Serra Dourada – Capítulo 15

{Continuação do capítulo anterior}

CENA 1 – ESTRADA REAL. EXTERIOR. NOITE.

A câmera passeia por todo o corpo do Duque de Monteverde. Ele continua desacordado e com um ferimento visível na cabeça.

CORTA.

CENA 2 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Ao perceber a movimentação esquisita, Suzana chega à sala de jantar.

suzana (curiosa) – Onde foi meu marido, escrava?

MIRMILa – Ai, Sinhá! Parece que o Duque sofreu um acidente, sei lá.

SUZANA – Um acidente? Onde?

MIRMILA – Lá na estrada. Um moleque de recados veio avisar o senhor Barão.

SUZANA -Será que foi acidente, ou alguém percebeu a laia deste homem e tentou matá-lo?

Mirmila fica em silêncio.

SUZANA – Enfim… Não importa. Deus sabe de todas as coisas. O que tiver de ser, será.

MIRMILA – Não entendi…

SUZANA – Escravos realmente não entendem o significado de Deus em suas vidas. (pausa) Estou querendo dizer que, se ele tiver que… Digamos… Partir deste mundo, será um sinal de que Deus não o queria por aqui.

MIRMILA (faz o sinal da cruz) – Deus me livre sinhá. Vira essa boca pra lá.

SUZANA – Leve um prato de sopa para Maria Teresa, sim? Aqui está chave.

Suzana retira a chave dos seios e entrega a escrava.

SUZANA – Apenas alimente-a. Não quero vosmecê de conversa com ela. Quando Maria Teresa terminar a refeição tranque novamente a porta e me entregue a chave. Ouviu bem?

MIRMILA – Sim, sinhá. Com licença, sinhá.

Mirmila se retira às pressas e Suzana sorri, vitoriosa, feliz pelo estado do Duque.

CORTA.

CENA 3 – GOYAZ. EXTERIOR. NOITE.

Félix bate à porta do sobrado das irmãs cajazeiras insistentemnete, até que uma delas abre a porta.

IOLANDA – Isso são horas, senhor Bulhões? Minha irmã já terminou o serviço de vosmecê. O que quer aqui?

FÉLIX – Terminou e me cobrou bem caro por aquela porcaria, isso sim.

IOLANDA – Ah é? E agora veio o quê? Fazer um escândalo na porta da casa de suas senhoras de família?

FÉLIX – Dona Iolanda… Eu preciso da misericórdia de vosmecês.

IOLANDA – Eita! Eu não estou entendendo.

FÉLIX – Tive uma briga terrível com o meu irmão e saí de casa. Não tenho onde ficar. Sei que o sobrado de vosmecês faz as vezes de pensão por aqui.

IOLANDA (pensativa) – Brigou com o irmão é? Por que?

FÉLIX – Dona Iolanda, prometo que explico tudo, mas me deixe entrar por favor.

IOLANDA – Vosmecê parece muito aflito… Mas, tudo bem. Entre. O jantar já está servido.

Quando Félix ia entrar, a idosa faz uma ressalva.

IOLANDA – Mas vou cobrar uma diária.

FÉLIX – Tudo bem, tudo bem. Eu pago. Só preciso de um quarto e um bom banho. Amanhã cedo procuro outro lugar pra ficar.

Iolanda deixa o rapaz entrar.

CORTA.

CENA 4 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Mirmila entra no quarto de Maria Teresa e encontra a menina toda descabelada e com o vestido rasgado.

MIRMILA – Maricota! O que aconteceu com vosmecê?

MARICOTA (fraca) – Mila… Por favor… Preciso de um favor e só vosmecê pode me ajudar.

MIRMILA(abaixando o tom de voz) – Claro, claro. Eu te ajudarei. Mas, primeiro tome esse caldo.

MARICOTA – Eu não quero caldo nenhum.

MIRMILA – Mas assim vosmecê vai morrer de fome.

MARICOTA – Vai ver é isso mesmo que minha mãe quer que aconteça: que eu morra!

MIRMILA – Não diga uma coisa dessas, sinhazinha. Vosmecê precisa se alimentar.

MARICOTA – Mila… Quero que entregue uma carta ao Félix pra mim.

MIRMILA – Claro, claro. Mas só farei isso se vosmecê me prometer que vai comer.

MARICOTA – Aonde está meu pai? Não veio aqui me ver até agora…

MIRMILA – Saiu para socorrer o duque. Parece que ele sofreu um acidente.

MARICOTA – Pois eu quero mais é que ele morra!

MIRMILA – Não diga isso, sinhá! Quando desejamos essas coisas, elas voltam pra gente. Ou para as pessoas que nós amamos.

MARICOTA – Meu único amor é Félix. E eu estou aqui, como uma prisioneira. Por favor Mila, vosmecê precisa me ajudar.

Maricota entrega uma carta para a escrava que guarda rapidamente o envelope entre os seios.

