Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 10

“Afrodite está em estado de deslumbramento, completamente radiante com a notícia de que se tornará mãe… Mesmo tão jovem e despreparada, essa notícia tão suntuosa, veio em melhor hora… Veio com a missão de lhe trazer a felicidade de volta”

AFRODITE
Grávida… Eu estou grávida!

(Emocionada, Afrodite sorri, alisando e olhando para a sua barriga)

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“Mansão dos Smith – Quarto de Afrodite”

(Sorrindo, Afrodite está sentada na cama; Cidinha se levanta boquiaberta)

CIDINHA (surpresa)
Grávida?!

AFRODITE
Uhum!

(Alegre, Afrodite concorda com a cabeça)

AFRODITE
Ai, Cidinha, eu estou tão feliz… Quando eu recebi a notícia parece que a felicidade transbordou dentro do meu coração… Essa notícia foi como uma linda melodia para os meus ouvidos… Pena que o Alex não está mais comigo para compartilharmos essa alegria tão grande…

(Triste, Afrodite abaixa a cabeça e põe a mão na barriga)

CIDINHA (preocupada)
E você não vai contar pra ele?

AFRODITE
Ah… Ele é o pai, né? Ele merece saber…

(Emburrada, Marieta entra e bate a porta fortemente, extravasando toda a sua raiva; Afrodite e Cidinha se assustam e olham para Marieta)

MARIETA
É claro que aquele favelado não vai saber de nada.

AFRODITE
Mas, mãe… Ele é o pai da criança.

MARIETA
Ele não vai saber de nada… Ele e nem ninguém.

AFRODITE
Hã? Como assim, mamãe?… Mais dias ou menos dias a minha barriga vai começar a crescer e a gravidez ficará evidente.

(Raivosa, Marieta suspira, não querendo responder)

MARIETA
Cidinha… Saia!

(Marieta aponta seu dedo para a porta, expulsando Cidinha)

CIDINHA
Sim senhora!

(Submissa, Cidinha abaixa a cabeça e ia saindo)

MARIETA
Bico calado, hein, Cidinha… Se esse assunto sair daqui, você já sabe, né?… E mande a Maria dos Prazeres me trazer um chá.

CIDINHA
Sim senhora! Pode deixar, dona Marieta, guardarei isso em segredo a sete chaves.

MARIETA
Acho bom… Agora saia daqui, sua mexeriqueira!

CIDINHA
Com licença!

(Triste, Cidinha olha para Afrodite e sai; Marieta encara Afrodite, que se entristece)

MARIETA
Afrodite, como você me explica isso? Como você apareceu grávida do nada?… Ah, foi naquele dia, né? Mas é claro! O dia da sua festa, que você desapareceu… E a Cidinha já sabia de tudo, por isso te deu cobertura. Não foi?

AFRODITE
Não! A Cidinha não sabia de nada… Não foi nada planejado, simplesmente aconteceu…

(Com olhar saudoso, Afrodite sorri)

MARIETA
Aconteceu?… E como ficará a nossa família carregando essa vergonha? E o seu pai, Afrodite? O Ruez será capaz de matar vocês dois quando ficar sabendo… Afrodite, você não vai ter esse bebê.

(Afrodite se assusta com as palavras da mãe e um arrepio tenebroso invade a sua alma)

AFRODITE
O que a senhora fala, mamãe? Eu vou ter meu filho sim e ainda vou contar para o Alex… Ele é o amor da mim vida e junto criaremos a nossa criancinha que nascer.

(Sorrindo, Afrodite alisa a barriga, olhando para ela)

MARIETA
Só por cima do meu cadáver, Afrodite… Você vai fazer é um aborto! Eu não serei avó de faveladinho nenhum, nunca!… Minha filha, você ainda é nova, tem uma vida inteira pela frente… Se você ter essa criança agora, acabará com o seu corpo, você ficará feia… E além do mais, esse… Bastardinho seria a vergonha da nossa família e tiraria todo o nosso prestígio diante a sociedade.

(Afrodite não acredita no que ouviu de sua própria mãe e a olha com cara de reprovação)

AFRODITE
Como pode ser tão fria, mamãe?… Como a senhora tem a imprudência de me pedir uma coisa dessas?… Não faria aborto algum. Criarei meu filho, a senhora querendo ou não querendo.

