Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 02

“O beijo entre Alex e Afrodite é bem demorado, bem lento, pois só assim eles podem sentir o gosto do prazer que emana nos seus íntimos… Alex, assim como todo homem que se preze, ao transbordar-se de prazer, jorra a maior satisfação que já tivera em toda a sua vida: Finalmente está beijando uma menina por amor, e não só por pura excitação. Afrodite, assim como toda menina romântica, sente-se preenchida de afeição e torna aquele beijo, a ternura mais bela que estava tão acostumada a ler nas histórias de princesa que adorava na sua infância. Só que agora ela cresceu e ele também, a inocência de ambos adormeceu e então nasceu o amor, a paixão… e a lascívia”.

(Afrodite afasta-se do beijo e os dois se olham ofegantes, sem dizerem nenhuma palavra sequer; Ao ouvir a buzina do carro, Afrodite sai correndo, deixando ali plantado o dono do seu primeiro beijo; Afrodite entra no carro, balançada, e pede para que Adamastor a leve para casa, o mais rápido possível)

ADAMASTOR: Aconteceu alguma coisa, Afrodite?

AFRODITE: Não, por que a pergunta?

ADAMASTOR: É que você está estranha… E quem era aquele rapaz?

AFRODITE: Você está muito curioso, Adamastor… E por que demorou tanto para me buscar?

(Adamastor fica nervoso e logo pensa em uma desculpa para contar)

ADAMASTOR: O motor pifou… Eu tive que levar o carro no mecânico antes.

AFRODITE: Ah… Agora pisa nesse acelerador que eu estou doida pra chegar em casa e descansar.

ADAMASTOR: Sim, senhorita Afrodite!

(Afrodite ajeita-se no banco traseiro e pensa no beijo)

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Sentado no meio-fio, Alex também pensa no beijo que deu em sua deusa do amor…

TÂNIA: Alex, a gente estava te esperando maior tempão lá na frente do portão… O que você está fazendo aqui sentado?

(Tânia vem falando, seguida de seus irmãos e primo; Alex se levanta rapidamente)

ALEX: Nada, só…

TÂNIA: Vamos logo! Hoje tem baile charme, né Alex?

(Alex confirma com a cabeça)

TINA: Vou contar pra mamãe que você vai pro baile, Tânia. Eu vou contar!

TÂNIA: E que disse que eu vou AO baile, hein? Eu vou é estudar com a Solange, ensinar algumas coisas que aprendi pra ela.

TINA: Sei!… E seu nariz está crescendo igual ao do Pinóquio nesse momento mesmo.

(Disfarçadamente, Tânia passa a mão em seu nariz para conferir se era verdade) 

TÂNIA: Deixe de criancice e vamos logo. Vamos rápido que hoje eu estou com pressa.

(Tânia vai à frente e todos a seguem) 

 TÂNIA: Tina e Tico, hoje vocês vão voltar sozinhos pra casa.

TICO: Por quê?

TÂNIA: Porque eu vou dormir na casa da tia Das Dores.

TICO: Ahhh…

(Tico se entristece por ter que se desligar da irmã, pois era muito colado a ela desde que nasceu)

TÂNIA: Não fica triste, irmãozinho… Amanhã eu volto.

TINA: Tânia, a gente não pode voltar sozinho pra casa, é muito longe… Somos crianças, esqueceu?

TÂNIA: Ué, você não queria ser grande? Então?… Já sabe pegar ônibus, né?

(Tina concorda com a cabeça, com um ar de deboche)

TÂNIA: Ótimo!… Tome esses trocados e vão direto pra casa, não parem pelo caminho e nem conversem com estranhos… Entenderam?

(Tânia joga umas moedas na mão de Tina, que emburra a cara, não querendo olhar para a irmã mais velha)

TÂNIA: Vamos, Alex… Fábio, você vem com a gente?

FÁBIO: Vou.

TÂNIA: Então vamos logo.

(Tânia, Alex e Fábio saem)

TINA: Ah, mas eu vou contar tudo pra mamãe… A Tânia me paga! Me paga!

(Tina fica com raiva da irmã e daquela situação; Tico se encolhe todo e pega a mão de Tina, apertando-a forte)

TICO: Tô com medo, Tina.

TINA: Ih, Tico, para de ser maria-mole.

