Serra Dourada – Capítulo 14

{Continuação do capítulo anterior…}

CENA 1 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

O Barão e Suzana se olham, chocados com a revelação de Maricota.

SUZANA – Apaixonada? Como assim apaixonada? Por quem?

BARÃO – É um rapaz de boa família, pelo menos?

SUZANA (furiosa) – Não interessa, Braz! Ela não vai se casar com ninguém desta terra!

Suzana se levanta rapidamente e sai puxando a filha pelo braço.

maricota (sendo arrastada) – Ai, mamãe! A senhora está me machucando! Papai, me ajude!

SUZANA – Vosmecê e eu vamos ter uma séria conversa, Maria Teresa. Vosmecê vai me contar quem é esse rapaz, onde o conheceu e tudo o que eu quiser saber, está bem?

O Barão vai atrás da esposa e da filha em vão. Suzana fecha a porta do quarto na cara do Barão.

BARÃO (batendo na porta) – Suzana! Me deixe entrar! Eu exijo!

SUZANA – Vosmecê não gosta de usar a autoridade de pai? Pois agora eu vou usar a autoridade de mãe. Eu sou a responsável pela criação da nossa filha, Braz!

Mesmo preocupado, o Barão respira fundo, concordando. Ele se afasta da porta, mas fica no corredor.

CORTA.

CENA 2 – ESTRADA REAL. EXTERIOR. NOITE.

A carruagem do Duque estaciona e os dois saltam.

DUQUE DE MONTEVERDE – Tem certeza que é aqui?

FÉLIX – Não ouve o barulho do rio?

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas me disseram que não havia mais ouro por aqui. Não nos rios.

FÉLIX – As pessoas mentem com muita facilidade, sua graça.

DUQUE DE MONTEVERDE – Então vamos. Deixe de enrolação. Me dê o mapa.

Félix entrega o mapa adulterado para o duque. Ele olha fixamente para a imagem e sorri, sarcástico.

DUQUE DE MONTEVERDE – Vosmecê deve achar que eu sou muito idiota pra acreditar num mapa tão mal feito…

Os dois sacam as armas ao mesmo tempo e apontam um para o outro.

FÉLIX – Abaixe essa arma, duque. Eu não quero atirar no senhor.

DUQUE DE MONTEVERDE – Não quer atirar em mim? Mas eu quero atirar em vosmecê.

FÉLIX – Eu não lhe fiz nada…

DUQUE DE MONTEVERDE – Eu sei que vosmecê está interessado na filha do Barão. Isso já é motivo suficiente pra lhe ver debaixo de sete palmos de terra.

FÉLIX – Mas por que? O senhor não é pai dela! Nem parente o senhor é!

DUQUE DE MONTEVERDE – Mas serei o futuro marido.

Enquanto a câmera mostra a expressão impressionada de Félix e a raiva que invadia seu corpo, Leopoldo surge nas costas do duque e lhe dá uma coronhada na cabeça com um pedaço de madeira. O Duque de Monteverde cai, desacordado.

CORTA.

CENA 3 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Dentro do quarto, Maricota se encolhia na cama.

MARICOTA – A senhora vai me bater, mamãe?

SUZANA – Depende… Que história é essa de que vosmecê está apaixonada, Maria Teresa? Quem é este homem?

MARICOTA – De que interessa saber o nome dele, mamãe? A senhora não quer me ver feliz?

SUZANA – E o que vosmecê entende de felicidade? Entende de amor? Vosmecê é só uma criança.

MARICOTA – Eu não sou uma criança! E eu sei que amor é… É quando a gente pensa numa pessoa o dia todo, é quando quer estar com ela o dia todo, é quando quer dormir e acordar com ela todos os dias de sua vida.

Suzana vai até a filha e a puxa para si, segurando-a com força pelos braços.

SUZANA – Vosmecê acha mesmo que isso é o amor? Pois isso só prova que vosmecê é uma criança que não sabe nada da vida.

MARICOTA – Pára, mamãe, a senhora está me machucando!

