Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 06

“Encantada com a linda estrela cadente que havia desabado atrás deles, Afrodite se levanta do gramado, tentando procurá-la”…

AFRODITE: Viu, Alex… Que linda a estrela cadente? Eu fiz o meu pedido…

ALEX: Fez, é? E o que você pediu?

(Alex se levanta, se aproximando de Afrodite)

AFRODITE: Não posso contar, senão não se realizará… E você? Fez o seu?

ALEX: Fiz sim… E quer saber? O meu pedido tem a ver com o nosso amor.

(Alex fala, pegando as mãos de Afrodite e olhando profundamente no azul dos seus olhos; Afrodite sorri)

AFRODITE: O meu também… O nosso amor jamais se acabará, ele é eterno! Está escrito nas estrelas.

(Alex e Afrodite olham para o céu e sorriem)

ALEX: Nosso amor é como as estrelas…

(Alex e Afrodite se olham)

ALEX: Lindo e infinito.

(Afrodite sorri, emocionada; Delicadamente, Alex pega na nuca de Afrodite e a beija, carinhosamente; O beijo de Alex e Afrodite é iluminado pela belíssima lua cheia que enfeita o céu, junto das estrelas)

———————————————————————————————————————————————————–

A noite se despede devagar e a doce lua cheia dá lugar ao ardoroso sol que brilha na maior das intensidades…

(Em sua casa, deitado na cama, Quinho desperta aos poucos e se espreguiça ainda bocejando)

QUINHO: Bom dia, minha pitchula!

(Quinho sorri; Quinho desperta de vez e repara que a casa está vazia)

QUINHO: Tânia? Cadê você?

(Quinho levanta e começa a procurá-la pela pequena casa de apenas um cômodo)

QUINHO: (triste) Ela já foi…

(Quinho vê que ao lado da cama tem um papel, então o pega)

QUINHO: O que é isso?

(Quinho cheira e sente o perfume de Tânia; Quinho abre o papel e lê, em pensamento, o que está escrito)

TÂNIA: (voz) “Bom dia, meu amor! Tive que sair às pressas porque senão meus pais poderiam descobrir que não eu havia dormido em casa… Sinto-me completamente realizada, essa foi a noite mais perfeita de toda a minha vida. Confesso que estava me sentindo um pouco insegura, mas você se mostrou um perfeito príncipe. Amei me entregar à você. Beijinhos carinhosos! Tânia.”

(Quinho dobra o papel e sorri, emocionado; Quinho pega o lençol manchado com o sangue de Tânia e o alisa com a mão)

QUINHO: Essa foi a minha melhor noite!

(Quinho cheira o lençol manchando e depois o beija, de olhos fechados)
———————————————————————————————————————————————————–

(Sorrateiramente, Tânia entra em casa pela janela e caminha até o quarto na pontinha dos pés; Tina e Tico dormem tranquilamente e radiante, Tânia tira sua roupa, alisando seu corpo, com a sensação de ainda estar sendo tocada por Quinho; Quando ouve passos se aproximando, Tânia rapidamente veste seu pijama e se joga na cama, fingindo estar dormindo também, assim como os irmãos; Maria das Graças abre a porta e bate palmas)

MARIA DAS GRAÇAS: (gritando) Crianças, acordem! O café já está na mesa.

(Tico e Tina acordam rapidamente e Tânia finge ainda estar dormindo)

MARIA DAS GRAÇAS: Tânia!… Tânia!… TÂNIA!

(Tânia se assusta e por isso, abre os olhos rapidamente)

TÂNIA: Ai, que susto, mãe!

MARIA DAS GRAÇAS: Desmaiou, menina? Você está dormindo desde a tarde de ontem… E por que você não jantou ontem, hein? Fiz o frango que você tanto gosta…

TÂNIA: É… É que… Eu estava sem fome e com muito sono, mãe. Por isso fui dormir cedo.

(Tina a encara, sabendo que tudo era mentira)

MARIA DAS GRAÇAS: Ah, bem… Vamos pra sala, crianças! Eu já coloquei o pão de vocês.

(Tico se anima e sai correndo; Maria das Graças sai logo em seguida)

TINA: Você não dormiu em casa nada, Tânia, que coisa feia… Onde você passou a noite, hein?

TÂNIA: Você só pode estar doida, Tina. Eu passei a noite em casa sim.

