Fantasma Vivo – Capítulo 02

CENA 01: CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE VICENTE E ARTHUR/INT./DIA

LETREIRO: “São Paulo, 2003”

O pequeno Arthur aparece correndo e sorrindo, ele se esconde embaixo da cama, ao fundo é possível ouvir Vicente contando.

VICENTE – […] 47, 48, 49 e 50. Pronto ou não, lá vou eu.

Vicente sai à procura do irmão pelos cômodos da casa.

VICENTE – Arthur? Eu vou te encontrar.

Ele entra no quarto e agora enxergamos pelo olhar de Arthur embaixo da cama, os passos de Vicente rodeiam a cama, e Arthur prende a respiração para não chamar atenção.

VICENTE – Onde esse menino se escondeu?

Vicente vai até o guarda-roupa e o abre subitamente na esperança de encontra-lo.

VICENTE – Ache… Ué?

Arthur não consegue se segurar e solta uma risadinha, mas logo tampa a boca. Vicente ouve a risada e olha desconfiado para a cama.

VICENTE – Humm. Se ele não está no guarda-roupa. Onde pode estar esse meu irmãozinho?

Arthur observa por debaixo da cama os pés de Vicente se aproximando, quando de repente ele se abaixa dando um grito.

VICENTE – ACHEI!

Arthur começa a rir e sai da cama, em direção ao colo do irmão.

ARTHUR – Quase que você não me acha.

VICENTE – É! Mas ficou no quase.  Eu te achei.

Vicente bagunça o cabelo do irmão e ele lhe abraça.

VICENTE – O que foi?

ARTHUR- É que eu adoro quando nós brincamos juntos.

VICENTE – Eu também maninho.

Os dois se abraçam e não percebem que Elizabeth emocionada observa a cena de carinho dos irmãos.

CENA 02: CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR/INT./NOITE

LETREIRO: “São Paulo, 2017”

Carlos Alberto olha para Arthur e Túlio juntos, após flagra-los abraçados.

C. ALBERTO – Saia da minha casa, moleque.

TÚLIO – Olha seu Alberto a gente só estava…

C. ALBERTO – Eu não quero suas explicações, gente como você me dá nojo.

TÚLIO – Olha aqui eu não admito que o senhor…

ARTHUR – Vai embora Túlio.

Túlio se vira para Arthur.

TÚLIO – Eu não vou te deixar sozinho com esse cara.

ARTHUR – Ele é meu pai. Eu vou ficar bem.

Túlio pega sua mochila.

TÚLIO – Qualquer coisa me liga.

Ele sai e Carlos Alberto se aproxima de Arthur, ameaça dizer alguma coisa, mas dá um sorriso cínico e em seguida dá um tapa no rosto do filho.

CENA 03: LISBOA/CONSULTÓRIO MÉDICO/INTERIOR/NOITE

Vicente atende um paciente com leucemia, Henrique, um garoto de aproximadamente 7 anos que já perdeu todo o cabelo devido ao tratamento. A mãe do garoto, Maria demonstra-se preocupada, enquanto o jovem médico ouve seus batimentos.

VICENTE – Bom, dona Maria. O jovenzinho Henrique, está reagindo bem à quimioterapia, mas ainda é cedo para dizer quando ele terá alta.

MARIA – Ai, doutor, é que eu fico tão preocupada.

VICENTE – Essa é uma doença complicada mesmo, é normal que a senhora esteja a se preocupar. Mas pelo o que eu estou a ver, o seu pequeno logo logo estará em casa.

HENRIQUE – Viu só mamãe, eu falei que estava bem.

Maria abraça o filho com bastante carinho. Nesse momento, a enfermeira bate na porta.

ENFERMEIRA (SORRIDENTE) – Com licença, doutor. Mas esse jovem não está a se conter na recepção.

Outro garoto adentra o consultório com rapidez e se aproxima do paciente.

JOÃO – E então doutor, como está o meu irmãozinho?

MARIA – Eu disse pra você esperar lá fora, João.

JOÃO – Mamãe, eu estou tão preocupado quanto tu estás e então me deixa ouvir o doutor, por favor.

VICENTE – Não se preocupe João, o seu irmão está respondendo bem ao tratamento.

HENRIQUE – É João, ele disse que em breve eu vou poder ir pra casa.

JOÃO – Sério? Que Legal. Eu mal vejo a hora, pra gente brincar muito.