SUZANA – Machucando? O amor machuca, Maria Teresa. O amor dói, ele arde, ele fere, ele faz você sangrar por dentro.

Neste momento Maricota enfrenta a mãe, sem medo.

MARICOTA – Eu não tenho culpa da sua infelicidade! Eu não tenho culpa se a senhora escolheu viver infeliz, sozinha e amargurada! Eu não tenho culpa de ter nascido nesse inferno de família! Eu tô cansad–

Suzana dá um tapa forte na cara da filha que cai na cama, chorando.

SUZANA (altiva) – Pois então vosmecê vai conhecer a dor desse amor. Saboreie sua dor, porque é a única coisa que vosmecê vai sentir enquanto não me disser quem é este homem.

Enquanto a filha chora, Suzana sai do quarto e tranca a porta pelo lado de fora. Maricota corre e começa a esmurrar a porta, dentro do quarto.

MARICOTA (desesperada) – Me tira daqui, mamãe! Por favor! Me tira daqui!

Ela desiste, sem sucesso, e vai desfalecendo no chão, escorada na porta, aos prantos.

CORTA.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

O Barão ouve os apelos da filha. Perplexo, vai atrás da esposa.

BARÃO – Mas o que é isso, Suzana? Onde está nossa filha?

SUZANA – Está no quarto. Deixei ela sentindo a dor do tal amor.

BARÃO – Ela te disse quem é o rapaz? Vosmecê acha mesmo que isso vai funcionar?

SUZANA – Não. Mas ela vai dizer em breve

BARÃO – O que vosmecê vai fazer com a nossa filha?

Suzana não dá ouvidos ao Barão e caminha até a cozinha, onde Mirmila arrumava as coisas. O Barão vai atrás.

SUZANA – Escute aqui, escrava. A partir de hoje sua sinhazinha vai fazer as refeições sempre na hora em que eu definir. Ela está terminantemente proibida de sair do quarto, fui clara?

MIRMILA (assustada) – Si-sim sinhá Suzana.

SUZANA – Se eu suspeitar que vosmecê entrou naquele quarto para alimentá-la sem o meu consentimento, vou fazer questão eu mesma de levar vosmecê para o tronco, ouviu bem?

Mirmila apenas balança a cabeça positivamente, apavorada com Suzana. A mulher se retira para rezar e o Barão fica na cozinha, sem ter o que dizer.

BARÃO – Não se preocupe com a minha eposa, Mirmila. Ela está nervosa, só isso. Ninguém vai mandar vosmecê para o tronco.

O Barão ia se retirando…

MIRMILA – Senhor Barão…

BARÃO (se vira) – Sim?

A escrava pensa melhor e abaixa a cabeça.

MIRMILA – Obrigada por me defender.

O Barão dá as costas para a escrava e sai da cozinha, coçando a cabeça sem responder.

MIRMILA (pensativa) – Por que será que ele sempre me defende?

CORTA.

CENA 5 – RUAS DE GOYAZ. EXTERIOR. NOITE.

Leopoldo e Félix voltavam para o jornal.

FÉLIX – Fico te devendo uma, irmão.

LEOPOLDO – Não se preocupe. Só queria entender porque ele quer matar vosmecê.

FÉLIX – Eu não sei. Na verdade… Eu tenho uma suspeita.

LEOPOLDO – E do que se trata?

FÉLIX – Ele disse que ia se casar com a Maria Teresa, a filha do Barão.

LEOPOLDO – Escute, Félix, eu sei que isso pode te deixar chateado e…

FÉLIX (interrompe) – Mas é mentira dele! Maria Teresa me ama! E ela nunca ia se interessar por um ser humano como o duque.

LEOPOLDO – Sendo ela filha de quem é, meu irmão, eu não me surpreenderia…

FÉLIX – Não, Leopoldo, Maria Teresa é diferente. Ela nem parece ser filha do Barão.