(Tina tenta ser madura, mas no fundo, mais bem lá no fundo mesmo, também é uma criança indefesa que está morrendo de medo, assim como o irmão mais novo; A noite cai de vez e os dois, naquele ponto de ônibus vazio, clamam em seus coraçõezinhos para que a condução chegue logo, mas pelo visto, demorará muito, mais muito tempo)

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“Zona Sul do Rio de Janeiro; Mansão dos Smith; Quarto de Afrodite”…

O quarto de Afrodite é tão grande, mais tão grande, que cabe ali dentro um reino todo feito de sonhos, sonhos estes que Afrodite parece estar vivendo nesse momento… Ela chega, deixa os livros de lado, mal tira os sapatos e sem música alguma, começa a bailar, suavemente, que parece flutuar. A lembrança do seu primeiro beijo surge ao seu redor como um lindo flashback que ela não quer que se acabe nunca mais. Escondida, Marieta, sua mãe, observa-a, admirando seus passos de ballet que estão mais do que primorosos.

MARIETA: Está feliz, minha filha?

(Marieta entra perguntando, constrangendo Afrodite que rapidamente para de dançar)

AFRODITE: A senhora estava aí, mamãe?

MARIETA: Por que parou de dançar? Estava tão bonito… Belos “cambrets”, filhinha. Não acha que deveria voltar com as aulas de ballet não?

AFRODITE: Ah não, mamãe… Ser bailarina não é o que eu quero.

(Afrodite senta-se na cama e tira suas meias, jogando-as pelo chão; Marieta se aproxima)

MARIETA: Mas modelo tem chances, né?

AFRODITE: Fora de cogitação, mamãe. Eu quero mesmo fazer “letras” e ser professora… Ou escritora.

MARIETA: Ah, minha filha, professora não, isso é brega demais, muito démodé… Meu sonho é que você desfile, completando-me, já que tive que largar a carreira depois que engravidei.

AFRODITE: A senhora se arrepende de ter me tido?

MARIETA: Claro que não, minha filha, de forma alguma…

(Marieta fala, sentando-se ao lado de Afrodite e segurando as suas mãos)

MARIETA: […] Você é o meu maior presente… É que eu só quero o melhor pra você.

(Afrodite sorri)

MARIETA: Mas você ainda não me respondeu… Está feliz por quê?

AFRODITE: Por nada, mamãe. Nem estou feliz, oras… Só estou… Normal.

MARIETA: Hum, sinto cheirinho de mentirinha no ar… Seus olhos estão com um brilho diferente… Está apaixonada, Afrodite?

(Afrodite suspira e não responde, lançando um leve suspense)

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Em seu quarto e de seus irmãos, Alex está deitado na sua cama velha coberta por um lençol desgastado que cheira a mofo, assim como toda a casa, devido às inúmeras infiltrações que atacam sempre que uma chuvinha cai… Calado e pensativo, Alex, assim como a sua deusa, também pensa naquele beijo. Luís entra sorrateiro e vê o irmão num estado que nunca tinha presenciado em toda a sua vida… Alex se encontra sorrindo para o nada, com os olhos cintilantes.

LUÍS: Você está bem, Alex?

(Alex não ouve nenhuma palavra que seu irmão acaba de falar, somente sonha, lembrando-se do bendito beijo)

LUÍS: Alex?

(E nada dele ouvir, só pensava naquela cena de amor que martelava na sua cabeça; Luís então tem uma ideia e todo sacana e maroto, bate forte a porta, que se fecha num estrondaço, despertando rapidamente o apaixonado que outrora sonhava)

ALEX: Tá maluco, cara? Quer me matar de susto?

(Luís gargalha da “cara de tacho” do irmão)

LUÍS: Você aí, “mermão”, estava boiando na maionese… Tá apaixonado, cara?

Alex não responde, mas um espontâneo sorriso surge em seus lábios, então Luís saca que sim… Seu irmão caçula certamente está apaixonado.

(Luís se enche de orgulho do irmão e como consequência da “contentice”, abraça-o forte, levantando-o do chão, como se ergue um troféu; Os dois riem contentes, com a felicidade de Alex)

LUÍS: E quem é ela?

ALEX: Uma princesa, meu irmão… Uma linda princesa.

(Alex torna a sonhar com Afrodite)

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Voltando ao quarto de Afrodite…

(Afrodite se levanta, querendo contornar a situação)

AFRODITE: Que apaixonada o quê, mamãe?… Que ideia!