MARIA – Desculpa doutor. Mas esses dois são muito apegados.

JOÃO – Isso mesmo! Eu faço tudo para ver o meu irmão bem.

João abraça Henrique e Vicente observa a cena com olhos marejados, o que traz a tona uma antiga lembrança.

VICENTE (pensativo) – Eu sei como é.

FLASH!

Cena 04: [FLASHBACK] CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR/INT./NOITE

LETREIRO: “São Paulo, 2005”

Arthur está deitado na cama, com um termômetro na boca. Vicente e Carlos Alberto estão ao lado enquanto Elizabeth retira o instrumento e observa o resultado.

ELIZABETH – 39º, ele está ardendo em febre.

VICENTE – Eu falei pra você não brincar na chuva.

ARTHUR – desculpa! – Ele espirra.

VICENTE – Não se preocupe, eu vou cuidar de você.

Vicente se aproxima de Arthur e senta ao seu lado, ele segura a mão do mais novo.

C. ALBERTO – E o que você pode fazer? É medico por acaso?

VICENTE – Eu ainda não sou médico, mas um dia eu vou ser e vou cuidar muito bem do Arthur.

C. ALBERTO – Eu duvido que isso aconteça.

ELIZABETH – Não fale assim com o garoto.

C.ALBERTO – Eu falo como eu quiser. Se ele ficar tão perto desse jeito vai acabar ficando doente também e em vez de cuidar só de um, vamos cuidar dos dois.

VICENTE – Eu não me importo de ficar doente, eu faço tudo para ver o meu irmão bem.

C. ALBERTO – Eu não estou de brincadeira moleque.

Carlos Alberto puxa Vicente pelo braço.

C. ALBERTO – Vá para o seu quarto, isso é só um resfriado não tem por que se alarmar. Sua mãe vai ligar para o Dr. César, e você vai dormir que amanhã tem aula.

Ele expulsa Vicente do quarto e bate a porta na cara dele.

FLASH!

MARIA – Doutor?

Vicente se recupera do flash momentâneo.

VICENTE – Desculpa! Eu tive um devaneio.

MARIA – É verdade que o senhor vai para o Brasil?

VICENTE – Sim, mas não se preocupe. Eu vou deixar o seu pequeno em boas mãos.

Maria abraça Vicente que é pego de surpresa.

MARIA – Eu sempre vou ser grata ao senhor, se não fosse você talvez o meu filho estivesse morto agora.

VICENTE – Não diga uma coisa dessas, eu só fiz aminha obrigação.

Vicente se despede de Henrique e João com um forte abraço, e os três vão embora.

ENFERMEIRA – Foi seu ultimo paciente doutor.

VICENTE – Obrigado.

ENFERMEIRA – Ah! Sua noiva esta a lhe esperar na recepção.

Vicente dá um sorriso bobo.

CENA 05: CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR/INTERIOR/NOITE

Arthur olha para Carlos Alberto com lágrimas no olhar.

C. ALBERTO – Isso é pra você aprender que eu não vou tolerar essa falta de vergonha, ainda mais na minha casa.

ARTHUR – Do que você está falando?

C. ALBERTO – Não se faça de cínico, além de trazer esse favelado pra dentro de casa, ainda ficam se esfregando?

Arthur se assusta ao ouvir as palavras do pai.

ARTHUR – O Túlio sempre vem aqui e a gente não estava se esfre…

C. ALBERTO – Eu só vou lhe falar uma vez, eu criei você como homem e é isso que você vai ser enquanto morar embaixo do meu teto. Estamos entendidos?

Arthur abaixa a cabeça.

ARTHUR – Estamos.

C. ALBERTO – Ótimo. Eu não quero mais ver esse garoto na minha casa.

ARTHUR – Mas pai, o Túlio é meu amigo e como disse ele sempre vem aqui em casa.

C. ALBERTO – A partir de hoje não vem mais! Ele é uma péssima influência pra você.

ARTHUR – Como assim?

C. ALBERTO – Ainda pergunta? Ele é um favelado pobretão e não pertence ao nosso nível.

ARTHUR- Isso nunca foi problema para mim.

C. ALBERTO- Mas pra mim FOI, É, e SEMPRE vai ser um problema, não quero que o sucessor de Carlos Alberto Toledo seja visto com um marginal de favela.

  ARTHUR – O Tulio não é assim.