(Afrodite e Marieta se olham, emburradas)

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(Maria dos Prazeres que traz o chá sobre a bandeja de prata, ouve tudo e fica perplexa)

MARIA DOS PRAZERES
Grávida?!… Mas não pode ser! Se a Afrodite está gravida, então o meu plano de casar o Fábio com ela irá por água a baixo… Eu não posso deixar isso barato. E não vou!

(Tomada pelo ódio, Maria dos Prazeres volta e desce as escadas, apressada)

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(Contentes, Frederick e Bruna se afastam de um forte abraço)

FREDERICK
Bruna, deu mais certo do que nunca… A Afrodite está odiando o Alex.

BRUNA
Não te falei? Esse plano é infalível… A Afrodite nunca mais vai querer saber daquele faveladinho de novo.

(Frederick e Bruna riem)

BRUNA
E aí? Ela gostou da surpresa? Ela aceitou?

FREDERICK
Não! Disse que não quer saber do estrelato e que não quer de jeito nenhum ser modelo.

BRUNA
Ai, como a Afrodite é burra… Ela tem um mundo nas mãos, mas… Ai, que raiva!

FREDERICK
É… Mas aconteceu uma coisa muito estranha quando eu estava lá com ela.

BRUNA (curiosa)
Que coisa?

FREDERICK
Do nada a Afrodite desmaiou e foi lavada às pressas para o hospital.

BRUNA
Desmaiou? Ela está doente?

FREDERICK
Não sei… A dona Marieta não me deixou acompanhá-la ao hospital. Depois farei uma visitinha a ela.

BRUNA (desconfiada)
A Afrodite desmaiou?… Então só pode ser uma coisa…

FREDERICK
O quê?

BRUNA
Nada de mais, deve ter sido só fraqueza mesmo… Frederick, você gosta muito da Afrodite, né?

(Bruna olha no fundo dos olhos de Frederick)

FREDERICK
Gosto… A Afrodite é a princesa da minha vida. A menina que eu sonho ter ao meu lado para sempre.

(Bruna esconde a sua tristeza a ouvir tal declaração e sorri para Frederick, que retribui)

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“Mansão dos Smith – Sala”

(Afrodite está sentada no sofá; Marieta aparece e senta-se ao lado da filha, encarando-a cruelmente; Maria dos Prazeres traz a bandeja e Marieta pega uma das duas taças)

MARIETA
Não vai pegar a taça, Afrodite?… O chá irá esfriar!

(Depois de assoprar, Marieta bebe)

AFRODITE
Não, eu não quero chá.

MARIA DOS PRAZERES
Beba, Afrodite… Fiz especialmente para você.

(Maria dos Prazeres fala com um sorriso malicioso nos lábios e Marieta a olha, desconfiada; Desanimada, Afrodite pega a taça e enquanto ela bebe, Maria dos Prazeres a olha, maquiavelicamente; Afrodite acaba de beber e faz uma expressão de dor, causando estranhamento em Marieta que para de beber e a olha)

MARIETA
O que foi, Afrodite? Que cara é essa, minha filha?… O chá que a lesma fez está tão ruim assim?

(Marieta ri, voltando a beber)

AFRODITE
Ai!

(Afrodite começa a gritar de dor, se contorcendo e abraçando a barriga; O sangue escarlate de Afrodite mancha todo o sofá, causando desespero em Marieta)

MARIETA
Afrodite, minha filha!…

(Afrodite chora)

AFRODITE
Ai, mamãe… Ai!… Eu acho… Eu acho que estou perdendo o meu bebê… Aiiiii!

(Chorando muito, Afrodite continua gritando de dor; Marieta fica sem reação, ao presenciar tal cena; Maria dos Prazeres sorri, deliciando-se com essa situação; Ao ouvir a gritaria, todos os empregados aparecem, ficam assustados e dão assistência a Afrodite; Cidinha chora ao ver Afrodite sofrendo)

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“Hospital”

(Com lágrima nos olhos, Afrodite está deitada na cama e Marieta está em pé, segurando a sua mão; O médico entra, aparentando tristeza)

DOUTOR
Trago má notícias…

AFRODITE
Pode falar, doutor… Eu perdi o meu filho. Não foi?