MIRMILA – Agora vosmecê precisa comer. Tem que estar forte para quando Félix vier lhe ver.

A escrava começa a alimentar a fraca jovem, dando-lhe algumas colheres com sopa.

corta.

cenA 5 – SOBRADO DAS CAJAZEIRAS. INTERIOR. NOITE.

Olinda, Iolanda e Félix jantavam em silêncio. As irmãs se olhavam, confusas, enquanto o rapaz devorava uma coxa de frango.

IOLANDA (quebra o silêncio) – Então senhor Bulhões… Pode nos contar o que aconteceu em sua casa?

OLINDA – Ficamos surpresas por vê-lo aqui. Não esperávamos um hóspede para esta noite.

FÉLIX – Prometo às senhoras que será só por esta noite.

IOLANDA – Bom… Eu não me importo em tê-lo aqui. Há tempos esta casa não tem uma figura masculina.

Olinda repreende a irmã com o olhar.

OLINDA – E então? Vai nos dizer o que ocasionou a discussão com o seu irmão

FÉLIX – Acontece, senhoras, que meu irmão tem uma sede de vingança que não me apetece. Ele fala muito mal do Barão e tudo mais…

OLINDA – Rivalidade antiga, meu filho. Os Bulhões e os Caiado são inimigos há anos.

FÉLIX – Mas eu não tenho nada com isso.

IOLANDA – É claro que tem. Vosmecê é um Bulhões, ora bolas.

FÉLIX – Mas onde é que está escrito que um Bulhões deve odiar um Caiado?

As idosas se olham, sem resposta.

FÉLIX – E além do mais, meu irmão não se conforma que eu esteja apaixonado pela filha do Barão.

Olinda engasga após a revelação e Iolanda fica boquiaberta.

corta.

cena 6 – RIACHO. EXTERIOR. NOITE.

André caminha pelo leito do rio, sozinho. Vai até a montanha de pedras em que havia escondido o mapa que levava até a Serra Dourada. Ao chegar no local, retira

algumas pedras menores sem muita dificuldade e descobre que o mapa não estava lá.

ANDRÉ (com as mãos na cabeça) – Minha Nossa Senhora do Rosário… O mapa sumiu!

CORTA.

CENA 7 – CASA DOS CAIADO. INTERIOR. NOITE.

Enquanto jantava sem a presença do marido, Suzana percebeu que havia um envelope com o símbolo da corte sobre a mesa.

Ela puxa para si o envelope e abre, desdobrando uma folha grossa. A mulher lê as informações contidas na carta e bate forte na mesa.

SUZANA – Eu sabia! Eu sabia!

Ela se levanta e sai em direção ao escritório do marido. Mirmila entra logo depois, sem entender porque a patroa havia deixado comida em seu prato. Ela começa a recolher tudo em silêncio.

MIRMILA – Eu, hein… Que povo maluco dessa casa. Acho que a sinhá Suzana não vai mais precisar de mim. Vou correr até a cidade entregar a carta que a sinhazinha me pediu.

CORTA.

CENA 8 – SOBRADO DAS CAJAZEIRAS. INTERIOR. NOITE.

Após o jantar, Félix já havia tomado um banho e estava em seu quarto, sem camisa, se preparando para dormir.

FÉLIX – Não vou conseguir dormir… Preciso bolar um plano para fugir. Mas não saio daqui sem Maria Teresa!

Nesse momento, dona Iolanda entra no quarto abruptamente. Assustando o rapaz.

FÉLIX (cobrindo o peitoral) – Dona Iolanda! Não sabe bater na porta? Quase me pega nu.

IOLANDA(se abanando) – Ora meu jovem rapaz… Seria no mínimo surpreendente, não acha? Eu que nunca vi… Enfim… Vosmecê sabe.

FÉLIX (curioso) – Nunca? A senhora nunca…

IOLANDA – Oh, não! Por Deus, nunca! (pausa) Mas se vosmecê quiser me mostrar o seu…

FÉLIX (assusta) – Mais respeito, dona Iolanda! Eu tenho idade para ser seu filho

IOLANDA – Mas não é…

FÉLIX(irritado) – Chega! O que vosmecê veio fazer aqui?

IOLANDA – Apenas vim ver se o senhor estava confortável. Se precisava de mais alguma coisa.

FÉLIX – Pois eu estou muito bem sim, obrigado. Agora pode ir se recolher. Amanhã o dia começa cedo para todos nós.

Iolanda respira fundo, reconhecendo que não conseguiria nada.

IOLANDA – Pois então boas noites, senhor Bulhões.

FÉLIX – Boa noite.

Iolanda sai e Félix balança a cabeça negativamente, rindo.

FÉLIX – Que velha maluca…

Ele vai até a porta e a tranca. Dirigindo-se até a sua cama, pronto para adormecer.

CORTA.

CENA 9 – JORNAL O DEMOCRATA. EXTERIOR. NOITE.