C. ALBERTO- Pare de defender ele. Por acaso vocês tem alguma coisa?

ARTHUR – Claro que não. Eu e o Túlio somos apenas amigos e foi só um abraço. Não tem por que o senhor fazer essa tempestade toda.

C. ALBERTO – Entenda uma coisa homem que é homem não abraça outro homem.

Vicente encara o pai em silêncio.

C. ALBERTO – E pare de chorar que você não é mulher. Pelo menos eu acho que não, né?!

Carlos Alberto sai do quarto e deixa Arthur aos prantos.

 

CENA 06: RESTAURANTE/INT./NOITE

Elizabeth está terminando de jantar com sua amiga Steffany.

STEFFANY – Ai estava precisando de um jantar desses.

ELIZABETH – Só você mesmo pra sair comigo. Lá em casa ninguém tem tempo.

STEFFANY – Como assim mulher? Cadê o seu marido?

ELIZABETH – Aquele lá só tem olhos para aquela empresa.

STEFFANY – Não me diga isso. Há quanto tempo que vocês não… você sabe?!

ELIZABETH – Ah, amiga. Eu nem lembro da ultima vez.

STEFFANY – Isso se chama crise no casamento, você sabe, né?!

ELIZABETH – Será?

STEFFANY – Você está precisando atiçar a fera, sabe?!

ELIZABETH – Como assim?

STEFFANY – Você tem que apimentar a relação de vocês. Compra uma lingerie, uma camisola sexy, sei lá. Tenho certeza que ele não vai resistir se te ver assim. Faça isso amiga, salve seu casamento.

Elizabeth fica pensativa com o comentário da amiga.

CENA 07: CASA DE CARLOS ALBERTO/GARAGEM/EXT./NOITE

Elizabeth estaciona o carro e ao sair encontra Carlos Alberto que está de saída.

ELIZABETH – Vai sair querido? Eu acabei de chegar.

C. ALBERTO – Eu tenho que descansar a mente acabei de ter uma discussão com o Arthur.

ELIZABETH – O que aconteceu?

C. ALBERTO – Aconteceu que você dá muita liberdade pra esse garoto e ele acha que pode fazer o que quiser na minha casa.

Elizabeth tenta acalmar o marido.

ELIZABETH – Calma! O que aconteceu?

C. ALBERTO – Eu peguei ele e aquele favelado quase se agarrando no quarto. Não quero mais ver aquele marginal na minha casa.

ELIZABETH – Quem? O Túlio? Ele é amigo do Arthur, sempre vem aqui. Tem permissão para entrar.

C. ALBERTO – A partir de hoje não tem mais.

ELIZABETH – Pensa melhor, ele é o único amigo do Arthur.

C. ALBERTO – E daí? Essa palhaçada de amigos é apenas um pretexto para por qualquer um dentro de casa. Eu nunca precisei de amigos, e o Arthur não vai morrer por causa disso.

ELIZABETH – Mas…

C. ALBERTO – CHEGA! Já está decidido. Eu vou para o escritório, aliás não deveria nem ter saído de lá, poderia ter evitado de presenciar aquela cena lamentável. Dê um jeito de concertar ele antes que seja tarde. Porque tudo isso é culpa sua.

ELIZABETH – Minha culpa?

CARLOS ALBERTO – Você fica mimando esse garoto desde pequeno e agora ele está aí querendo virar gay. Só que você não percebe que não é o seu nome que as pessoas falam, eles vão olhar e dizer: Olha o filho do Carlos Alberto Toledo é gay.

ELIZABETH – Calma Carlos você está muito exaltado.

C. ALBERTO- Que se dane.

Carlos Alberto passa por Elizabeth sem dizer nada e entra no carro.

CENA08: CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR/INT./NOITE

Elizabeth entra silenciosamente no quarto de Arthur e o encontra encolhido na cama abraçado ao travesseiro com o rosto inchado de tanto chorar,

ELIZABETH – Filho?

Arthur se levanta rapidamente e encara a mãe por alguns segundos antes das lágrimas voltarem à tona. Elizabeth corre e abraça fortemente o filho, e coloca ele em seu colo enquanto enxuga suas lágrimas.

ELIZABETH – Não ligue para o que ele diz. Você conhece o seu pai, sabe que ele extrapola às vezes, mas tem bom coração.

ARTHUR- Eu não entendo ele, acho que ele me odeia.

ELIZABETH – Seu pai te ama assim como eu. Ele só é um pouco estressado por causa do trabalho.