LEOPOLDO – Acontece que o sangue fala mais alto, meu irmão. E vosmecê sabe que não é ela quem decide o próprio futuro. São os pais dela. Vai ver eles decidiram que, pelo bem dela, ela deveria se casar com o Duque. Ela ia virar duquesa.

FÉLIX – Ela não se importa com essa coisa de títulos e nobreza.

LEOPOLDO – Ela não… Mas os pais dela com certeza. Principalmente a mãe, que sonha em ser chamada de baronesa.

Eles entram no jornal correndo.

CORTA.

CENA 6 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Enquanto Mirmila fazia o jantar, André entra de repente na cozinha, assustando a escrava.

MIRMILA – O que vosmecê está fazendo aqui?

ANDRÉ – Uai, eu num sô o protetô da sinhazinha? Vim trabaiá.

MIRMILA – Pois saiba que a sinhá Suzana trancou a menina Maricota no quarto, coitadinha. E ela está com a chave.

ANDRÉ – Uai, por causo de quê?

MIRMILA – Não sei. Não conversei com ela ainda. Estou proibida de entrar lá fora dos horários.

ANDRÉ – E o Barão deixô que maltratassem a fia dele assim?

MIRMILA – O que vosmecê queria que ele fizesse? A sinhá é a responsável pela educação da menina, ora. Mas, vou levar esse caldo de frango aqui para ela daqui a pouco. Ela há de me dizer o que aconteceu.

ANDRÉ – Bão… Já que eu num tenho o que fazê aqui. Vô resorvê umas coisa.

MIRMILA – Coisas, que coisas?

ANDRÉ – Depois te conto. Inté.

André sai da cozinha da mesma forma que entrou. Mirmila fica sozinha.

CORTA.

cena 7 – estrada real. exterior. noite.

Um garoto negro caminhava sem compromisso pela estrada, com uma carta da corte, quando avistou um corpo estirado no chão. Ele caminha em silêncio até o homem desacordado e, ao reconhecer as vestes, sai correndo em direção à cidade.

CORTA.

CENA 8 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Enquanto Maricota chora copiosamente, ela tem um súbito momento de lucidez e corre para pegar uma caneta tinteiro e um papel.

MARICOTA – Vou escrever. Vou contar para Félix o que aconteceu e ele vai vir me salvar. Eu tenho certeza que ele virá!

Ela começa a escrever apressadamente.

CORTA.

CENA 9 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. NOITE.

Félix andava de um lado para o outro, aflito.

LEOPOLDO – Se não parar de andar vai afundar o chão.

FÉLIX – Preciso me esconder. O duque vai vir atrás de mim. Vosmecê também tem que tomar cuidado.

LEOPOLDO – É, eu sei. Quem mandou mexer com as pessoas erradas?

FÉLIX – Tenho certeza que a dona Iolanda pode me abrigar. Pelo menos essa noite.

LEOPOLDO – Vosmecê quer mesmo entrar naquela casa? Dizem que quem entra de lá nunca mais sai vivo.

Leopoldo ri e Félix fecha a cara.

FÉLIX – Não é motivo para piadas, Leopoldo! Vosmecê tem consciência da enrascada em que nós nos metemos?

LEOPOLDO – Nós? Que mané nós? Vosmecê se encanta pela filha do Barão de Anhanguera, nosso principal inimigo.

FÉLIX (interrompe) – Nosso principal inimigo, não. Seu principal inimigo.

LEOPOLDO – Inimigo do nosso pai!

FÉLIX – Pare de colocar o papai no meio disso! Deixe a alma do nosso velho descansar em paz!

LEOPOLDO – Vosmecê vai desonrá-lo dessa maneira?

FÉLIX – E desde quando ele se sentiria honrado sabendo que um de seus filhos é incapaz de sentir dentro de si outro sentimento que não seja a vingança?

LEOPOLDO – Eu cuidei de vosmecê quando era criança e é assim que me agradece?

FÉLIX – Eu também cuidaria de vosmecê, se eu fosse o mais velho. Quer que eu pague seus cuidados com sangue? Leopoldo, eu não sou assim! Estou apaixonado por Maria Teresa e vou lutar pelo meu amor.