(Marieta também se levanta e senta-se à penteadeira, aproveitando para retocar seu pó-de-arroz)

MARIETA: Apaixonada sim, Afrodite, eu conheço os sintomas… Me conte, filha… Você está apaixonada pelo Frederick, não é mesmo?

(Afrodite se espanta com tamanha… “Absurdice”, em sua concepção)

AFRODITE: Quê?!

MARIETA: Eu sabia que isso ia acontecer mais dia ou menos dias… Eu estou tão feliz por vocês! Formam um belíssimo casal vocês dois, umas gracinhas! 

AFRODITE: Mamãe, eu não estou apaixonada pelo Frederick coisa nenhuma. Só o vejo como um amigo… Só como amigo.

(Marieta se levanta e se põe atrás de Afrodite, apoiando suas mãos nos ombros dela)

MARIETA: Pode contar para mim, filha.

(Afrodite se afasta e vai para perto da janela, vê a lua que está tão cheia e tão linda, por sinal) 

AFRODITE: Não gosto, mamãe. Já disse!

MARIETA: Então por que você o convidou para ser seu príncipe na sua festa de debutante? Hein?

AFRODITE: Porque… Porque…

(Afrodite se vira, olhando para Marieta)

AFRODITE: Não sei, mamãe… A senhora me pressionou tanto para convidá-lo, que eu acabei concordando…

MARIETA: Não precisa se envergonhar por estar apaixonada, filhinha… Você já está na idade, já é uma mocinha.

(Marieta abraça Afrodite)

MARIETA: Eu sou de total acordo com o seu romance com o Frederick… Já o seu pai pode encrencar no começo, mas ele também vai gostar, eu tenho certeza… Está bem?

Afrodite se entristece por não contar à mãe que havia beijado um rapaz ao qual mal conhecia… Ainda está confusa, pois não é experiente o suficiente nesses quesitos do coração, portanto, sente-se acuada para revelar pra Marieta, que se apaixonara por um alguém que nem o nome sabe, o seu príncipe quase que desconhecido.

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Como Alex nunca havia ficado assim por menina nenhuma, imediatamente, Luís ficou curioso para saber quem era a “arrebatadora” do coração do irmão.

LUÍS: Quem é a milagrosa que te fez ficar assim, Alex?

(Quando Alex está pronto para falar, Solange e Tânia entram alvoroçadas) 

SOLANGE: Meninos, fora!

ALEX: E por quê? O quarto também é nosso.

LUÍS: É mesmo!

TÂNIA: É que a gente quer se arrumar pro baile… Vocês não vão?

ALEX: Claro que eu vou… Hoje quero é curtir!

(Alex sorri, esbanjando felicidade)

LUÍS: Eu não. Hoje o dia na carpintaria foi puxado… Estou um trapo!

(Luís exclama, deitando-se na cama para descansar)

TÂNIA: Eu só sei que eu vou… Esse baile de hoje promete.

SOLANGE:  (curiosa) Por que, hein?

(Tânia não responde, mas um sorrisinho deixa escapar; Todos captam a mensagem e a caçoam; Juntos, todos riem em tom de brincadeira)

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Enquanto isso, na sala…

(Maria das Dores está de frente pra Maria dos Prazeres, que havia ido buscar seu filho, o Fábio, que foi pra lá depois da escola, juntamente com os primos)

MARIA DAS DORES: Ele só não quis jantar, Prazeres.

FÁBIO: (pensando) Claro, era macarrão com salsicha… Eca!

(Resmunga Fábio, em sua cabeça, já que sente nojo da casa da tia)

MARIA DOS PRAZERES: O Fábio é assim mesmo, difícil pra comer… Só come coisa boa.

(Maria das Dores se constrange com a frase da irmã, que nada lhe agrada)

MARIA DOS PRAZERES: Ah!… Hoje eu encontrei o Bené.

MARIA DAS DORES: Da Graça?

MARIA DAS DORES: É! Nós tomamos até sorvete juntos na praia… Foi muito bom… Que sorvete gostoso!

(Maria dos Prazeres fala com um tom de malícia na voz; Maria das Dores percebe, mas prefere não acreditar que a irmã esteja de olho no cunhado)

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A essa altura, Maria das Graças já está aflita com a demora do marido… Tina e Tico já estão cansados de chegar e acabam por comer o resto do bolo que Graça guardou para o marido.