(Tânia mente, abrindo seu guarda-roupa e tirando um vestido para fora)

TINA: Não passou não, Tânia… E isso aqui é meu, por não ter contado pra mamãe.

(Tina pega a meia-calça bege de Tânia)

TÂNIA: Ei, a minha meia-calça não!

(Tânia tenta puxar a meia-calça, mas não consegue)

TINA: E essa maquiagem também!

(Tina pega o estojo de maquiagem que está sobre a cabeceira e sai correndo)

TÂNIA: Argh! Essa pirralha me dá nos nervos!

(Tânia fica com raiva e bate a porta; Logo, senta-se na cama e começa a sorri, lembrando com amor a noite que passou com Quinho)
———————————————————————————————————————————————————–

“Mansão dos Smith; Quarto do casal”…

(Ruez está se arrumando em frente ao espelho, enquanto Marieta está sentada à penteadeira passando creme facial)

MARIETA: Vai trabalhar em pleno domingo, meu bem?

RUEZ: Pra você ver, Marieta… Aquela fabrica me consome, nem aos domingos posso ficar livre.

MARIETA: Mas é bom… Assim podemos viver no luxo como estamos acostumados.

RUEZ: Mas eu não pretendo morrer de tanto trabalhar não… Agora que a Afrodite encontrou um namorado à altura, estou pensando em treinar o Alex para no futuro governar a “Master Cars”… Ele tem cacife, deu pra perceber ontem no jantar.

(Marieta para de passar o creme e olha para Ruez, espantado por ouvir tal coisa)

MARIETA: O que fala, Ruez? Aquele… Aquele rapaz mal sabia falar e… E aquelas roupas? Onde já se viu um morador do condomínio “Jardim Atlanta”, que fala inglês e toca de piano, ir se oficializar com a namorada trajando uma calça jeans desbotada e uma camisa polo vermelha? Vermelha, Ruez!… Essa cor que ficou extremamente cafona nele. Aquele garoto parecia ter saído de um subúrbio, isso sim… Não! A cena da lagosta foi a mais patética, nem comentarei por vergonha alheia, faça-me favores! E sem falar da pele dele, né? Ele é moreno, Ruez, certamente deve ter um pezinho na senzala… Ele é quase um… Um negão!

(Ruez morre de rir)

RUEZ: Ai, Marieta! Que exagero… No máximo o Alex é bronzeado do sol, mas negão?

(Ruez gargalha, exageradamente; Marieta se levanta)

MARIETA: Está rindo, Ruez? Pra mim esse alazão é um pangaré, isso sim!… Sinto cheiro de pobreza de longe. Meu faro nunca se confunde, não mesmo… Ruez, esse garoto deve estar querendo enganar a nossa família se passando por rico… Ouça o que estou dizendo.

(Aos poucos, Ruez consegue parar de rir)

RUEZ: Ah, Marieta, você é muito engraçada mesmo… O Alex é um pobre, então? Claro que não, meu amor… Senti confiança nele, ele disse que também quer ser industrial, assim como eu. E além do mais, a nossa princesinha não namoraria um pé rapado, né?

MARIETA: É, até que pode ser… Pra ela ter trocado o Frederick pelo Alex… Então ele deve ser dez vezes mais rico mesmo. Nossa filha não nos daria esse desgosto de namorar um pobretão.

(Ruez sorri)

RUEZ: Agora tenho que ir, querida… O dia será cheio. Tchau!

(Ruez vai para beijar Marieta, que põe a mão na frente)

MARIETA: Cuidado! Vai tirar meu creme.

(Ruez suspira e sai; Marieta senta-se à penteadeira)

MARIETA: A Afrodite nunca trocaria um príncipe como o Frederick por um plebeu esfarrapado… Ou será que trocaria?… Não, não, a minha filha não é boba… Não mesmo!

(Ainda em dúvida, Marieta volta a passar o creme no rosto)
———————————————————————————————————————————————————–

(Em seu quarto, Afrodite está sentada à penteadeira, enquanto Cidinha lhe faz um penteado)

AFRODITE: Ah Cidinha, eu estou tão feliz… Mais tão feliz!

(Afrodite sorri, colocando as mãos no coração)

CIDINHA: Dá pra perceber… E seu namorado, Afrodite, que figura, hein! A lagosta dele voou do prato e caiu na cabeça da Maria… Não consegui segurar o meu riso.