(O doutor suspira, olha para Marieta e em seguida para Afrodite)

DOUTOR
Infelizmente sim.

(Marieta fica boquiaberta e Afrodite chorando, pergunta)

AFRODITE
Mas por que, doutor?

DOUTOR
Me parece um aborto proposital, pois você não teve nenhuma queda, nada de involuntário que te faria perder a criança… Você comeu ou bebeu alguma coisa muito forte?

AFRODITE
Coisa forte?…

(Marieta faz cara de pensativa)

MARIETA
O chá… Sim! Foi o chá que a incompetente da minha empregada fez para ela, doutor. Um chá fortíssimo de pau-de-canela.

(Afrodite não entende)

AFRODITE
Mas… O que tem o chá?

DOUTOR
O chá de canela, forte ou em excesso, é restritamente proibido para gestantes, pois acelera a menstruação, limpando assim, todo o útero da grávida… Onde acontece a perda do feto… O que a sua empregada fez foi muito errado.

(Afrodite fica chocada)

MARIETA
Ah, mas ela vai pagar… Pagar muito caro por isso!

(Ao presenciar todo o sofrimento da filha, Marieta fica com ódio da empregada, mesmo aliviada com a possibilidade de não ter mais um neto indesejado)

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Afrodite precisará ficar no hospital por mais um dia para fazer a curetagem.

(Triste, Marieta chega à mansão e preocupada, Cidinha se aproxima dela)

CIDINHA
E a Afrodite, dona Marieta? A Afrodite está bem?

(Marieta nem dá atenção e caminha em direção à cozinha)

MARIETA (gritando)
Maria! Maria!

(Correndo, Maria dos Prazeres aparece)

MARIA DOS PRAZERES
Pois não, senhora!

(Marieta dá um tapa na cara de Maria dos Prazeres, que a olha sem entender)

MARIA DOS PRAZERES
O que foi isso, dona Marieta? Por que a senhora me agrediu?… Eu posso processá-la, sabia?

MARIETA
Eu é quem vou te processar, sua lesma… Você abortou a minha filha com aquele chá.

MARIA DOS PRAZERES 
Não, eu não fiz nada… Eu faço o chá como sempre.

MARIETA
Não seja sonsa, sua… Imprestável! Você vai presa… Você vai presa! Vai morrer na cadeia, por ter tentado matar a minha filha.

MARIA DOS PRAZERES
Mas bem que a senhora ficou feliz, né? Já que não queria um neto bastardo.

(Marieta fica desconcertada e Maria dos Prazeres gargalha; Cidinha fica perplexa olhando a cena; Ruez chega nervoso e taca a sua maleta sobre o sofá e se aproxima de Marieta)

RUEZ
O que houve, Marieta? O que aconteceu com a nossa princesinha?

MARIETA
Ah, Ruez… Aconteceu uma coisa horrível, horrível… Eu não gosto nem de falar.

(Marieta abraça Ruez e chora)

MARIETA
A nossa filha sofreu… Um aborto.

(Surpreso, Ruez se afasta do abraço)

RUEZ
O quê?! A Afrodite…

MARIETA
Sim, ela estava grávida daquele faveladinho e a imprestável da Maria dos Prazeres lhe deu um chá abortivo.

(Ruez fica triste e parece não acreditar)

RUEZ
Não pode ser… A minha filhinha…

(Ruez fica triste e com os olhos lacrimejantes, olha para Maria dos Prazeres)

RUEZ
Você vai pagar, Maria dos Prazeres… Vai pagar… Mexeu com a minha filha mexeu comigo.

(Ruez pega no braço de Maria dos Prazeres, apertando-o forte)

MARIA DOS PRAZERES
Eu não tenho culpa, seu Ruez… Eu juro!

(Maria dos Prazeres tenta se soltar, mas Ruez é mais forte; Com olhar misericordioso, Maria dos Prazeres encara Ruez, que continua sério)

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“Delegacia”

(As grades se fecham e Maria dos Prazeres se desespera)

MARIA DOS PRAZERES
Não, eu não posso fica aqui… Eu não fiz nada, eu não fiz nada!

(Chorando, Maria dos Prazeres anda de um lado para o outro; Bené e Fábio chegam tristes e se aproximam da grade)

MARIA DOS PRAZERES
Vocês?

