Serra Dourada – Capítulo 13

CENA 1 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

Félix continuava assustado com a descoberta do Duque.

DUQUE DE MONTEVERDE – Tenho certeza que o Barão não vai gostar nada de saber que vosmecê é o cavaleiro andante da filha dele.

FÉLIX – Na-não é nada disso, vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Ah, não? Vosmecê acha que eu sou idiota? O bilhete é muito claro, meu rapaz, e eu vou precisar de um bom motivo para não levar essa informação ao Barão.

Neste momento, o Duque de Monteverde saca uma arma e aponta para o rapaz.

DUQUE DE MONTEVERDE – Sabe o que eu acho? O Barão vai me agradecer se eu der mesmo um fim em vosmecê.

FÉLIX – E-eu tenho um bom motivo! Calma vossa graça! Abaixe essa arma e vamos conversar como dois cavalheiros civilizados…

DUQUE DE MONTEVERDE – Veja só que vergonha. Um homem do seu tamanho se tremendo todo de medo. A pobre coitada da filha do Barão não merece uma galinha como vosmecê.

FÉLIX – Eu sei de um mapa! Um mapa que pode levar o senhor a uma mina de ouro!

DUQUE DE MONTEVERDE (encosta a arma no peito do rapaz) – Um mapa? Como assim um mapa?

FÉLIX – É um mapa que eu encontrei aqui mesmo, nestas terras. E é por isso que eu estava vindo aqui. Não tem nada a ver com a filha do Barão.

DUQUE DE MONTEVERDE – E onde está esse mapa?

FÉLIX – Está comigo, lá no jornal, levo para o senhor se me deixar ir.

DUQUE DE MONTEVERDE – Se vosmecê tentar fugir, seu irmão vai sofrer as consequências. Eu ponho fogo naquele seu jornaleco. Com o seu irmão dentro!

FÉLIX – Não! Eu não vou fugir! Prometo que levo para o senhor lá na sede do governo.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não. Eu vou encontrar-me com vosmecê. Ao cair da tarde, em sua casa. Esteja com o mapa em mãos.

A câmera focaliza a expressão duvidosa do duque, depois corta para um plano do casarão dos Caiado. Ouve-se o barulho de um tiro.

CORTA.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

Todos se assustam com o barulho do tiro vindo do riacho. O Barão se levanta rapidamente da mesa de jantar enquanto Maricota leva a mão ao peito, aflita.

MARICOTA – O que será que está acontecendo?

SUZANA – No mínimo algum invasor na terra de seu pai. (pausa) Ou devo dizer nas terras do duque?

MARICOTA – Não é hora para brincadeiras, mamãe! Estou preocupada.

SUZANA – Não há motivos, minha filha. Tome seu café. Por que essa aflição toda

MARICOTA (se levanta) – Perdi a fome. É que eu sempre vou me banhar lá… Imagina, mamãe, se numa dessas eu estou no riacho?

SUZANA – É por essas e outras que vosmecê sempre vai acompanhada aos seus banhos. Deixe estar, Maricota, não há de ser nada.

Maricota sai da sala de jantar, deixando a mãe falando sozinha.

CORTA.

CENA 3 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

O Barão desce rapidamente com sua arma em punho para próximo do leito do rio. Lá encontra apenas o Duque de Monteverde apreciando a paisagem.

BARÃO – Duque! De onde veio o tiro? Vosmecê ouviu?

DUQUE DE MONTEVERDE – Não só ouvi, meu caro, como eu mesmo o disparei.

BARÃO – E contra quem?

DUQUE DE MONTEVERDE – Ora, eu fazia muitas caçadas na corte. Como não existem animais importantes aqui… Quis matar uns passarinhos.

BARÃO – Matar passarinhos na base da bala? Vosmecê só pode estar brincando.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não sei se o senhor se lembra, Barão, mas esta agora é a minha propriedade. Se eu quiser dar centenas de tiros pra cima, eu o farei.

