo: meu amor por Félix só aumenta. Como pode existir homem tão perfeito?

MIRMILA – Eu fico muito feliz pela sinhazinha! Quem sabe um dia vosmecê não se casa e me leva?

MARICOTA – Vosmecê vai estar sempre comigo, Mila.

As duas se abraçam.

CORTA.

CENA 5 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

BARÃO – Vosmecê ouviu a menina, Suzana. Se conversar direitinho com ela, tenho certeza que ela não vai se negar.

Suzana – Esqueça disso, Braz. Eu não vou envolver nossa filha nisso.

Barão – Mas ela já está envolvida! Viu como a pobrezinha ficou por causa da escrava. Ela não é mais nenhuma criança! Já está em época de se casar.

SUZANA – Para vosmecê é muito fácil usar nossa filha como moeda de troca para corrigir os seus erros.

BARÃO – Eu não cometi nenhum erro! Estou sendo acusado injustamente.

SUZANA – É difícil provar que focinho de porco não é tomada, Braz. A nossa filha não vai ficar nas mãos daquele crápula.

BARÃO – Nem pelo seu tão amado título de baronesa? Vosmecê me enche o saco há mais de vinte anos por causa desse título.

SUZANA (ofendida) – Nem pelo título de imperatriz.

A mulher sai do quarto furiosa.

CORTA.

CENA 6 – PASSAGEM DE TEMPO.

A tarde cai em Goyaz. A câmera sobrevoa a Serra Dourada.

CENA 7 – SERRA DOURADA. EXTERIOR. FIM DO DIA.

Leopoldo e Félix seguem a trilha orientados pelo mapa. Caminham em direção à gruta onde estava escondido o ouro. Eles ficam boquiabertos ao descobrir o segredo.

FÉLIX – Irmão… Estamos ricos!

LEOPOLDO – Não seja ingênuo, Félix.

Leopoldo se aproxima da pilha de ouro e mexe um pouco nas barras empilhadas. Ele percebe o carimbo da corte.

LEOPOLDO – Não podemos mexer nesse ouro.

FÉLIX – E por que não? Se pegarmos uma ou duas barras ninguém vai notar. Tem ouro pra se construir um palácio aqui.

LEOPOLDO – Vosmecê acha mesmo que quem tem todo esse ouro não vai notar a falta de um grão? Não seja ingênuo, Félix. E tem mais uma coisa…

FÉLIX – O que?

LEOPOLDO – Esse ouro pertence à coroa. E vosmecê sabe o que isso significa?

FÉLIX – Que alguém está roubando a coroa?

LEOPOLDO – Exatamente! E nós vamos descobrir quem é. Embora eu tenha meu palpite…

FÉLIX – Como assim?

LEOPOLDO – O mapa não estava na propriedade do Barão? Vai ser muito fácil denunciá-lo. Isso vai arruinar para sempre aquele maldito.

Nesse momento, os irmãos percebem a aproximação de alguém. Assustados, eles correm para atrás da gruta, escondidos atrás de um grande cajazeiro eles observam a chegada dos homens.

cena 8 – serra dourada. exterior. fim do dia.

Da carruagem do Barão desce o cocheiro e escravo, Benedito, acompanhado do Bispo e do frei Paulo.

BENEDITO – Vosmecê queria falar comigo, eminência?

DOM EUGÊNIO – Sim, Benedito. Queria sim.

BENEDITO – Sou todo ouvidos.

DOM EUGÊNIO – Posso interceder por vosmecês para a construção da igreja. Posso inclusive destacar o frei Paulo para presidir esta nova paróquia.

FREI PAULO (surpreso) – Já vai transformar ela em paróquia, eminência?

DOM EUGÊNIO – Calado que eu estou falando com o Benedito.

BENEDITO – E o que é preciso para que isso aconteça, eminência?

DOM EUGÊNIO – Bom… Digamos que uma ação dessas não custa barato. Tenho que formalizar a criação da paróquia e enviar para Roma. Tudo isso custa dinheiro.

BENEDITO – Quanto?

DOM EUGÊNIO – Ora, meu filho, essas coisas precisam vir do coração. São doações ao Senhor Deus.

Benedito entra na gruta enquanto o bispo e o frei Paulo se olham. Pouco tempo passa e o escravo volta com cinco barras de ouro, carregando-as sem nenhuma dificuldade.

BENEDITO – O senhor acha que isso cobre os custos?

DOM EUGÊNIO (surpreso) – Acredito que sim, meu filho.

BENEDITO – Pois então é de vosmecês.

Benedito arremessa o ouro. Frei Paulo corre para aparar as barras e consegue, com alguma dificuldade, carregá-las até a carruagem.

DOM EUGÊNIO – Vamos manter isso em segredo, sim?

BENEDITO – Ganância não é um pecado, é?

DOM EUGÊNIO – E quem está sendo ganancioso? Vosmecê me pediu uma orientação e eu lhe dei. Só isso.

Benedito sorri de maneira convincente. Os homens entram na carruagem. Leopoldo e Félix veem tudo. Close na expressão dos dois irmãos.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 11

Anúncios

18 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 11

  1. Tô precisando ler os capítulos 8, 9 e 10, pois ainda não li. Mas por agora, deixo a minha contribuição na audiência. Parabéns pela web, Leonel. Em breve vem mais um comentário específico.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Félix e Leopoldo dando uma de Xeroque Rolmes e Uótson. Leopoldo tem um trunfo contra o barão nas mãos, e com certeza não vai hesitar em usá-lo. De quebra, ainda tem como prejudicar o bispo.

    Curtir

  3. Félix e seu irmão estão prestes a estragar os planos de Benedito e seus escravos. Esconder o mapa próximo ao rio não foi uma boa idéia.

    O Barão é quem está sendo acusado por roubar o ouro da serra. Vamos ver a solução que esse senhor vai encontrar para tirar seu dedo dessa.

    Parabéns, Leonel! 😀

    Curtido por 1 pessoa

  4. Chegamos na metade da web e a trama segue a passos lentos… O romance entre Felix e Maricota continua morno, e a chega de D. Pedro segue sendo muito aguardada por mim. Enquanto isso, Felix e Leopoldo descobrem o tesouro dos escravos, e Leopoldo pensa usar isso contra o Barão. Veremos no que isso vai dar.

    Parabéns, Leonel.

    Curtir

    • Dom Pedro chega em breve. Essa semana teremos mais acontecimentos envolvendo Maricota e Félix.
      Obrigado pela sua presença! rs

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s