(Cidinha conclui a frase já aos risos)

AFRODITE: Ele ficou com vergonha, coitado, mas foi engraçado mesmo… Independente disso, ele é tão romântico, Cidinha… Eu estou cada vez mais encantada por ele.

(Cidinha sorri)

CIDINHA: Ele também parece muito apaixonado por você… Percebi que os olhos deles brilhavam todas as vezes que ele te olhava. O amor de vocês parece tão bonito…

(Sem nem Cidinha ter terminado o penteado, Afrodite se levanta da cadeira e senta-se na cama)

AFRODITE: Cidinha, ontem aconteceu uma coisa, que eu só tenho coragem de contar pra senhora.

CIDINHA: O quê?

(Pergunta Cidinha, aproximando-se de Afrodite)

AFRODITE: Eu tenho vergonha de falar.

(Timidamente, Afrodite ajunta suas mãos)

CIDINHA: Pode confiar em mim, Afrodite…

(Cidinha põe sua mão sobre as de Afrodite)

AFRODITE: Ontem quando eu levei o Alex para ver o campo florido, o detrás da mansão, nós nos beijamos, mas… No meio do nosso beijo, ele abaixou a alça do meu vestido e passou a mão no meu seio…

(Cidinha fica boquiaberta e se afasta com a mão na boca)

CIDINHA: Afrodite, não me diga que…

AFRODITE: Não, não… Não aconteceu nada!

CIDINHA: (aliviada) Que bom… Mas, o que teve depois?

AFRODITE: Ah… Eu expliquei pra ele que ainda não estava preparada e que quando fosse a hora certa, seria a coisa mais linda das nossas vidas.

CIDINHA: Está certa, minha filha, os homens só pensam nessas coisas mesmo… Ele pelo menos entendeu, né?

AFRODITE: Sim, claro… Ele foi um perfeito cavalheiro, até se desculpou depois… Eu também queria, mas… Ainda sinto-me insegura. O que eu devo fazer, Cidinha?

CIDINHA: Tudo tem o seu tempo certo, Afrodite! Você ainda é uma menininha, que não está preparada para se transformar em mulher… E ele já provou que te ama de verdade, esperando o seu tempo. Não se apresse!

(Afrodite sorri; Cidinha faz cafuné em Afrodite , que saudosa, pensa em Alex)
———————————————————————————————————————————————————–

Em sua humilde casa, Maria das Dores termina mais uma leva de seus doces que faz para vender.

MARIA DAS DORES: Alex, meu filho, leva esses doces na padaria… Eles me contrataram pra fazer os doces de lá… Assim podemos tirar um bom dinheiro no final do mês.

(Contente, Maria das Dores estende o tabuleiro de doces para Alex, que se levanta do sofá correndo para pegá-lo)

ALEX: Levo sim, mãe… Só tem esse?

MARIA DAS DORES: Sim. Os outros eu ainda estou terminando.

(Alex sorri e sai, assoviando; Maria das Dores continua sentada no chão, enrolando uns brigadeiros)

MARIA DAS DORES: Solange! Solange, minha filha!

(Solange aparece)

SOLANGE: Oi, mãe…

MARIA DAS DORES: O seu pai já tomou café pra ir trabalhar?

SOLANGE: Ih, mãe, ele tá dormindo até agora… Acho que não vai trabalhar hoje não, hein… De novo.

MARIA DAS DORES: Deus… Desse jeito esse homem ficará sem emprego.

(Solange volta para o quarto e Maria das Dores fica triste)

———————————————————————————————————————————————————–

“Zona Sul do Rio de Janeiro”…

(Frederick recebe Bruna em sua luxuosa casa)

BRUNA: Frederick, passei aqui para irmos à mansão de Afrodite para ensaiar a valsa.

FREDERICK: Vai na frente, que eu tenho que passar num lugar primeiro.

BRUNA: Que lugar? Se quiser eu posso ir com você.

FREDERICK: Não te interessa aonde eu vou ou não! Você não pode ir comigo… Com licença!

(Frederick põe seus óculos escuros e sai)

BRUNA: Eu hein, parece maluco!

(Bruna não entende nada aquela atitude e sai também)
———————————————————————————————————————————————————–

Sob o sol ardente, Alex desse o morro com o tabuleiro de doces.

(Enquanto Alex caminha em direção à padaria, Piolho surge por trás de ti e tapa a sua boca, o arrasta até o esconderijo de Metralha)

METRALHA: Então aqui está o traidor… Seja bem-vindo vira-casaca.