LEOPOLDO – Lutar como? Se eu não chego a tempo vosmecê tinha virado comida de urubu. Coloque-se no seu lugar, Félix.

O irmão mais novo sobe para o quarto e começa a fazer as malas.

LEOPOLDO – Aonde vai? Não vai me deixar aqui sozinho, vai?

FÉLIX – Eu vou embora dessa casa. E eu não volto mais aqui! Obrigado por salvar minha vida. Eu no seu lugar faria o mesmo, se vosmecê estivesse em perigo. Mas eu não vou me vingar de um homem que nunca me fez nada.

LEOPOLDO – Ele matou o nosso pai! E vosmecê diz que isso não é nada

FÉLIX – Essa é a sua versão, Leopoldo. Eu nem sei se ela é verdadeira.

LEOPOLDO – Quer saber? Então vá. Vá embora. Mas vou logo avisando: vosmecê está arriscando sua vida em vão. E eu não vou mais te defender! Aliás, vosmecê está fazendo um inimigo muito poderoso.

FÉLIX – Está me ameaçando? É isso?

LEOPOLDO – Entenda como quiser. Mas só vou te dar um aviso: nem vosmecê, e nem ninguém, vai me impedir de vingar a morte do nosso pai. Esteja avisado.

Leopoldo sai do quarto do irmão e bate a porta dele. Félix continua arrumando suas coisas.

CORTA.

CENA 10 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Enquanto Mirmila arrumava a sala de jantar, um garoto surge na porta principal do casarão com cara de assustado.

MIRMILa – O que vosmecê quer, menino? Não temos comida.

menino – Carta para o senhor Barão.

Mirmila pega a carta. Nesse momento o Barão entra na sala.

BARÃO – Mas o que está acontecendo? Quem é esse garoto?

MENINO – Eu vim a mando do seu Chalaça, Barão.

BARÃO – Chalaça? Mas quem é esse?

O menino deu de ombros, sem saber. O Barão pega a carta e, antes de abrir, é interrompido pelo menino.

MENINO – Seu Barão…

BARÃO (interrompe) – Ah, claro, a gorjeta. Tudo bem, vou lhe dar uma moeda.

MENINO – É que o duque tá caído lá na estrada. Acho que ele morreu.

O Barão arregala os olhos e fica pálido. Mirmila fica boquiaberta.
O Barão sai correndo e deixa a carta com o selo da corte em cima da mesa. A câmera dá um close no envelope fechado.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 14

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6 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 14

  1. Correndo pra me atualizar, mas tá tenso. Encerei os estudos, felizmente, mas agora é vida adulta, atrás de trabalho. Enfim, espero conseguir terminar atualização no fim de semana e postar meu comentário, mas nesse momento o que eu posso dizer é que estou gostando do que já li, que escrita perfeita é essa, Leonel? Tô pasmo hein! Desde já, meus parabéns, amigo! ❤

    DIVULGAÇÃO:

    Capítulo 24 de Descobertas, com muitas reviravoltas, confiram! 😀

    https://audienciadatvmix.wordpress.com/2017/04/27/descobertas-capitulo-24/

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  2. E Suzana mostrou quem é que manda ali. Será difícil Maricota conseguir viver seu relacionamento com Félix se as coisas permanecerem assim. Uma troca de verdades entre mãe e filha… Claro que sairia um tapa.

    De cara Monteverde soube que o mapa era falso. Ele podia ter imaginado que o dono do objeto não era um bom artista, risos. Leopoldo conseguiu salvar o maninho, mas o maninho não quer ajudar o irmão na vingança contra Barão. Falando nisso, acho que ele não tem culpa do ocorrido.

    Sobre a ligação entre ele e Mirmila, juro que já tinha esquecido desse assunto. Gente…

    Se a vossa graça, vulgo Duque, não tiver morrido, Félix que se cuide. Agora eu acerto: O Imperador tá chegando.

    Parabéns, Leonel! 😉

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