ARTHUR – Se a senhora diz.

ELIZABETH – Filho, você tem alguma coisa pra me dizer?

Arthur olha para a mãe e sorri.

ARTHUR – A senhora quer saber se eu sou gay? Eu não sei… (pausa) na realidade eu estou confuso. A minha vida tem sido uma desgraça ultimamente. Mas é claro que não tem nada a ver com o Túlio, ele só veio aqui me ajudar, me abraçou como tantas outras vezes e o papai fez um drama enorme.

ELIZABETH – Seu pai é muito conservador, ele foi criado numa época em que dois homens não podiam ficar menos de meio metro de distancia.  Mas eu te entendo meu filho, e eu não me importo com suas escolhas, eu só quero que você seja feliz.

ARTHUR – Eu sei mãe.

Os dois ficam em silêncio por alguns segundos. Arthur encara a fotografia dele e de Vicente no porta-retratos.

ARTHUR – Eu sinto falta dele.

ELIZABETH – De quem?

ARTHUR – Vicente.

ELIZABETH – Eu também, meu filho.

ARTHUR – Por que ele me abandonou mãe?

ELIZABETH – Não diga isso querido. Ele não te abandonou.

ARTHUR – É claro que me abandonou, saiu sem se despedir e nunca mais procurou falar comigo, nem mesmo por telefone.

ELIZABETH – É complicado querido, a relação do Vicente com seu pai nunca foi boa, até que um dia a convivência entre eles se tornou insuportável.

ARTHUR – E o que eu tenho a ver com isso? Nada justifica o que ele fez comigo. Me abandonar do jeito que ele fez foi muito difícil. E agora eu estou aqui precisando dele mais do que nunca.

ELIZABETH- Um dia ele vai voltar meu amor, e tudo vai ser como antes.

ARTHUR – Assim espero, mãe. Assim espero.

Foco na fotografia de Arthur e Vicente é possível ver pelo vidro quebrado o reflexo dos olhares de saudade de Elizabeth e Arthur.

CENA 09: LISBOA/EXT./NOITE

Imagens de avenidas movimentadas de Lisboa são exibidas.

TRILHA SONORA: Touch It – Ariana Grande

CENA 10: LISBOA/AVENIDA/CARRO/INT./NOITE

Riely e Vicente estão calados e o clima dentro do carro não é dos melhores. Vicente pensa nos dois irmãos.

JOÃO (Pensamento de Vicente)- Eu faço tudo para ver o meu irmão bem.

Vicente volta a si quando Riely chama sua atenção.

RIELY – Estás calado desde que saímos do consultório.

VICENTE – Não é nada. Só estou cansado.

RIELY – Como sempre, né?!

VICENTE –É tenho trabalhado dobrado, quero deixar tudo em ordem antes de viajar.

RIELY – Ás vezes eu penso que tu dás mais importância para esse consultório do que pra mim.

VICENTE – Que besteira. Você sabe que eu te amo mais do que tudo.

RIELY – Me prove!

VICENTE – O quê?

RIELY – Me prove que me ama de verdade.

VICENTE – Como assim?

Riely começa a acariciar a perna de Vicente e vai subindo na direção de sua virilha.  Vicente freia o carro assustado com a atitude de Riely.

VICENTE – O que significa isso?

RIELY – Eu já estou cansada de você me rejeitar. Eu te quero!

VICENTE – Eu não te rejeito Riely, já disse que ainda não é a hora.

RIELY – E quando vai ser?

Vicente respira fundo.

VICENTE – Só quando a gente casar. SE a gente casar.

RIELY – Mas em que época nós estamos. Voltamos para a idade das pedras?

VICENTE – Se você não consegue me entender, não serve para ser minha esposa.

Riely se assusta e lágrimas caem de seus olhos.

RIELY – O que você disse?

VICENTE – Calma, eu não quis dizer que…

RIELY – Cansei.

A jovem sai chorando do carro no meio da rua e corre por entre os carros.

Vicente abre a porta do carro e grita por Riely.

VICENTE – Riely! Espera!

Mas o congestionamento já é grande e uma fila de carros buzina atrás do seu e ele é obrigado a sair do lugar.

VICENTE – Droga!

CENA 11: APARTAMENTO DE RIELY/INT./NOITE

Anthony está fumando na cama, assistindo a um filme pornô quando Riely chega furiosa.

ANTHONY – Nossa! O que houve com você?

RIELY – Aquele idiota.