MARIA DAS GRAÇAS: Ei, esse bolo era pro pai de vocês, crianças!

TICO: Agora já era.

(Tico e Tânia completam-se por se lambuzarem com calda de chocolate)

MARIA DAS GRAÇAS: Deus, onde está esse homem que não chega?

(Preocupada, Maria das Graças anda de um lado para o outro; Bené entra em casa, triste, e Maria das Graças vai logo o abraçando)

MARIA DAS GRAÇAS: Por que você demorou, meu amor? Onde você estava?

BENÉ: Trabalhando.

(Maria das Graças se alivia)

MARIA DAS GRAÇAS: Bem… Eu tinha feito um bolinho pra você, mas as crianças acabaram comendo tudo.

(Tina e Tico, sacanas do jeito que são, acenam para o pai, fazendo carinhas de anjos)

BENÉ: Não tem problema… Vou dormir.

MARIA DAS GRAÇAS: Já?!

BENÉ: Estou cansado, fiz hora extra…

(Bené da uma bitoca em Maria das Graças e beija as testas das crianças)

BENÉ: Boa noite!

TINA E TICO: Boa noite, pai!

(Bené vai para o quarto e Maria das Graças fica preocupada com o marido)

TINA: Ah! Antes que eu me esqueça, mãe… A Tânia deixou a gente vir sozinhos pra casa e disse que ia pro baile hoje.

MARIA DAS GRAÇAS: Ela não é nem maluca de ir pro baile. Eu quebro a perna dela se ela for.

(Tina ri, fantasiando a cena em sua mente)

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Na quadra da Escola de Samba “Acadêmicos do Morro da Paz”, acontece o baile charme mais comentado de toda a cidade…

(Tânia, Solange e Rogéria, uma prima delas, chegam juntas… Já Alex, todo destacado, prefere chegar sozinho para não queimar seu filme, pois suas primas têm a fama de “seguranças do baile”, pois só vão para rir das pessoas enquanto elas dançam, ao invés de aproveitarem o ritmo da dança que era tão envolvente)

ROGÉRIA: Olha aquela cocotinha ali… Que horror! Parece mais uma gansa dançando.

(Tânia, Solange e Rogéria caem na gargalhada; Antônio, mais conhecido como Quinho, avista Tânia e se aproxima dela)

QUINHO: Vamos dançar, Tânia?

(Tânia não consegue responder e Rogéria sacode seu braço para que ela aceite)

QUINHO: Vamos?

(Quinho estende a mão para Tânia, que sorri abobada)

ROGÉRIA: Aceita logo, prima!

(Rogéria cochicha no ouvido de Tânia, que com coragem, dá a mão para Quinho, que sorri olhando nos olhos dela)

SOLANGE:  (surpresa) Você vai dançar, prima?

(Tânia concorda com a cabeça e Solange parece não acreditar; Quinho e Tânia vão para o meio do salão, o DJ põe um disco romântico, eles dançam de rostos colados e logo se beijam; Solange e Rogéria comemoram de longe)

Na outra parte do salão, ao ouvir a música romântica que rola, Alex não consegue parar de tirar Afrodite da cabeça e nem repara que a sua paquera oficial, a Tati, está diante de ti.

TATI: Virou estátua?

ALEX: Oi, Tati, nem te vi aí.

TATI: Estou bonita?

(Tati dá uma rodadinha e Alex aprecia)

ALEX: Está um broto!

(Tati sorri, convencida)

TATI: Vem, vamos dançar!

(Tati puxa Alex para o meio do salão)

ALEX: Desculpa, Tati, mas eu não quero dançar… Desculpa.

(Alex sai do salão, correndo, e deixa Tati ali sozinha)

TATI: O que houve com ele?… Ele nunca rejeitou dançar comigo, até ficava me perturbando…

(Tati mira um bandidinho de meia bola, sem muito “destaque”)

TATI: Ele é que vai perder…

(Tati corre e logo se atira nos braços do bandidinho)

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Alex corre até o pico do morro, aonde o céu parece encostar-se à cabeça de quem ali ia, de tão alto que é… Alex senta-se na beira e admira a lua que está cheia, tão encantadora e aquela cena, adivinhem… Já está novamente a lembrar-se. Nesse momento, Alex pensa “essa é a mina dos meus sonhos”. O amor já é tão grande, mais tão grande que, mesmo assim, cresce cada vez mais e com força total.