(Segurando seu fuzil, Metralha se aproxima de Alex, encarando-o cruelmente)

ALEX: Traidor?… Vira-casaca?

METRALHA: Quer dizer que você trocou de lado, né? Tô ‘sabeno’ que você é amiguinho de um gambé aí!

(Alex fica com medo)

ALEX: Não Metralha… Isso não é verdade, não.

PIOLHO: É verdade sim, porque eu vi vocês dois no maior lero ‘onti’ de noite.

ALEX: Não, eu não sou amigo dele não… Ele… Ele só estava me interrogando quando fui visitar a minha namorada.

(Amedrontado, Alex fala com os olhos cheios de lágrimas)

METRALHA: Quem não tá comigo, tá contra mim. Tá entendendo?

(Metralha aponta a arma para Alex, fazendo seu coração acelerar)

METRALHA: Então… Você tá do meu lado ou não tá?

ALEX: Tô, tô…

METRALHA: Pra provar, quero que tu leve um pacote ‘prum’ mauricinho que tá lá em baixo ‘esperano’… Piolho, dá o pacote pra ele.

(Piolho dá o pacote para Alex e toma o tabuleiro de sua mão)

PIOLHO: Aqui patrão… Tem doce pá nois, ó!

(Metralha sorri e come os doces com Piolho e os outros moleques)

ALEX: Não! Esses doces são do trabalho da minha mãe.

METRALHA: Cala a boca e vai logo!

(Metralha empurra Alex com a arma; Alex sai cheio de medo; Metralha e os outros devoram os doces, esfomeadamente)
———————————————————————————————————————————————————–

Tomado completamente pelo medo e pelo desgosto por ter que passar aquilo, Alex desce o morro, correndo, carregando o pacote embaixo do braço.

(Alex gela-se da cabeça aos pés ao ver o policial Almeida conversando com o policial Cardoso)

POLICIAL CARDOSO: Parado aí, rapazinho!

(Policial Cardoso se aproxima de Alex, que para feito estátua)

POLICIAL CARDOSO: O que é isso aí embaixo do seu braço?

(O coração de Alex dispara e suas pernas ficam completamente bambas)

POLICIAL ALMEIDA: É só um livro, Policial Cardoso… Eu já conheço o Alex, ele é meu amigão aqui do morro.

POLICIAL CARDOSO: Livro? Deixa eu ver aqui.

(Alex quase chora e olha para o policial Almeida, que concorda com a cabeça, para ele entregar o pacote para o outro policial)

POLICIAL CARDOSO: Está surdo, rapaz! Me passa esse pacote agora.

(Alex abaixa a cabeça e o policial Cardoso pega o pacote à força; Policial Cardoso abre o pacote, sem cerimônia, vendo que se trata de drogas)

POLICIAL CARDOSO: Então é só livro, né?

(Policial Almeida fica chocado; Ainda de cabeça baixa, Alex chora)

POLICIAL ALMEIDA: Ma… Mas…

POLICIAL CARDOSO: Agora você vai ter o que você merece, seu drogado desgraçado!

(Sem piedade alguma, policial Cardoso bate em Alex covardemente, atraindo a atenção de todos; Afastado, no outro lado da rua, na saída do morro, Frederick tira seus óculos escuros e vê a cena)

FREDERICK: O Alex… Ah, então quer dizer que o Alex é morador do morro e ainda é entregador de drogas?… Muito bom saber disso!

“Frederick põe novamente seus óculos escuros e sorri diabolicamente, se deliciando ao ver Alex apanhar; Inconformados, os moradores do morro formam uma roda em volta, mas nada fazem para acabar com tamanha crueldade… Quanto mais Alex apanha, mas ele tem a certeza de que não quer nunca pertencer a essa vida da vagabundagem”

“Mesmo que injustamente, Alex continua a apanhar de uma forma tão cruel e tão perversa, que o Policial Almeida, que havia se tornado amigo de Alex, chega a chorar de tanta pena que sente dele… Alex nada faz para se defender. Não foge, nem sequer revida e mesmo chorando, continua sofrendo em silêncio… Mais do que os socos que machucam seu corpo, a imoralidade daquele momento faz com que Alex tome uma raiva tão grande, mais tão grande, que em seus olhos lacrimejados, já dá para ver a raiva que ele tomou por policiais, os famosos gambés”

POLICIAL ALMEIDA: Já está bom, policial Cardoso… O moleque já aprendeu a lição.