ANTHONY – O que ele fez?

RIELY- Tu não acreditas no que ele me falou.

Anthony – Então fale logo, mulher.

RIELY – Estava todo caladão e eu quis quebrar o gelo pedindo provas do “amor” dele, e quando fui acariciar na vara que nunca sobe dele, ele teve a audácia de me dizer que sexo só depois do casamento.

ANTHONY- Agora ele resolveu virar a donzela com o cinto da castidade?

RIELY – O pior não é isso. Ele ainda insinuou que se eu não aceitasse a decisão dele do “Eu escolhi esperar” poderia NÃO haver casamento. Ouviu bem.

ANTHONY – Opa, aí eu já começo a me preocupar.

RIELY – Esse otário só esta atrasando meus planos. Mas tudo bem, eu só tenho que apressar esse casamento logo. A grana dele vai ser nossa meu amor, pode ter certeza disso.

Anthony faz cara de sacana e aponta para a cama.

ANTHONY – Vem cá cachorra, vamos brincar mais um pouco.

RIELY – Esse seu fogo não apaga nunca, né? É por causa disso que estamos nessa encrenca de quase dois meses.

Riely pega em sua barriga.

ANTHONY – Encrenca essa que vai nos trazer um dinheirão. O futuro papai Vicente Toledo que nos aguarde.

Ele agarra Riely pelos cabelos e a joga na cama.

ANTHONY – Vamos fazer a nossa sacanagem.

RIELY – Espera. Será que não faz mal pro bebê? Só me faltava essa perder esse filho.

ANTHONY – Que nada! É bom que o molecão já aprende a ser safado que nem o papai aqui.

Ele beija a barriga de Riely e depois vai descendo cada vez mais, a imagem foca no olhar de prazer de Riely.

CENA 12: SÃO PAULO/EXT./NOITE

Imagens do subúrbio de São Paulo são exibidas, foco em uma casa simples de madeira.

TRILHA SONORA: Greedy – Ariana Grande

CENA 13: CASA DE DIANA/INT./NOITE

Uma jovem de cabelos castanhos está sentada em frente ao espelho, ela encara minuciosamente cada detalhe de seu reflexo.

DIANA (off) – Onde eu vim parar?  Estou sozinha, sem amigos, sem família. Só eu e eu mesma. Estranho né?! Mas ao contrario de muitos solitários por aí, eu tenho um propósito na vida que é destruir Carlos Alberto Toledo.

A jovem olha uma foto de Carlos Alberto colada no canto do espelho, é possível ver que a foto já foi riscada várias vezes com algum objeto pontiagudo. Logo, surge o reflexo de uma senhora no espelho.

INÊS – Outra vez tentando colocar a culpa dos seus erros em outra pessoa?

DIANA – O que você quer mamãe?

INÊS – Vejo que ainda não desistiu da sua maldita ideia.

DIANA – Claro que não. Eu vou provar pra senhora que eu não sou culpada. O culpado é esse monstro.

INÊS – Você pode cair na sua própria armadilha sabia.

DIANA – O primeiro passo eu já dei, hoje eu me matriculei na mesma faculdade do filho dele.

INÊS – Você pretende machucar uma pessoa inocente?

DIANA – Vindo daquele homem, nada é inocente, mamãe. Entenda isso!

INÊS- Eu tenho pena de você, Diana.

DIANA – Pois não devia. Você vai ter é orgulho da sua filha, quando a mascara daquele crápula cair.

Diana levanta-se e olha o reflexo da sua mãe seriamente.

A imagem vai se afastando e logo é possível ver que não há ninguém atrás de Diana, ou seja, o reflexo de Inês é apenas fruto da imaginação dela.

CENA 14: EVENTOS TOLEDO/ESCRITÓRIO/INT./NOITE

Carlos Alberto fuma um charuto enquanto mexe no computador, é possível ver que ele está observando imagens de meninas menores sem roupa. O olhar de prazer dele toma conta da tela quando alguém bate na porta.

C. ALBERTO – Entre!

SOLANGE – Eu vim assim que me chamou. Me desculpe seu Carlos, mas infelizmente eu não consegui nenhuma menina a tempo, se o senhor tivesse falado mais cedo eu poderia…

C. ALBERTO – Acalme-se mulher. Eu não pedi nenhuma menina hoje.

SOLANGE- Então, por que o senhor me chamou?