(Maria dos Prazeres se alegra, um sorriso brota em seu rosto e ela se aproxima da grade)

MARIA DOS PRAZERES
Que bom que vocês vieram… Me tirem daqui! Eu não posso ficar aqui, não posso!

(Por entre as grades, Maria dos Prazeres alisa a cabeça de Fábio, que deixa uma lágrima cair)

BENÉ
Eu vou tentar te tirar daqui, Prazeres, falarei com o doutor Augusto, o meu amigo advogado… Eu sei que não foi você que fez aquela crueldade, eu acredito em você.

MARIA DOS PRAZERES
Que bom, Bené… É por isso que eu te amo.

(Quase que impedidos pelas grades, Maria dos Prazeres e Bené se beijam; As outras presidiárias ficam a olhar)

CARCEREIRA
Ei, acabou!… Acabou! Os dois senhores para fora, acabou!

(Seguida da carcereira, Bené e Fábio saem olhando para Maria dos Prazeres que fica chorando; A “Sapatão”, a presidiária mais perigosa da cela, dá uma piscadela para Maria dos Prazeres, que temerosa, desvia o olhar)

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Algum tempo se passa e Afrodite cai num mundo de amarguras, entrando em profunda depressão...

(Deitada em sua cama, Afrodite está chorando muito, abraçada ao travesseiro; Lentamente, Cidinha entra e se aproxima de Afrodite)

CIDINHA
Ainda chorando, minha menininha?… Já começou “Ti Ti Ti”, não vai assistir?

AFRODITE
Estou sem vontade.

(Afrodite fala, assoando o nariz com seu lencinho)

CIDINHA
E vai perder as aventuras e trapalhadas de Jacques Leclair e Victor Valentim? Você não perdeu nenhum capítulo e agora só vive nesse quarto, chorando…

AFRODITE
Perdi a vontade de viver, Cidinha… Com toda essa dor que carrego dentro de mim, preferiria a morte.

CIDINHA
Credo em Cruz, não fale isso, minha filha… Nem de brincadeira.

(Ao se benzer, Cidinha fala, sentando-se na beirada da cama e fazendo cafuné em Afrodite)

AFRODITE
Como posso ser feliz assim, Cidinha? Perdi meu filho e nunca mais poderei ser mãe outra vez…

(Com suas mãos, Cidinha seca as lágrimas de Afrodite)

CIDINHA
Sabe, Afrodite? Eu também nunca pude ser mãe… Também era amargurada com a vida, só vivia pra baixo, aí a vida me presenteou com uma linda menininha que hoje é como se fosse uma filha para mim. E você sabe quem é essa menininha? Sabe?… Essa menininha é você! A minha filha do coração.

(Um agradável e tímido sorriso incide no rosto de Afrodite)

CIDINHA
Eu sei que você está sofrendo, mas… Você não pode viver assim, você deve seguir em frente, sempre com a mesma alegria que você tem… A criança que você estava esperando se foi, eu sei que foi uma crueldade, mas… Quem sabe um dia a vida não te presenteie assim como fez comigo? Então, Afrodite, tenha força, ânimo, supera essa dor… Você ainda tem muito o que viver, minha filha… Você ainda tem muito que ser… Feliz!

AFRODITE
Feliz?

CIDINHA
Sim!… Feliz! Todos nós merecemos a felicidade.

(Afrodite seca as suas lágrimas e sorri, revigorada)

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“Escola San Miguez”

(Já é passado um certo tempo; Frederick está de costas, olhando para a A.A.A (A Árvore do Amor) e Afrodite se aproxima)

AFRODITE
Frederick!

(Frederick sorri e se vira, abraçando Afrodite)

FREDERICK
Afrodite, que bom que você já está melhor… Está até mais bonita!

(Acanhada, Afrodite sorri)

AFRODITE
Fico grata… Frederick, eu queria te falar que pensei na proposta que você me fez.

FREDERICK
Então…?

(Sorridente, Frederick assim pergunta)

AFRODITE
Eu pensei bem e… Eu vou participar da seleção para ser modelo e ir embora do país.