(Abusando do seu poder, Policial Cardoso nem dá ideia e continua a agredir Alex; Os moradores ficam indignados e Tati sai correndo para avisar Maria das Dores)

Maria das Dores está sentada no chão, tranquilamente, terminando de enrolar seus doces, quando Tati entra desesperada.

TATI: Dona Das Dores! Dona Das Dores!… A senhora não sabe o que tá acontecendo.

MARIA DAS DORES: (preocupada) O quê, Tati?… O que tá acontecendo?

(Maria das Dores já se levanta, nervosa; Ouvindo o alvoroço, Solange aparece e vai para perto da mãe)

SOLANGE: Tati? O que você está fazendo aqui? O Alex não está aqui, ok? Só pra falar.

TATI: Eu vim pra avisar…

(Maria das Dores já parecia pressentir e aflita, põe a mão no coração)

TATI: Pegaram o Alex… E um gambé tá batendo muito nele. Muito mesmo!

MARIA DAS DORES: O quê?! O meu filho…

(Maria das Dores fica tonta e Solange a acode)

SOLANGE: Mãe! A senhora tá bem?

MARIA DAS DORES: O meu filho…

SOLANGE: Eu vou lá, mãe, ver o que tá acontecendo… Vamos, Tati!

(Solange e Tati iam saindo)

MARIA DAS DORES: Espera, Solange!… Chama o Luís lá na carpintaria. Avisa pra ele! Avisa o seu irmão.

(Solange confirma com a cabeça e sai correndo com Tati)

MARIA DAS DORES: Meu filho… Eles não podem fazer nada com o meu filho querido. Não podem!

(Chorando, Maria das Dores vai até o quarto para avisar Carlos o que estava acontecendo)

MARIA DAS DORES: Carlos, o nosso filho… Um polícia pegou o Alex!

(Maria das Dores fala desesperadamente, sacodindo Carlos, para tentar acordá-lo)

MARIA DAS DORESAcorda, Carlos! O nosso filho… Vão matar o Alex lá fora!

(Carlos mal consegue abrir os olhos, pois foi dormir embriagado, como sempre; Maria das Dores desiste de tentar acordá-lo)

MARIA DAS DORES: Você não é um marido, Carlos… É uma cruz!

(Maria das Dores se decepciona com o marido e sai nervosa; Carlos continua dormindo)

———————————————————————————————————————————————————–

“Master Cars”

Com anos de experiência e dedicação, Ruez construiu um império, tocando com muito louvor o engenho que pertencera a seu pai e que, por herança, agora é seu…  Com maestria, Ruez fez da “Master Cars” uma das maiores indústrias automobilísticas do mundo inteiro.

(Em seu luxuoso escritório pessoal, Ruez está sentado à mesa, assinando uns documentos; Verônica, sua secretária, bate duas vezes na porta e entra, portando uns papéis)

VERÔNICA: Bom dia, seu Ruez… Aqui estão os papéis que o senhor me pediu.

RUEZ: Muito obrigado, Verônica!

(Ruez agradece, pegando os papéis; Verônica sorri)

VERÔNICA: Com licença!

(Verônica ia saindo)

RUEZ: Verônica!

(Verônica volta)

VERÔNICA: Sim senhor!…

RUEZ: Verônica, chame o operário… Carlos da Silva aqui, faz favor! Quero saber o porquê de tantas faltas consecutivas.

VERÔNICA: Ih, seu Ruez, pelo jeito ele nem veio trabalhar hoje… Ele não bateu o ponto de presença.

RUEZ: Vou te contar, hein! Demitirei esse vagabundo agora mesmo… Quando esse preguiçoso aparecer, você o manda passar aqui.

VERÔNICA: Pode deixar!… Com licença, seu Ruez! Qualquer coisa é só chamar.

(Ruez sorri e Verônica se retira; Ruez “bufa” e com a cabeça cheia, volta a assinar os documentos)

———————————————————————————————————————————————————–

“De volta ao morro, Alex continua a apanhar”…

(Maria das Dores chega aos prantos e se desespera ao ver o filho naquela situação)

MARIA DAS DORES: Larga o meu filho, seu desgraçado! Larga o meu filho!