ALEX: Como pode… Um namorador nato como eu, que arrebenta a boca do balão com qualquer mina desse morro, me apaixonar por uma que mal conheço? Será momento, ou destino?… Eis a questão!

“Alex reflete sozinho, olhando a bela lua que parece transparecer todo seu amor que já sente por Afrodite. Da alta sacada do seu quarto, Afrodite também admira a lua que a cada instante parece brilhar com mais intensidade e magnitude, atraindo mais e mais o seu “olhar blue” que, cintilante, lembra aquele beijo”.

AFRODITE: Por que essa cena não sai da minha cabeça?…

(Com tantas dúvidas em sua cabeça tão “pura”, Afrodite deita-se em sua cama e abraça fortemente sua boneca de pano que tens desde quando ainda era uma bebezinha de colo)

AFRODITE: Será que estou realmente apaixona… Não, não pode ser, eu nem conheço aquele boy, nem o nome dele eu sei… Mas por que ele me beijou daquela maneira tão imprevista e inesperada? E por que será que eu gostei tanto a ponto de não conseguir mais esquecer?… Por que meu coração está tão abrasado desta maneira?… É algo sobrenatural, surreal… Mágico! Não consigo explicar. Há uma alegria dentro de mim, uma alegria estranha, uma alegria que eu nunca senti em toda a minha vida, nunca mesmo… Será isso a paixão que tanto falam e que tanto eu lia nos contos?… Será?

(Afrodite não entende o que sente, mas dentro de si ela já sabe: Realmente está apaixonada; E com os olhos fulgentes, logo está a tornar-se à cena do beijo que tanto gostara de protagonizar).

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“No baile charme”…

(Tânia e Quinho ainda continuam a se beijar como se não tivesse ninguém e nada ao redor)

SOLANGE: Rogéria, será que eles vão ficar dando “maio” a noite toda?

(Solange e Rogéria continuam a observar de longe)

ROGÉRIA: Ih, deixa os dois serem felizes, Solange… Vamos procurar uns boys pra gente também.

(Rogéria puxa Solange, que se prende à coluna que sustenta o teto do salão)

SOLANGE: Não, meu cabelo nem tá tão bonito… Nem passei laquê direito.

ROGÉRIA: Quer morrer intoxicada, menina? Você gastou quase o laquê todo da Tânia, seu cabelo chega a estar igual um capacete de tão duro e armado que está.

(Solange emburra a cara e dá meia-volta)

ROGÉRIA: Ei, vai pra onde?

SOLANGE: (envergonhada) Pra casa, ué! Meu cabelo não está igual um capacete? Então… Vou enfiar a minha cara num buraco e não sair nunca mais.

ROGÉRIA:Ah, para de neurose, Solange… Seu capacete até que é bonitinho… Quer dizer… Seu cabelo está “SuperCharmoso”, prima, está da hora!

(Solange ri)

ROGÉRIA: Então, vamos aproveitar a noite?

SOLANGE: Vamos!

(Rogéria sorri e puxa Solange pelas mãos para o meio do salão; Rogéria se requebra adoidada e Solange fica com vergonha, mas não consegue soltar-se da prima)

Na outra parte do salão, Tânia e Quinho param de se beijar…

TÂNIA: É tão bom estar aqui com você, Quinho.

QUINHO: Milagre a sua mãe deixar você vir pro baile.

TÂNIA: Ela não deixou… Eu disse que ia dormir na casa da minha tia pra estudar com a Solange.

(Quinho sorri maliciosamente e fixa seus olhos nos olhos de Tânia)

QUINHO: Minha pitchula, vamos dar um fight lá na minha casa?

(Diante de tal convite, Tânia fica sem reação)

QUINHO: Já é ou já era?

(Hesitante, Tânia responde)

TÂNIA: Não sei, Quinho… Acho melhor não… Deixa pra outro dia.

QUINHO: “Péra” aí… Não vai me dizer que você ainda é virgem?

TÂNIA: Virgem? Claro que não… Imagina!

(Tânia tenta disfarçar, mas sua cara já a entrega)

QUINHO: Então quero uma prova de amor.

TÂNIA: Prova de amor?… Que prova de amor?

QUINHO: Uma transa… Um fight bem gostoso lá na minha casa. Rola?

TÂNIA: Quando?