FREDERICK (contente)
Ah, Afrodite, que notícia maravilhosa…

“Frederick percebe que Alex se aproxima e beija Afrodite, inesperadamente… Alex fica triste, ao ver o beijo e deixa uma lágrima cair acreditando, assim, ter perdido definitivamente o grande amor da sua vida, a sua deusa do amor”

“Ao ver Afrodite sendo beijada por Frederick, Alex enche-se de tristeza, pois agora passa a ter certeza de que aquele romance tão jurado de amor eternal, havia se acabado de vez… Completamente com seu coração dilacerado, ele seca suas lágrimas e sai, emburrado”

(Depois de muito relutar, Afrodite consegue se afastar do beijo e limpa a boca com a mão)

AFRODITE
Frederick, por que você fez isso?

(Afrodite fica sem jeito e Frederick sorri)

FREDERICK
Desculpa, Afrodite… Eu não resisti!… Isso não mais acontecerá, eu prometo.

AFRODITE
Assim espero, Frederick… Não quero que confunda as coisas!

FREDERICK
Ok!

(Radiante, Frederick sorri para Afrodite, que continua séria)

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(Voltando da casa de Quinho, apressada, Tânia esbarra em Alex, que nem se desculpa e sai correndo, chorando)

TÂNIA
Alex?

(Tânia não entende o jeito estranho do primo; Parados em frente ao portão da escola, Tina e Tico esperam impacientes por Tânia)

TINA
Ai, cadê a Tânia?… Eu vou contar pra mamãe que ela…

(Correndo, Tânia aparece e para na frente dos irmãos)

TÂNIA
Vamos, crianças?

TINA
Eu já falei que não sou criança, que saco! E onde você estava, hein, Tânia?

TÂNIA (mentindo)
É… Eu… Eu… Eu estava… Estava na papelaria.

TINA
E o que você foi fazer na papelaria, hein?

TÂNIA
O que eu fui fazer na papelaria, oras? Eu fui… Fui comprar uma caneta nova… Ih, Tina, chega de perguntas e vamos logo.

TINA (desconfiada)
Saiba que essa história está muito estranha, Tânia… Muito estranha!

TÂNIA
Vamos logo pra casa, antes que fique tarde.

(Tânia fica nervosa e puxa os irmãos, até o ponto de ônibus)

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(Afrodite se incomoda com os olhares e sorrisos apaixonados de Frederick)

AFRODITE
Eu vou-me embora… Já está tarde. O meu motorista já deve ter chegado.

(Afrodite ia saindo, mas Frederick a segura pelo braço)

FREDERICK
Posso acompanhá-la até o portão, pelo menos?

(Mesmo triste, Afrodite sorri e concorda com a cabeça; Frederick retribui o sorriso e caminha com Afrodite; Bruna aparece)

BRUNA
Ah, vocês estavam juntos?

(Confusos, Afrodite e Frederick se entreolham)

FREDERICK
Estávamos… Por que, Bruna?

BRUNA
Nada… Ah, agora sei por que o Alex foi embora daquela maneira tão estranha.

AFRODITE
O Alex?

BRUNA
Sim… Ele sai correndo e chorando. Parecia atordoado.

(Afrodite fica triste e Frederick sorri)

FREDERICK (alegre)
Então ele viu o beijo… Yes!

(Bruna fica boquiaberta)

BRUNA (surpresa)
Vocês se beijaram?

AFRODITE
Não, tudo não passou de um mal entendido… O Alex entendeu tudo errado.

(Os olhos de Afrodite marejam e ela sai correndo)

FREDERICK (gritando)
Afrodite!

(Frederick ia atrás de Afrodite, mas Bruna o impede)

BRUNA
Calma, Frederick! Calma! Será que eu tenho que pensar em tudo?… Eu sabia muito bem que vocês estavam conversando aqui atrás e que certamente você iria beijar a Afrodite… Por isso mandei o Alex vir até aqui para flagrá-los… Entendeu? Agora é o Alex que não vai querer mais nada com a Afrodite, sabe por quê? Primeiro: Porque ela desconfiou dele, lá no lance do colar… E segundo: Depois desse beijo, ele passará a achar que vocês estão de compromisso… Não foi um plano em tanto?

(Bruna sorri maliciosamente para Frederick, que vai sorrindo aos poucos)

FREDERICK
Bruna, Bruna… Você é uma gênia!