(Maria das Dores segura o braço do policial Cardoso, tentando pará-lo, mas ele a empurra longe; Alguns acodem Maria das Dores, levantando-a do chão; Luís chega correndo, seguido de Solange, Tati e Seu Messias, o carpinteiro)

LUÍS: Larga meu irmão, seu covarde… Encara alguém do seu tamanho.

(Luís empurra policial Cardoso, separando-o de Alex; Completamente fraco, Alex cai no chão)

MARIA DAS DORES: Meu filho!…

(Maria das Dores corre para abraçar Alex e beija a sua cabeça, que está ensanguentada, assim como seu coração; Luís e policial Cardoso se encaram)

LUÍS: Se você tocar mais um dedo no meu irmão, eu não sei do que sou capaz…

POLICIAL CARDOSO: Por um acaso isso é uma ameaça? Vai todo muito preso, por desacato à autoridade.

MARIA DAS DORES: O quê?!

POLICIAL CARDOSO: Vamos… Os dois rapazinhos pra viatura. “Vambora” pra delegacia!

MARIA DAS DORES: Você só leva meus filhos por cima do meu cadáver.

(De peito estufado, Maria das Dores enfrenta policial Cardoso)

POLICIAL CARDOSO: Não seja por isso… Vamos a senhora também.

(Policial Cardoso pega forte no braço de Maria das Dores)

MARIA DAS DORES: Ei, me solta… Você está me machucando, seu grosseirão!

(Maria das Dores dá uns tapas no braço do policial)

POLICIAL CARDOSO: Policial Almeida… Traga o drogadinho e o valentão.

(Policial Almeida vai para pegar Luís, que se esquiva)

LUÍS: Pode deixar… Eu vou sozinho.

(Luís vai atrás do policial Cardoso, que arrasta Maria das Dores, contra a vontade dela; Cuidadosamente, Policial Almeida levanta Alex pelo braço)

POLICIAL ALMEIDA: Que decepção, Alex… Pensei que você fosse de bem.

(Como uma faca, aquelas palavras entram no coração de Alex, que deixa uma lágrima cair, escorrendo com o seu sangue; Jubiloso, Frederick vai embora contente)

———————————————————————————————————————————————————–

“Na delegacia”…

(Frente ao delegado, Alex e Maria das Dores estão sentados à mesa, enquanto Luís está atrás de sua mãe, apoiando as mãos na cadeira; Policial Almeida e policial Cardoso estão no fundo da sala; De cabeça baixa, Alex segura-se para não chorar)

DELEGADO BARRETO: Então, você estava portando drogas?

ALEX: Não senhor.

POLICIAL CARDOSO: Claro que estava, delegado Barreto… O flagrei carregando isso aqui.

(Policial Cardoso joga o pacote sobre a mesa; Delegado Barreto abre o pacote e vê alguns cigarros de maconha)

DELEGADO BARRETO: Chupetinha do diabo?… Você ia traficar isso, não ia?

ALEX: Não senhor.

POLICIAL CARDOSO: Claro que ia, delegado Barreto… Ele ia sair do morro com esse troço, certamente ia vender pra alguém… E com a ajuda do policial Almeida que queria acobertá-lo.

(Policial Almeida arregala os olhos e engole a seco)

DELEGADO BARRETO: Isso é verdade, policial Almeida?

POLICIAL ALMEIDA: Eu pensei que isso fosse só um livro, delegado Barreto. Eu já tinha tombado com o Alex ontem, pensei que ele estava carregando drogas, mas quando vi… Era só um livro de romance. Até estranhei, mas…

DELEGADO BARRETO: Está demitido, policial Almeida.

(Policial Almeida fica triste)

POLICIAL ALMEIDA: Demitido? Mas… O senhor não pode me demitir!

(Delegado Barreto ignora policial Almeida e olha para Alex)

DELEGADO BARRETO: E você, rapazinho, vai preso por porte ilegal de drogas.

(Dentro de si, Alex se desespera, mas por fora, seus olhos só lacrimejam; Maria das Dores e Luís ficam nervosos)

MARIA DAS DORES: Preso? Como assim? O meu filho não pode ir preso… Ele não é bandido.

DELEGADO BARRETO: Minha senhora, o seu filho foi pego em flagrante com porte ilegal de drogas… Ele vai ter que ir preso.