C. ALBERTO – A verdade é que eu estou precisando de carne nova. Se é que me entende. Já experimentei de todo o seu acervo. Não que eu não goste, mas eu preciso conhecer novos ares, você não acha?!

Carlos Alberto sopra a fumaça do charuto na direção de Solange.

SOLANGE – Claro, seu Carlos. Eu entendo, mas o mercado está difícil esses dias. São poucas as meninas que…

C. ALBERTO – Eu pago o preço que for. Dinheiro não é problema. Mas me traga uma garota nova.

Solange dá um sorriso malicioso.

SOLANGE- Eu vou encontrar sua garota nova seu Carlos. Ela está por aí em algum lugar.

CENA 15: RODOVIÁRIA DE SÃO PAULO/INTERIOR/NOITE

TRILHA SONORA: Superstar – Larissa Manoela

Uma garota de aproximadamente 15 anos desce do ônibus mascando chiclete, com uma regata, short curto e uma botinha, percebe-se que ela é uma jovem descolada.

SUELEN – Agora sim, cheguei em Sampa. Tenho certeza que a minha vida vai mudar a partir de hoje.

CENA 16: CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR/INT./NOITE

Arthur está deitado na cama, olhando para o teto, ainda com o rosto vermelho.

Arthur (off) : Eu amo aminha mãe, mas eu não gosto de ver ela sofrendo. Então fingi que estava dormindo só pra ela ir embora e me deixar sozinho com meus pensamentos como já estou acostumado. É difícil, mas eu prefiro, não quero que ninguém sofra por minha causa, acho isso totalmente desnecessário. Afinal, ninguém deveria ser obrigado a sofrer por ninguém, pois o sofrimento próprio já basta. É nesses momentos de tensão que eu acho que a única coisa que pode aliviar esse sofrimento é uma amiga minha que já me acompanha há algum tempo.

Arthur se levanta da cama, e abre a gaveta de seu criado-mudo, é possível ver algumas giletes. Ele pega uma e observa o instrumento, fecha os olhos e respira fundo.

Arthur (off): É estranho esse turbilhão de sentimentos, uma voz dentro de mim me diz para fazer, me diz que esse corte vai servir de anestesia pra tudo o que eu estou passando, mas outra voz me diz que eu não devo fazer, que isso vai me prejudicar. Como lhe dar com essas vozes?

Nesse momento, Arthur se lembra da frase de Túlio.

TÚLIO (Pensamento de Arthur)- Eu estou aqui e você pode contar comigo pra tudo. Nós vamos vencer essa barra juntos.

Arthur rapidamente deixa a gilete no lugar e decide pegar o celular e ligar para Túlio.

ARTHUR (ao telefone) – Alô, Túlio. Eu preciso de você, meu amigo.

CENA 17: LANCHONETE/EXT./NOITE

Arthur estava sentado em uma das mesas da lanchonete, ele parece ansioso e apreensivo. Até que Túlio aparece.

TÚLIO – Cheguei!

Arthur corre para abraça-lo, apesar de seu pai ter lhe dado ordens restritas para que ficasse longe de Túlio, ele sabia que Túlio era a única pessoa que ele poderia confiar.

Mas sem que ninguém percebesse, alguém registrava com uma câmera aquele momento intimo de amizade que poderia ser visto com maus olhos por alguns.

A imagem foca em Diana com um sorriso sarcástico registrando o momento atrás de uma árvore.

Cena 18: LISBOA/APT. DE VICENTE/INTERIOR/NOITE

Vicente chega em casa, tenta ligar pra Riely, mas cai na caixa postal e ele decide deixar um recado.

VICENTE – Oi amor meu. Não faz assim, a gente precisa conversar. Eu não queria dizer aquilo. Me liga!

Ele deita na cama e tira a gravata, enquanto os pensamentos do dia invadem sua mente, sua discussão com Riely, mas principalmente as lembranças do irmão que estavam cada vez mais frequentes.

VICENTE – Como será que o Arthur vau reagir ao me rever de novo? Será que aqueles sentimentos ainda continuam aqui?

Vicente lembra do sorriso do irmão, da forma como Arthur o abraçava e dizia que lhe amava.

VICENTE – Desculpa meu irmão. Eu não queria ter te abandonado. Mas foi melhor assim, eu não estava conseguindo mais suportar aquele sentimento.

FLASH!