(Empolgado, Frederick abraça Bruna, que se derrete toda, sorrindo com um brilho no olhar)

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(Correndo, Afrodite sai da escola, perguntando por Alex para todos, mas ninguém sabe lhe responder; Triste, Afrodite para na frente do portão da escola; Adamastor chega e buzina, atraindo a atenção de Afrodite, que corre até o carro)

AFRODITE
Seu Adamastor, você sabe aonde o Alex mora?

ADAMASTOR
Sei sim… Ele mora no Morro da Paz. Por quê?

AFRODITE
Me leve para lá agora mesmo.

(Afrodite fala, já entrando no carro)

ADAMASTOR
Perdoe-me, senhorita Afrodite, mas eu não posso… O seu pai ficaria uma fera.

AFRODITE
Seu Adamastor, eu estou mandando… Por favor!

ADAMASTOR
Desculpa, Afrodite, mas eu realmente não posso… O seu pai proibiu que você se aproximasse do Alex uma vez e eu não quero mais decepcioná-lo, visto que quase perdi o meu emprego quando resolvi ajudá-los. Esqueceu?

AFRODITE
Por favor, Adamastor… Isso depende muito da minha felicidade! Eu preciso falar com o Alex, antes que todo o nosso amor desfaleça de vez… Me leve até a casa dele. Por favor!

(Afrodite implora com os olhos tristonhos; Adamastor fica com pena e acaba cedendo)

ADAMASTOR
Está bem, Afrodite… Se isso depende tanto da sua felicidade, eu te levo até lá. Mas os seus pais não podem nem desconfiar.

(Contente, Afrodite sorri e beija as bochechas de Adamastor, agradecendo-o; Mesmo sabendo que está errado, Adamastor fica feliz ao poder ajudar; Esperançosa, Afrodite sorri alegremente, ajeitando-se no banco traseiro do carro)

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“Morro da Paz”

A noite vai findando-se lentamente e o céu vai escurecendo vagarosamente.

(Sem esperanças e completamente triste com a vida, Alex chega ao morro e vai até o esconderijo de Metralha, que se assusta, apontando-o um fuzil)

METRALHA
Ah, é você, menó?

(Metralha abaixa a arma)

ALEX
O Piolho e os moleques me deixaram entrar.

METRALHA
Hum… E aí? Qual é que tu manda?

(Alex suspira, tomando coragem para falar)

ALEX
Lembra-se daquele dia que você me prometeu o morro?… Então… Eu vim para falar que aceito.

(Feliz, Metralha sorri e dá um vigoroso abraço em Alex)

METRALHA
Agora assim, rapá, sabia que tu não ia recusar o poder assim tão fácil (risos)… Mas, o que fez você mudar de ideia?

ALEX (triste)
As adversidades da vida.

(Alex abaixa a cabeça)

METRALHA
Então quando eu virar presunto, o morro é teu.

(Alex olha para Metralha e sorri sem a mínima vontade)

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(Ao chegarem, Adamastor para o carro na entrada do morro e Afrodite olha o mesmo, um pouco assustada)

AFRODITE
Então é aqui que o Alex mora?

ADAMASTOR
Sim… Eu também morava aqui antes de ir trabalhar lá na mansão. Apesar de ser uma favela, é um lugar muito bom de se viver… Sabia?

(Afrodite nada responde e continuar a olhar aquele lugar tão humilde)

ADAMASTOR
Eu vou parar o carro aqui, porque pode ser perigoso entrar dirigindo… Vamos ter que subir a pé.

AFRODITE
Está bem… Mas vamos depressa, antes que seja tarde demais.

(Afrodite fica triste e seus olhos enchem de lágrimas)

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(Na prisão, Maria dos Prazeres está sentada no canto da cela, chorando muito; Sapatão se separa das outras presidiárias e se aproxima de Maria dos Prazeres)

SAPATÃO
Tá sozinha aí, brotinho?

(Ao ouvir aquela voz rouca sussurrando em seu ouvido, Maria dos Prazeres se assusta e se levanta; Sapatão se aproxima cada vez mais de Maria dos Prazeres, encurralando-a contra a fria parede da cela)

SAPATÃO
Desde que você chegou aqui eu reparei nessa sua boquinha vermelha.

(Sapatão se prepara para beijar Maria dos Prazeres, que lhe dá um tapa na cara; Todas as presidiárias ficam chocadas; Com cara de dor, Sapatão alisa o rosto, onde levou o tapa)

SAPATÃO
Mãozinha pesada a sua, hein!