BARÃO – E provavelmente vai assustar todos os bichos que vivem aqui perto. Não é muito inteligente, sua graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – A vida por aqui é muito monótona. Estou aqui para me divertir.

BARÃO – Quem sabe um casamento não o animaria…

DUQUE DE MONTEVERDE – Casamento? Não acho que por aqui existam moças interessantes ou que se aproximem do que eu procuro.

BARÃO – Talvez eu conheça uma…

Close no olhar confuso do duque.

corta.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. DIA.

No quarto, Maricota estava aflita.

MIRMILA – Calma, sinhá! Às vezes não aconteceu nada.

MARICOTA – Como calma? Vosmecê ouviu. Todos ouviram. O tiro foi aqui perto, no riacho. E se foi ele, Mila?

MIRMILA – Vosso pai já foi olhar, menina. Tente rezar e pedir proteção.

MARICOTA – Se o que eu acho que aconteceu já aconteceu, rezar não vai adiantar. Exceto, claro, para que Deus tenha a alma do meu amado em bom lugar.

MIRMILA – Não diga besteiras sinhazinha! Ele avisou a vosmecê que viria

MARICOTA – Nós nunca nos comunicamos por cartas. É muito perigoso. Eu nunca sei quando ele vem…

MIRMILA – Tente pensar positivo!

MARICOTA – Já sei o que eu vou fazer. Vou até o riacho.

MIRMILA – O que?! Vosmecê enlouqueceu? Vosso pai nunca vai permitir.

MARICOTA – Vou usar a desculpa de que estava preocupada com ele.

MIRMILA – Sinhazinha, isso não vai dar certo.

Mas Maricota já não ouviu a escrava. Ela já havia saído do quarto em direção ao riacho.

CENA 5 – RIACHO. EXTERIOR. DIA.

DUQUE DE MONTEVERDE – Então vosmecê quer mesmo que eu acredite nisso? Sua filha nunca se interessou por mim.

BARÃO – Entenda, vossa graça, eu me preocupo com o futuro de minha filha. E que homem mais gabaritado para desposá-la se não o senhor?

DUQUE DE MONTEVERDE – A última informação que tive era de que a sua filha iria para um convento. Pelo menos esse era o desejo de sua esposa.

BARÃO – Que eu jamais aceitaria! Maria Teresa é filha única. Eu não ia permitir que a minha única filha fosse freira.

DUQUE DE MONTEVERDE – Então o senhor está convencido de que ela deve se casar comigo?

BARÃO – Certamente. Nessa região até existem rapazes de boas famílias, mas o senhor é um duque!

DUQUE DE MONTEVERDE – Está visando apenas o meu título?

BARÃO – Um futuro confortável para a minha filha quando eu não mais estiver aqui.

O duque sorri, sem se convencer. Maria Teresa vem correndo em direção ao leito do rio.

MARICOTA – Papai, estava preocupada! O senhor não voltou para casa! Pensei que o pior tinha acontecido. De onde veio o tiro?

BARÃO – Ora minha querida, foi apenas o Duque caçando alguns animais.

MARICOTA – Mas não se caça com armas por aqui. Aliás, eu nem sei se há caçadas nessa região…

DUQUE DE MONTEVERDE – Hábitos da corte, minha querida.

MARICOTA – Pois bem. Agora que vi que o senhor está em segurança fico mais tranquila.

A moça dá um beijo no rosto do pai e segue o caminho de volta em direção ao casarão.

corta.

cena 6 – jornal o democrata. interior. dia.

Félix entra correndo na redação do jornal e encontra o irmão acordado com uma compressa de gelo na cabeça.

LEOPOLDO – Bom dia, irmão. Por onde andou?

FÉLIX (nervoso) – Não tenho tempo para conversas agora, Leopoldo. Onde está o mapa?

LEOPOLDO – Devidamente escondido num lugar seguro. O que vosmecê quer com ele?

FÉLIX – Preciso mostrá-lo a uma pessoa.

LEOPOLDO – Que pessoa?