(Os olhos de Maria das Dores enchem de tristeza e então, ela olha para Alex)

MARIA DAS DORES: Alex, meu filho… Eu sei que você não é bandido… Por que você estava com esse troço?

(Maria das Dores alisa o rosto de Alex, que se segura para não chorar)

LUÍS: Seu delegado, o meu irmão é inocente… Ele é estudante da escola “San Miguez”, ele nunca se prestaria a isso.

DELEGADO BARRETO: Pensasse antes de andar por aí com essas coisas… Carcereiro!

(Delegado Barreto acena para o carcereiro, que se aproxima)

DELEGADO BARRETO: Leva o meliante para a cela.

(Com brutalidade, o carcereiro pega as mãos de Alex e as algema; Maria das Dores chora; O carcereiro leva Alex, que chorando, sai olhando para a mãe e o irmão que ali sofrem)

MARIA DAS DORES: Meu filho!…

(Chorando, Maria das Dores estende a mão para a porta, como se quisesse tocar Alex pela última vez)

———————————————————————————————————————————————————–

(Em sua casa, Maria das Graças está falando ao telefone; Bené e os filhos demonstram preocupação)

MARIA DAS GRAÇAS: (triste) Sim, minha irmã querida… Pode deixar! Eu falo com um advogado… Vai dar tudo certo, Das Dores, nunca perca a sua fé… Fique bem, tá? Beijos!

(Pálida, Maria das Graças bate o telefone)

BENÉ: O que houve, Graça?

TÂNIA: Mãe, a senhora tá pálida… E pra que a senhora vai falar com um advogado?

(Maria das Graças começa a suar de nervoso e se abana com a mão)

MARIA DAS GRAÇAS: Ai… Pega meu comprimido lá na cozinha, por favor!

TÂNIA: Tina, vai lá!

TINA: Ah não, nem vem… Ela mandou você ir.

(Tina se nega, indo sentar-se ao lado de Maria das Graças, lhe dando o braço; Tânia olha Tina com cara feia; Tina dá língua para Tânia, que vai até a cozinha, emburrada; Maria das Graças começa a respirar com dificuldades e Tânia volta correndo, trazendo um copo d’água e uma cartela de comprimidos)

TÂNIA: Aqui está, mãe…

(Maria das Graças engole o comprimido, sem nem beber a água)

BENÉ: Graça, quer que eu te leve ao médico? Você não está bem.

MARIA DAS GRAÇAS: Não… Eu estou assim porque… Porque… Porque o Alex foi preso.

(Todos ficam surpresos)

BENÉ: Preso?!

TÂNIA: Como assim, mãe? O Alex é um garoto de bem… Ele foi preso por quê?

MARIA DAS GRAÇAS: Não sei, parece que viram ele com droga… Bené, vê um advogado aí, homem. Precisamos tirar o nosso afilhado daquele lugar.

BENÉ: Advogado?… Ah, eu conheço um muito bom. Vou ligar pra ele agora mesmo.

(Bené corre até o telefone e disca um número; Tânia, Tina e Tico abraçam Maria das Graças, que desaba a chorar)

———————————————————————————————————————————————————–

“Mansão dos Smith; Salão”…

O Salão é enorme e bastante arejado pelas grandes janelas que permitem a entrada dos luminosos raios do sol… O chão é de piso de madeira e as paredes são cobertas de espelhos bem polidos.

(Sozinha, Bruna está sentada no chão)

BRUNA: Ai, que demora…

(Bruna se levanta e caminha de um lado para o outro)

FREDERICK: Com licença…

(Frederick fala, entrando)

BRUNA: Finalmente, pensei que você não viria mais.

FREDERICK: E a Afrodite?

AFRODITE: Disse que já vem… Está acabando de se arrumar.

FREDERICK: Ah, melhor assim… Você não sabe o que eu descobri.

BRUNA: O quê?

(Quando Frederick ia responder, Afrodite chega)

AFRODITE: Demorei?

(Curiosa para saber o que Frederick tinha a contar, Bruna não gosta de ver a amiga)

FREDERICK: Imagina… Como você está linda, Afrodite!… Parece uma princesa!

(Frederick pega a mão de Afrodite, que agradece, levantando um pouco a barra da saia)

BRUNA: Bom, já que está todo mundo aqui, vamos ensaiar, né? Eu estava pensando… Como a festa vai ser aqui mesmo, acho melhor vocês não começarem já dançando. O Frederick vai está sentado ali e você, Afrodite, vai entrar, andando lentamente até encontrá-lo. Entendeu?