MARIA DOS PRAZERES
Eu gosto é de outra fruta, ok?… Faça o favor de não me cortejar mais, ouviu bem?

SAPATÃO
É assim que eu gosto… Quando mais bravinha, melhor!

(Sapatão ri e joga beijo para Maria dos Prazeres, que temerosa, vira a cara)

MARIA DOS PRAZERES
Eu preciso sair daqui… Preciso!

(Maria dos Prazeres fica com medo e discretamente olha para Sapatão, que a admira, com cara de desejo; Medrosa, Maria dos Prazeres vira-se de costas e se benze)

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(Adamastor e Afrodite caminham pelo morro)

ADAMASTOR (saudoso)
Bons tempos em que vivi aqui…

(Afrodite sorri, prestando atenção no que Adamastor diz; Desconfiado, Metralha os observa, juntamente com os moleques)

METRALHA
Tem carne nova no pedaço…

PIOLHO
Será que eles são espia dos gambé?

METRALHA
Não sei… “Vamo” descobrir agora!

(Metralha e Piolho botam uma máscara de meia preta e sorrateiramente surgem por trás de Adamastor e Afrodite; De repente, Afrodite olha para trás e se assusta; Metralha tapa a boca de Afrodite com a sua mão e a arrasta até o seu esconderijo; Adamastor continua falando sozinho, sendo seguido por Piolho)

ADAMASTOR
Então, Afrodite… Está gostando do morro?

(Adamastor olha para o lado e se assusta ao não ver Afrodite)

ADAMASTOR
Afrodite?

(Piolho tapa a boca de Adamastor, arrastando-o até o esconderijo de Metralha)

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(Ao chegar no esconderijo, Afrodite morde a mão de Metralha e ele a solta)

METRALHA
Ai!

(Metralha grita de dor e põe a mão na boca, para ver se ameniza a dor)

AFRODITE (amedrontada)
Me deixe sair daqui, por favor!

(Afrodite tenta correr, mas Metralha a agarra; Piolho entra com Adamastor, que tenta se soltar, mas não consegue; Adamastor fica desesperado ao ver Afrodite naquele estado; Adamastor tenta falar, mas é impedido por Piolho; Amedrontada, Afrodite tenta soltar-se de Metralha, mas não consegue)

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(Caminhando de volta para casa, Alex reflete em toda a sua vida)

ALEX
Virar bandido não foi o que a minha família sonhou pra mim… Imagina o desgosto que a minha mãe sentirá? E do que adiantou todo esforço que ela e meu pai não mediram para me tornar em quem sou hoje? Até estudo, graças à generosidade da minha madrinha que até hoje paga os meus estudos… Eu não posso decepcioná-los. Eu sou muito feliz como sou e não vai ser essa mágoa que estou sentindo da Afrodite que vai manchar minha história… É isso! Vou lá falar com o Metralha que renuncio e que não quero mais assumir o morro… Vou continuar como sou. Integro e honesto!

(Alex sorri e volta para o esconderijo de Metralha)

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(Metralha olha nos amedrontados olhos azuis de Afrodite e sorri, apaixonando-se por aquela meiga menina)

METRALHA
Piolho… Leva o velhote lá pro quarto. E me deixa sozinho com essa gatinha aqui.

AFRODITE (desesperada)
Não! O que você vai fazer comigo?

METRALHA
Fica calma… Eu num vô fazer nada de mal com você… Muito pelo contrário.

(Sorrindo, Metralha fala, alisando o rosto de Afrodite, que se apavora; Piolho trancafia Adamastor em um quarto velho e sai da casa, indo fazer a ronda; Quanto mais Adamastor bate na porta, querendo sair, mas Afrodite tenta se libertar de Metralha, que a agarra forte)

AFRODITE
Me solta!

(Em vão, Afrodite tenta soltar-se; Metralha sorri, admirando cada traço de Afrodite)

METRALHA
Eu num acredito em amor, mas olha… Tô encantado por tanta beleza vinda de uma pessoa só… Gostei de você! Quero você pra mim!

(Admirado com tanta beleza, Metralha vai lentamente para beijar Afrodite, que apavorada, reluta; Alex entra no esconderijo e se depara com a cena, chocando-se)

ALEX
Afrodite?!