QUINHO: Amanhã.

TÂNIA: Amanhã?! Mas já?

QUINHO: Você me ama, não ama?

TÂNIA: Amo, amo muito.

QUINHO: Então amanhã, de noite, te espero lá na minha casa. Ok?

(Quinho dá uma bitoca em Tânia e depois de uma piscadela, vai embora, deixando-a sozinha no meio do salão)

TÂNIA: Amanhã?… O que eu faço?

(Insegura, Tânia não para de pensar nas palavras do namorado)

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Alex nem espera o baile acabar e já vai pra casa… Luís acorda ao ouvir passos no quarto.

LUÍS: Ué, já voltou, Alex? O baile acabou cedo hoje?

(Luís esfrega os olhos para tentar enxergar melhor o irmão, pois o está vendo como uma miragem embaçada)

ALEX: Eu não esperei terminar… Sai antes e deixei elas por lá mesmo.

(Alex senta-se na cama e tira os sapatos, em seguida, tira a camisa jogando-a pelo canto e deita na cama, onde fica pensativo)

LUÍS: Não esperou o baile acabar?… Que milagre é esse? Você sempre é o último a sair do salão…

ALEX: Não sei o que está acontecendo comigo, estou diferente hoje.

LUÍS: Diferente? Diferente como?

ALEX: Não sei… Até rejeitei a Tati, porque não conseguia tirar a minha deusa do amor da mente.

LUÍS: Isso tudo é amor, meu irmão?

ALEX: Amor? Mas eu nunca senti isso antes, por ninguém… Nem mesmo pela Tati, apesar de já ter rolado com ela.

LUÍS: É porque finalmente você foi flechado pelo cupido do amor.

ALEX: Você sabe muito bem que eu não acredito nessas frescuradas, Luís… Mas que eu estou completamente gamado naquele broto, Ah… Isso eu estou.

(Alex, sorri, fechando os olhos e pensando em Afrodite)

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No dia seguinte na escola…

(Tânia e Solange caminham de braços dados pela calçada em frente ao portão da escola)

SOLANGE: E você vai dar a tal prova de amor pro Quinho, Tânia?

TÂNIA: Não sei… Eu estou com um pouquinho de medo, ainda me sinto insegura. O que você acha?

SOLANGE: Bem… Se fosse eu…

MARIA DAS GRAÇAS: Que bonito, né, Tânia!

(Tânia se assusta ao ouvir a voz da mãe, que se aproxima de mãos dadas com Tina e Tico)

TÂNIA: Mãe, o que a senhora está fazendo aqui?

MARIA DAS GRAÇAS: Vim trazer os seus irmãos.

(Tânia força sorriso, para amenizar o medo)

TÂNIA: Ah… Só pra isso?

MARIA DAS GRAÇAS: Não! Então quer dizer que você foi pro baile ontem? Que bonito…

TINA: Eu falei que ia contar tudo pra mamãe, Tânia… Eu falei.

TÂNIA: Baile?… Que baile?…

MARIA DAS GRAÇAS: Não precisa continuar mentindo, Tânia, a sua tia já confirmou tudo.

(Tânia gela-se da cabeça aos pés)

TÂNIA: Estou encrencada?

(Mesmo sabendo que sim, Tânia teima em perguntar; Tina, com ar de vingança, concorda lentamente com a cabeça, causando uma ira em Tânia, que a ameaça pelo olhar)

MARIA DAS GRAÇAS: Preciso responder mesmo, Tânia?

(Tânia abaixa a cabeça, tentando evitar olhar para a “fera”)

MARIA DAS GRAÇAS: E você, hein, Solange… Foi cúmplice dela, né?

SOLANGE: Ops! Meu ônibus chegou… Tenho que correr, porque hoje tenho que cuidar de uma criança, vou ser babá… Tchauzinho, tia.

(Solange corre e nem sequer olha para trás; O sinal toca e Tânia sente-se salva pelo gongo, literalmente)

TÂNIA: O sinal!… Tenho que ir, mãe. Não posso perder a primeira aula.

(Tânia dá um beijo na bochecha da mãe e vai saindo)

MARIA DAS GRAÇAS: Espere!

(Feito uma estátua, Tânia para sem pestanejar)

MARIA DAS GRAÇAS: Espere seus irmãos… E de hoje você não me escapa. Teremos uma conversa muito séria.