[FLASHBACK] CASA DE CARLOS ALBERTO/QUARTO DE ARTHUR E VICENTE/INT./NOITE

LETREIRO: “São Paulo, 2007”

Vicente e Arthur brincam de sombras embaixo de um casinha feita com lençol.

VICENTE – Adivinha que bicho é esse?

ARTHUR – Um leão.

VICENTE – Acertou!

Arthur abaixa a cabeça.

VICENTE – Ei o que houve maninho?

ARTHUR – Gosto tanto de brincar com você. Tenho medo que isso acabe.

VICENTE – E quem disse que vai acabar?

ARTHUR – Papai falou que você não tem mais idade pra brincar comigo.

VICENTE – Papai está errado. Eu sempre vou ter idade para brincar com você não importa se eu ainda for uma criança ou um homem de barba ou até mesmo um velhinho. Nós sempre vamos estar juntos.

Mas Arthur abraça o irmão e Vicente fica Incomodado com a proximidade dele e logo se afasta.

ARTHUR- O que foi?

VICENTE – Nada! Só vamos continuar brincando.

Arthur boceja.

ARTHUR – Já estou cansado, acho que vou para a cama.

VICENTE – OK. Vou te por na cama.

Vicente acomoda Arthur na cama dele.

ARTHUR – Obrigado por me fazer tão feliz irmãozão.

VICENTE – Boa Noite.

Vicente (off) Naquela noite não consegui dormir e não parei de prensar em Arthur. Os sentimentos que sentia pelo meu irmão estavam confusos já havia um tempo, eu não via Arthur apenas como irmão, eu sentia que ele era mais que isso, era alguém que precisava estar ao meu lado para sempre. Enquanto eu o observava no mais profundo sono, eu percebi que estava diante da pessoa que eu mais amava no mundo e que nada poderia nos separar.

Então me aproximei da cama dele e o observei dormir por horas, parecia que o simples fato de ter ele ali perto de mim já me fazia sentir a pessoa mais feliz do mundo. Aquele sono inocente me atraia cada vez mais.

VICENTE – Eu te amo Arthur!

Vicente (off) Tal sentimento era tão grande que eu não vi mal algum em lhe dar um beijo. Um beijo carinhoso que transmitia todo o amor que ele sentia, mas que sabia que de certa forma era errado.

Tal ato acabou despertando a ira de Carlos Alberto Toledo que presenciou a declaração afetuosa de Vicente e viu aquele beijo como um ato pecaminoso e impuro que confirmou suas suspeitas de que Vicente era apaixonado por Arthur.

C. ALBERTO – O que significa isso Vicente?

O olhar assustado de Vicente encarando o pai foi o inicio de uma rivalidade que traria sérias consequências.

FLASH!

Com lágrimas no olhar Vicente trazia a tona, um lembrança que o atormentou por muito tempo.

VICENTE – Será que esse fantasma ainda continua vivo dentro de mim?

A cena congela em efeito preto-e-branco e é amassada.

 

            CONTINUA…

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30 thoughts on “Fantasma Vivo – Capítulo 02

  1. Sério, o que prende o Vicente a esse namoro com a Riely? É claro e evidente que ele não a ama, até ela sabe disso. Pra que ele fica se enganando e querendo enganar a Riely? Pra não padecer de solidão?

    Também é claro e evidente que o Vicente tem medo de como o Arthur vai recebê-lo. Ele nunca escondeu de nós que ama o Arthur (não como irmão, mas também como homem), e ele sofre ao pensar que o Arthur pode recebê-lo com indiferença, que ele pode não reconhecê-lo com o irmão, que ele pode guardar mágoa dele. O Vicente tá se preparando pra dar de cara com um Arthur arisco e indiferente, tudo o que ele não queria.

    Só mesmo o amor justifica a Elizabeth aguentar calada as patadas do Carlos Alberto. A promessa feita diante do padre no altar: amor e respeito incondicional e vitalício.

    Arthur e Vicente não são os únicos que vivem em conflito interno. Diana também, pelo visto.

    Curtido por 1 pessoa

    • Como dito em off por Vicente, Riely foi a única que fez com que ele parasse de pensar em Arthur, ela serve de escape para os sentimentos dele..
      Realmente Vicente está relutante com sua volta ao Brasil principalmente pela possível reação de Arthur. Como será esse reencontro? Respostas em breve.
      Já Diana tem um papel fundamental na história que será exclarecido no próximo capítulo.
      No mais, muito obrigado por acompanhar, sua opinião vale muito. 😎😊

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