(Metralha e Afrodite olham para Alex; Afrodite sorri)

AFRODITE (feliz)
Alex!… Que bom que você meu me salvar, príncipe!

“Afrodite fica feliz ao ver seu “príncipe” e finalmente consegue se libertar de Metralha, que entristecido, olha o abraço entre os dois… Alex e Afrodite se abraçam fortemente, desejando em seus íntimos, nunca mais se separarem um do outro. Mas será que isso acontecerá?… Metralha fica triste e Alex o olha, duvidoso. Um tanto mais segura, Afrodite afoga-se no forte abraço que dá em Alex, que por sua vez, olha para Metralha, que se envergonha por ter se encantado por Afrodite”

(Confuso, Alex vai se afastando lentamente do abraço)

ALEX
Afrodite… O que você está fazendo aqui?

AFRODITE
Eu vim para falar com você, Alex… Mas… Ele me arrastou aqui à força e trancafiou o Adamastor lá dentro.

(Ainda assustada, Afrodite se agarra a Alex e encara Metralha)

METRALHA (arrependido)
Foi mal, Alex… Eu não sabia que ela era a tua garota.

(Ao ouvir tal coisa, Alex lembra-se do beijo entre Afrodite e Frederick, ficando triste e com os olhos marejados)

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(Alex e Afrodite chegam ao pico do morro; Adamastor chega depois e para um pouco afastado)

ADAMASTOR (gritando)
Vamos, Afrodite… Já está tarde! Seus pais devem estar preocupados.

(Afrodite se vira, olhando para Adamastor)

AFRODITE (gritando)
Espere um pouco, Adamastor… Antes eu preciso conversar com o Alex.

(Adamastor faz cara feia, não achando uma boa ideia; Sorrindo, Afrodite olha para Alex, que permanece sério)

AFRODITE (feliz)
Ah, Alex… Eu senti tanto a sua falta!

(Afrodite vai para beijar Alex, mas ele a impede)

AFRODITE
O que há, Alex? Por que está tão sério?… Não está feliz em me ver também?

(Alex encara Afrodite, que vai parando de sorrir gradativamente)

ALEX (ríspido)
Como tem coragem de me olhar nos olhos depois de tudo o que você fez, Afrodite?

AFRODITE
Hã? Do que você está falando, Alex?… Eu não estou entendendo.

ALEX
Do beijo… Do beijo que você deu no Frederick.

AFRODITE
Não, Alex, não é nada disso que você está pensando… O beijo foi…

ALEX
E também da joia que você me acusou de querer roubá-la.

AFRODITE
Alex, mas a joia…

ALEX
A joia não importa. Você não acreditou em mim e isso eu não tolero.

(Os olhos de Afrodite enchem-se de lágrimas)

AFRODITE
Aquele colar tem um grande valor sentimental para mim, mas… Isso já passou, até porque…

(Triste, Afrodite olha para a sua barriga, alisando-a)

ALEX
Mas agora é tarde demais, Afrodite.

(Surpresa, Afrodite olha para Alex)

ALEX
Se você me amasse, mas amasse de verdade, teria confiado em mim… Mas aquela sua desconfiança, só fez provar que tudo o que você dizia sentir por mim… Todo aquele amor, tudo era falso.

(Com os olhos banhados em lágrimas, Afrodite dá um forte tapa na cara de Alex e eles se encaram friamente; Perplexo, Adamastor observa tudo, um pouco afastado)

AFRODITE
Nunca mais, Alex… Nunca mais duvide do amor que eu sinto por você… Adeus, Alex! Adeus para sempre.

“Alex recebe essas palavras como um duro golpe do destino, fazendo com que o seu coração doa e a tristeza salte em seus olhos, que lacrimejantes, olham para Afrodite; Por sua vez, completamente magoada com as palavras ditas pelo seu amado, Afrodite sai correndo chorando, seguida de Adamastor, que tenta alcançá-la; Alex fica ali parado e se afoga em lágrimas, olhando aquele céu tão estrelado, que remete toda a sua melancolia”

(A imagem se congela num tom preto-e-branco)

Continua…

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6 thoughts on “Um Amor e Duas Realidades – Capítulo 10

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