FÉLIX – Ao duque, senão ele me mata.

LEOPOLDO (preocupado) – O que vosmecê andou aprontando enquanto eu dormia?

FÉLIX – Eu fui até o riacho me encontrar com a Maria Teresa e ele estava lá. Apontou arma pra mim e tudo.

LEOPOLDO – Bem feito. Quem mandou vosmecê namorar a filha daquele crápula.

FÉLIX – Vosmecê não entende? Eu preciso do mapa.

LEOPOLDO – Eu não vou entregar o mapa para vosmecê. Ele é muito valioso para cair em mãos erradas.

FÉLIX – Prefere me ver virar presunto? Não seja idiota, Leopoldo. Eu não vou entregar o mapa verdadeiro.

LEOPOLDO – E quem vai adulterar o mapa?

FÉLIX – A dona Olinda não é desenhista? Ela pode muito bem me ajudar nisso. Vamos lá, Leopoldo, me entregue esse mapa. É uma questão de vida ou morte.

LEOPOLDO – Só se vosmecê prometer que vai me ajudar com o artigo que estou escrevendo contra o barão. E que vai deixar de protegê-lo.

FÉLIX – Aproveite e inclua o duque nesse artigo. Se for assim terei o maior prazer de escrevê-lo.

Leopoldo sorri, abre uma gaveta com fundo falso e entrega o mapa ao irmão.

LEOPOLDO – Se vosmecê perder esse mapa, eu mesmo te mato.

FÉLIX – Obrigado irmão, não se preocupe!

Félix olha para o mapa e seus olhos brilham.

corta.

CENA 7 – SOBRADO DAS IRMÃS CAJAZEIRAS. INTERIOR. DIA.

Olinda ouve batidas aflitas na porta. Caminha até ela e a abre.

OLINDA – Pois não?

FÉLIX – Dona Olinda, preciso muito de um favor.

OLINDA – Ora, se não é o menino Bulhões. Entre meu filho.

FÉLIX – A senhora é desenhista, não é dona Olinda?

OLINDA – Oh, sim, mas há anos eu não desenho nada meu rapaz…

FÉLIX – Será que a senhora pode replicar um mapa?

OLINDA – Um mapa? Que mapa?

FÉLIX – Este.

Félix tira o mapa do bolso e mostra para a idosa que, curiosa, logo percebe.

OLINDA – É um mapa que leva até a Serra Dourada…

FÉLIX – Sim, mas a senhora vai mudar esse trajeto. Leve-o para… o caminho da estrada real.

OLINDA – E posso saber por que o menino quer isso? De quem é esse mapa

FÉLIX (mente) – Faz parte dos preparativos de recepção do imperador. Vão soltar fogos do alto da Serra Dourada.

OLINDA (entusiasmada) – Ah, claro, se é para o Imperador eu faço sim! Mas não vai custar barato…

FÉLIX – Dou para a senhora todas as minhas economias, e um espaço fixo no jornal para a senhora, se quiser.

OLINDA – Ai que maravilha! Eu sempre quis ser famosa!

FÉLIX – Mas preciso disso até o fim do dia, dona Olinda.

OLINDA – Ora, meu Deus do céu, então preciso trabalhar rápido.

FÉLIX – Mais uma coisa: ninguém pode ficar sabendo. Lembre-se que se trata de uma surpresa para o Imperador.

OLINDA – Pode ficar tranquilo, querido, minha boca é um túmulo.

FÉLIX – Estou falando sério, dona Olinda.

OLINDA – Te dou minha palavra. Esteja aqui ao fim do dia. E por favor, me traga o dinheiro.

FÉLIX -Não se preocupe. Obrigado dona Olinda.

Félix sai da casa da idosa rapidamente. Ela olha atentamente para o mapa e vai para um cômodo afastado.

CORTA.

cena 8 – passagem de tempo.

O sol aos poucos vai diminuindo sua intensidade até quase se por aos pés da Serra Dourada. Félix caminhava dentro do jornal de um lado para o outro, enquanto Leopoldo continuava a escrever sobre o Barão.