Mirmila bate na porta do jornal dos Bulhões. Leopoldo abre a porta, irritado.

LEOPOLDO – Isso são horas de uma escrava aparecer? Diga, o que quer aqui

MIRMILA – O senhor Félix está?

LEOPOLDO – Não! Ele não está!

MIRMILA – O senhor é irmão dele, não é?

LEOPOLDO – Sim. O que tem isso a ver?

MIRMILA – É que a minha sinhazinha tem uma carta para o seu irmão.

LEOPOLDO (sorri) – Ah, ela tem é? Pois então me dê a carta que eu entregarei ao meu querido e amado irmão.

Mirmila retira a carta dos seios e entrega para Leopoldo que sorri, vitorioso.

LEOPOLDO – Passar bem, senhorita.

O rapaz bate a porta na cara da escrava e ela fica encucada, mas vira as costas e vai embora.

CORTA.

CENA 10 – JORNAL O DEMOCRATA. INTERIOR. NOITE.

Leopoldo abre a carta de Maria Teresa rapidamente. Lê a mensagem contida nela e solta uma gargalhada.

LEOPOLDO – A pobrezinha da filha do Barão quer que meu amado e querido irmão vá resgatá-la de seu cativeiro.

Ele rasga a carta em vários pedaços, jogando para cima os papeis picados.

LEOPOLDO – Pois ela que apodreça, seja lá onde estiver.

O rapaz se afunda na cadeira de trabalho, se sentindo vitorioso ao olhar para a edição nova do jornal.

LEOPOLDO – Amanhã mesmo vou espalhar esse lindo dossiê sobre o pai dela. Quero só ver como é que o poderoso Barão de Anhanguera vai se defender.

CENA 11 – ESTRADA REAL. EXTERIOR. NOITE.

A carruagem do Barão chega ao local onde o Duque de Monteverde está caído. Ele e Benedito descem do veículo para ajudar o homem.

BARÃO – Parece que ele foi ferido na cabeça. Vamos, me ajude a levantá-lo.

Com alguma dificuldade, o Barão e o escravo conseguem tirar o homem do chão, que tinha suas vestes suja de areia e um pouco de sangue.

BARÃO – Vamos colocá-lo na carruagem, Benedito.

Ao dizer isso, os dois dão alguns passos em direção ao veículo, mas são surpreendidos com o barulho de alguns cavalos.

benedito – Está ouvindo, Barão? Parece uma comitiva.

BARÃO – Que não sejam índios. Já temos problemas demais.

Um soldado da guarda de honra do imperador aparece na frente e, ao ver a cena suspeita, aponta uma arma para o Barão.

SOLDADO – Soltem este homem em nome do Império do Brasil!

Benedito e o Barão se olham, assustados, e logo uma pequena comitiva se forma na estrada diante de seus olhos. Era a comitiva imperial.

BARÃO – Meu Deus do céu… O Imperador chegou.

Close na expressão boquiaberta do Barão.

A cena congela e um punhado de ouro em pó cai sobre a fotografia, formando o desenho da cena.

FIM DO CAPÍTULO 15

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9 thoughts on “Serra Dourada – Capítulo 15

  1. Serra Dourada parece mais um livro do que um folhetim. Uma boa história, verdade, que me convida a lê-la, mas não a acompanhá-la. Serra Dourada é uma trama de leitura descompromissada, me atrai, mas não me fisga. Não sei se fui claro, mas é assim que eu descrevo a minha leitura de Serra Dourada.

    Maricota teve o azar de Félix ter cortado relações com Leopoldo antes do envio da sua carta. Algo me diz que isso pode acabar de vez com esse romance. Pra falar a verdade, o romance de Félix e Maricota me surpreendeu: vendido como o fio condutor da trama nas chamadas, esse casal fez tudo, menos conduzir a história. Essa história de amor não interfere muito nas outras histórias, que se desenvolvem meio alheias a ela. O ódio de Leopoldo pelo Barão de Anhanguera parece fazer as vezes de coluna vertebral de Serra Dourada no lugar do amor de Félix e Maria Teresa.

    Ele está chegando. A tão aguardada vinda de D. Pedro a Goyaz.

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  2. Suzana é uma senhora bastante venenosa e amargurada. Isso tudo deve ter um motivo e eu não faço idéia do que seja. Até acho que é por ela não ser uma baronesa, mas sei lá.

    Dona Iolanda, melhor pessoa. Adoro ela! E Félix revelou tudo. Por que tenho a sensação de que isso não cheira bem…

    Leopoldo prefere a vingança contra Anhanguera do que a felicidade do irmão. Lamentável! Sei que ele tem um motivo pra isso, mas péra lá.

    ATÉ QUE ENFIM ELE CHEGOU! Demorou muito, sim. Só na última semana da web. Espero que a presença dele em Goyaz compense os dias que demorou pra entrar na trama. Sinto que nessa última semana as coisas mudam.

    Parabéns, Leonel! 😉

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