AFRODITE: Uhum!

BRUNA: Agora… Afrodite, fique ali no canto, enquanto eu danço com o Frederick pra você ver os passos, ok?

(Afrodite sorri e senta-se no canto da sala; Frederick e Bruna começam a dançar e Afrodite os observa; Frederick e Bruna começam a cochichar um com o outro)

BRUNA: O que você ia me falar?

FREDERICK: A Afrodite está namorando um favelado… O Alex mora na favela. Não é demais?

BRUNA: E como você sabe disso?

FREDERICK: Isso não vem ao caso, mas com esse trunfo em mãos, eu posso separá-los e conquistar a Afrodite de vez… Você me ajuda?

(Bruna olha para Afrodite e depois retorna o olhar para Frederick)

BRUNA: Pode contar comigo!

(Bruna sussurra no ouvido de Frederick, que sorri; Olhando-os dançar, Afrodite fecha os olhos e romântica, se imagina dançando com Alex)

———————————————————————————————————————————————————–

Três dias e três noites se passam e finalmente Alex é liberto, com a ajuda do jovem e competente advogado doutor Augusto Ferrari.

(Alex, abraçado com Maria das Dores e Maria das Graças, Carlos, Bené, Luís e Augusto saem da delegacia)

ALEX: Livre! Finalmente… Muito obrigado, tia, se não fosse a senhora…

(Alex abraça fortemente Maria das Graças)

MARIA DAS GRAÇAS: Agora vê se anda direito, hein, Alex… Mas eu ainda não entendi porque você não contou a verdade ao delegado.

LUÍS: Eu queria contar tudo e acabar com a raça daquele Metralha, mas o Alex me implorou para não contar.

ALEX: Se eu abrisse o bico, o Metralha acabaria com a gente… Nem sei a desgraça que poderia ser.

AUGUSTO: Eu entendo o seu medo, Alex, mas você agora, a partir de hoje, terá que andar na linha… Está fichado na polícia não é brincadeira não, hein.

ALEX: Muito obrigado, doutor… Agradeço muito ao senhor.

(Feliz, Alex aperta a mão de Augusto, que sorri)

MARIA DAS GRAÇAS: O doutor Augusto é muito competente mesmo… Doutor Augusto, você não gostaria de qualquer dia ir tomar um café lá em casa não? Eu poderia te apresentar a minha filha mais velha, a Tânia, ela é uma moça muito bonita e prendada, sabe?

(Augusto fica encabulado e todos riem em tom de brincadeira)

———————————————————————————————————————————————————–

Já em casa, Alex e a família estão felizes na sala.

ALEX: Ah… Como é bom estar em casa novamente!

(Alex exclama, deitando-se no sofá; Maria das Dores sorri, alisando as pernas de Alex; Metralha aparece do nada)

METRALHA: Noite boa…

(Todos se assustam)

LUÍS: Sai da minha casa, seu desgraçado… Você quase desgraçou com a vida do meu irmão, seu infeliz.

(Luís vai para cima de Metralha, mas é impedido por Solange)

METRALHA: Eu quero me desculpar…

(Todos se surpreendem)

MARIA DAS DORES: Hã?!

METRALHA: Alex… Podemos conversar um pouco ali fora?

(Maria das Dores pega no braço de Alex, que confirma com a cabeça, olhando para Metralha)

———————————————————————————————————————————————————–

(Metralha e Alex chegam ao pico do morro)

ALEX: Então, Metralha… O que você quer?

METRALHA: Pô, menó… ‘Tô sabeno’ que você foi preso e não me denunciou… ‘Brigadão’ ‘mermo’, do fundo do meu coração!

(Alex suspira, inconformado)

METRALHA: Isso mostra que tu tem cacife pra vida, porque um comparsa nunca entrega o outro. Alex, quando eu morrer… Esse morro vai ser teu.

(Alex fica surpreso)

ALEX: Hã? O quê? Eu…

METRALHA: Alex, eu te prometo esse morro. Eu só saio daqui morto e quando esse dia chegar, você vai ficar no meu lugar… E aí? Vai querer?

“Metralha sorri para Alex, que desvia o olhar confuso com aquilo tudo”

(A imagem se congela num tom preto-e-branco)

Continua...

Anúncios

7 thoughts on “Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 06

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s