CORTA.

CENA 9 – SOBRADO DAS IRMÃS CAJAZEIRAS. INTERIOR. FIM DO DIA.

Félix bate na porta e dona Iolanda é quem atende desta vez.

FÉLIX – Boa tarde, dona Iolanda, a dona Olinda está?

IOLANDA – Da parte de quem?

FÉLIX – Félix Bulhões. Ela ficou de fazer um serviço pra mim.

IOLANDA – Ela quer saber se vosmecê trouxe o dinheiro.

Félix tira um pequeno saco de couro do bolso e entrega para a idosa que, ali mesmo pela porta, lhe passa os dois mapas.

IOLANDA – Ela mandou dizer a vosmecê que fez o possível, mas que era difícil reconstruir o mapa.

FÉLIX – Então quer dizer que ela não conseguiu?

IOLANDA – O senhor abre depois e vê. Passar bem.

Iolanda fecha a porta abruptamente na cara de Félix, que sai irritado.

CORTA.

CENA 10 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. FIM DO DIA.

Félix volta do sobrado irritado. Põe os dois mapas sobre a mesa e percebe que a idosa reproduziu mal e porcamente o mapa verdadeiro.

LEOPOLDO – E aí, deu certo?

FÉLIX – Certo uma ova. Aquela velha me passou para trás.

LEOPOLDO – Vosmecê deu muito dinheiro a ela?

FÉLIX – Não muito, mas se tivesse ido para a igreja teria melhor serventia.

LEOPOLDO – Não se pode confiar em ninguém hoje em dia, meu irmão.

FÉLIX – Cuide da sua vida que da minha cuido eu, Leopoldo.

Neste momento ouve-se uma batida na porta.

LEOPOLDO – Acho que o Duque chegou.

FÉLIX – Então chegou a minha hora. Adeus irmão.

O rapaz pega uma pistola que estava sobre a mesa e a coloca na cintura.

LEOPOLDO – Ei! cuidado com essa arma! Quer que eu vá com vosmecê?

Félix deixa o irmão a falar sozinho e entra rapidamente na carruagem do Duque.

CORTA.

CENA 11 – CARRUAGEM. INTERIOR. DIA.

DUQUE DE MONTEVERDE – Está com o mapa?

FÉLIX – Sim vossa graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Gosto de homens que sabem fazer acordos. E onde ele nos leva?

FÉLIX – Em direção à estrada real.

DUQUE DE MONTEVERDE – Pois então é para lá que vamos.

A câmera mostra a carruagem indo em direção a estrada.

CORTA.

CENA 12 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

A família conversava na ausência do Duque.

SUZANA – Eu já falei para o seu pai que sou totalmente contra esse casamento entre você e o Duque de Monteverde. Aquele homem é… repugnante. Não é isso que eu quero para você, minha filha.

BARÃO – O que vosmecê quer para ela, Suzana? Que ela se torne freira?

SUZANA – Pelo menos assim, Braz, ela não vai ficar sujeita ao insaciável paladar dos homens pelas mulheres.

MARICOTA – (interrompe) Parem de brigar! Eu disse que ia pensar sobre o casamento, não disse?

SUZANA – Por que pensar? Vosmecê não tem nenhum pretendente. Ou se casa com o duque ou vai para a corte servir a Deus.

Nesse momento, a jovem donzela respira profundamente.

MARICOTA – Em todo caso, eu já pensei. Mamãe… Papai… Eu estou apaixonada. E não vou me casar com o Duque.

Suzana e o Barão ficam completamente surpresos.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 13

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15 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 13

  1. Félix está a um passo de se ferrar com o Barão. Essa história de mostrar o mapa ao Duque não é uma boa idéia. Prevejo novos rolos vindo por aí…

    Como assim Maricota não vai se casar com Duque? Seus pais não vão gostar de saber por quem ela realmente está apaixonada…

    Parabéns, Leonel! 😉

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