(Tânia vira-se, aproximando da mãe)

TÂNIA: Hoje? Mãe, hoje eu preciso dormir de novo na casa da tia Das Dores… Deixa, vai? Só hoje.

MARIA DAS GRAÇAS: Não, nada disso! Hoje você vai pra casa… E lá conversaremos.

(Tânia fica triste, pois não terá como dar a prova de amor que Quinho tanto quer)

MARIA DAS GRAÇAS: Cuide de seus irmãos com mais cuidado dessa vez… Tchau, meu filhos!

(Tina e Tico abraçam Maria das Graças que vai embora; Tina orgulha-se da tristeza de Tânia)

TINA: Viu, Tânia, você está encrencada… Muito encrencada!

TÂNIA: Ah… Eu te mato, sua pentelha… Te mato!

(Raivosa, Tânia vai para cima de Tina, que sai em disparada pelo corredor; Tânia não consegue esconder sua fúria e num gesto afetuoso, Tico a abraça, tentando acalmá-la; Tânia se derrete pela afabilidade do irmão, beijando demoradamente a sua cabeça)

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(Maria das Graças caminha pela calçada e para no ponto de ônibus)

MARIA DAS GRAÇAS: A Tânia é uma dissimulada mesmo… Como consegue mentir olhando na minha cara? Quem essa menina saiu, cruzes, nem parece filha minha.

MARIA DOS PRAZERES: Falando sozinha, Graça?

(Maria dos Prazeres aparece do nada)

MARIA DAS GRAÇAS: Dos Prazeres, minha irmã querida… Quanto tempo!

(Maria das Graças abraça Maria dos Prazeres, que pelas costas não demostra alegria ao abraçar a irmã)

MARIA DAS GRAÇAS: Como você está? Nunca mais apareceu lá na minha casa…

MARIA DOS PRAZERES: Estou indo… E você? As crianças?

MARIA DAS GRAÇAS: Estamos todos bem, graças a Deus.

(Maria dos Prazeres sorri sem a mínima vontade)

MARIA DOS PRAZERES: E o Bené?

MARIA DAS GRAÇAS: Está bem também… Trabalhando como nunca. Ontem ele chegou tarde da noite em casa, todo quebrado… Pensei até que tivesse acontecido alguma coisa de grave com ele, mas não, ele me garantiu que trabalhou até tarde.

MARIA DOS PRAZERES: Trabalhou até tarde?… Engraçado, porque ontem nós fomos à praia para tomar sorvete de casquinha.

MARIA DAS GRAÇAS: O quê?!

(Maria das Graças fica surpresa com o que a irmã fala)

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No pátio da escola…

Afrodite caminha pelo pátio vazio e aproveita para olhar os trabalhos que estão colados nas paredes… Um cartaz em cor-de-rosa lhe chama a atenção e ela acua para lê-lo.

AFRODITE
Soneto de Luís Vaz de Camões…
“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer”…

ALEX
“[…] É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder”…

(Alex vem ao longe, completando o texto e atraindo a atenção de Afrodite)

AFRODITE: Você?… Eu…

(Alex põe sua mão na boca de Afrodite, fazendo-a calar-se)

ALEX: Não fale nada, não estrague um momento como esse…

(Espontaneamente, Afrodite sorri)

ALEX: Depois do nosso beijo, eu não consegui tirar você da minha cabeça nem por um minuto… Sonhei até contigo, acordei pensando em você, vim pra cá refletindo sobre tudo o que está acontecendo e meu coração, antes de te conhecer eu não acreditava nessas coisas de coração, de amor, mais depois daquela cena tão linda que martela constantemente em meus pensamentos, eu passei acreditar e… Você aceita namorar comigo?

“Pega de surpresa, Afrodite não para de sorrir e nem consegue responder; Ansioso, Alex espera pela resposta”

(A imagem se congela num tom preto-e-branco)

Continua…

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8 thoughts on “Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 02

  1. Camões embalando o romance de Alex e Afrodite. O amor conseguiu transformar o Alex e despertar a Afrodite.

    Tânia não vê o quanto o namoro dele com o Quinho pode prejudicá-la? O amor cega tanto assim?

    Tal mãe, tal filho. Impressionante a maneira como o Fábio e a Prazeres tratam a Das Dores. Enquanto isso, Bené e Das Graças parecem que tão começando a atravessar uma crise no casamento.

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